Wether Santana/ Estadão
Wether Santana/ Estadão

Sem folia por causa da covid-19, setor do turismo prevê perda bilionária no carnaval deste ano

Brasil movimentou em 2020 R$ 8 bilhões e gerou cerca de 20 mil empregos no feriado; perspectiva é de perda quase total

João Prata, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 14h00

As atividades relacionadas ao turismo terão uma perda bilionária por não haver oficialmente carnaval neste ano no Brasil. Em 2020, um mês antes de o Brasil entrar na pandemia do coronavírus, o País movimentou R$ 8 bilhões no feriado e gerou cerca de 25 mil empregos. Agora, as entidades ligadas ao setor evitam fazer qualquer projeção, mas sabem que haverá retração gigantesca.

"Será uma movimentação irrisória. Será quase uma perda total do que faturou no ano passado. Não há incentivo dos eventos de carnaval, nem poderia. As empresas também não irão patrocinar qualquer evento que promova aglomeração, ninguém vai atrelar a marca a qualquer evento que possa piorar a pandemia", disse Fabio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

A CNC, todo ano, faz projeções da movimentação financeira no carnaval. Neste ano, a entidade informou que não há como prever nada, sobretudo por conta das diferentes decisões de estados e municípios em relação ao feriado.

Segundo Bentes, o turismo perdeu R$ 261,3 bilhões, de março a dezembro de 2020 - o equivalente a mais de quatro meses de faturamento. Durante a pandemia foram cortados 397 mil empregos formais e o setor opera com 40% do seu potencial de geração de receita. "É um estrago enorme, e a recuperação vai demorar, ficando, provavelmente, para 2022, 2023. Já vimos alguma retomada no comércio, agropecuária, indústria, mas, no setor de serviços, não", disse.

No Rio de Janeiro e em São Paulo também não há projeções. A iniciativa das prefeituras será para tentar coibir aglomerações que aconteçam em blocos clandestinos na cidade. Na capital fluminense, para evitar a entrada de ônibus, vans e outros veículos de fretamento na cidade, serão montadas barreiras em pontos estratégicos e realizado patrulhamento móvel com reboques. "O objetivo é impedir que grupos de outros municípios e estados venham para o Rio passar curtos períodos com o intuito de promover ou frequentar blocos clandestinos e eventos afins", disse o secretário municipal de Ordem Pública do Rio, Brenno Carnevale.

Em São Paulo, a ideia é promover ações online para a população aproveitar o carnaval em casa. São cerca de 380 atividades entre instalações artísticas e apresentações. "É um carnaval possível no momento em que vivemos. Hoje, o mais importante é resguardar a saúde dos milhares de profissionais envolvidos na festa e dos foliões.”, comenta o Secretário de Cultura da Cidade de São Paulo, Alê Youssef.

As cidade de Salvador, um dos principais destinos turísticos neste período, é otimista e a arrecadação caia só pela metade. Em vez dos 850 mil turistas que movimentaram R$ 1,7 bilhão em 2020, a expectativa é uma redução de pelo menos 50%.

A expectativa para evitar uma perda ainda maior está no turismo interno do Estado. "Estamos fazendo o reforço do turismo local, da própria Bahia. Estamos com campanhas mostrando a nova Salvador, convidando o baiano para conhecer a capital. É um campanha direcionada aos grandes municípios do Estado", explicou o secretário de cultura e turismo, Fábio Mota.

No Recife, o setor dos hotéis está com uma expectativa de 55% de ocupação, de acordo com a  Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Pernambuco (ABIH-PE). A Prefeitura da cidade divulgará a ação Recife Tá ON, com displays na recepção de 40 hotéis.

Apesar de tentar promover o turismo no período, Salvador e Recife dizem que cumprirão todos os protocolos sanitários. Mota informou que a capital baiana criou um selo de qualidade para certificar que o ponto turístico cumpre todos os requisitos impostos pela secretaria de saúde.

"Não é fácil criar uma estratégia neste momento. Salvador, diferentemente de outras metrópoles, não tem grandes indústrias. A dependência da arrecadação é muito grande  no setor de serviço e turismo. Não ter carnaval mexe com cadeia de ambulantes, comercio, hotel, setor de alimento, locação de veículo... A perda é muito grande para cidade."

O carnaval de Salvador gera cinco mil empregos formais diretos no período, e 15 mil indiretos. Também existe estimativa de que 20 mil ambulantes trabalhem nos circuitos onde acontece o carnaval. Para tentar amenizar o problema, o secretário espera realizar um carnaval fora de época, no segundo semestre.

"É uma incógnita ainda a data, porque depende da imunização. A gente tinha expectativa de receber muitas vacinas neste ano, mas não aconteceu. Vamos ver se o cenário muda nos próximos meses. A ideia inicial era fazer o carnaval entre setembro e outubro."

Bentes acha pouco provável que isso aconteça. "São eventos grandiosos, que exigem quase um ano para ser organizado, há muitas empresas e empresários envolvidos. Produzir o carnaval com escolas de samba como no Rio em São Paulo ou os circuitos em Salvador demandaria mais tempo."

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