Sem gravata, com 'arco e flecha'

Dos três candidatos convidados para o debate de ontem, o único que apareceu sem gravata foi o mais jovem deles, o deputado Índio da Costa, de 39 anos - vice na chapa de José Serra (PSDB). Talvez tenha escolhido o traje de acordo com o papel que iria desempenhar logo em seguida no palco do auditório do Estado. Ágil, bem treinado, com língua afiada e o auxílio de uma espécie de cartilha que tinha no colo, consultada a cada vez que um tema era apresentado, ele fustigou o PT e a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff da primeira à ultima intervenção.

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2010 | 00h00

Pareceu à vontade no papel, insistindo na existência de relações estreitas entre petistas, Farc, narcotraficantes e movimentos de sem-terra (que ele não considera movimentos sociais, mas sim de marginais, uma vez que violam as normas legais do País ao invadir propriedades).

Hábil, o deputado Michel Temer (PMDB), de 69 anos, vice de Dilma, não deixou as críticas sem resposta. Suas intervenções foram todas em tom calmo, sem levantar a voz e, às vezes, até com uma leve demão irônica. Não deu ao concorrente a lenha para incendiar o debate.

O que predominou foi o duelo entre esses dois políticos: um que está em fase de ascensão, que valoriza muito o pronome "eu" e é o mais provável candidato do DEM à Prefeitura do Rio em 2012; e outro muito mais experiente, instalado desde longa data no poder. Temer está no seu terceiro mandato como presidente da Câmara, dirige o maior partido do País e tem a perspectiva, no caso da vitória de Dilma, de ser o principal articulador da partilha de cargos com o PT e outros partidos da coligação.

No debate, enquanto um alertava para a iminência de um desastre, o outro, sem papéis no colo, dizia que a nave está indo em frente e que a corrupção, endêmica desde os tempos do Brasil Colônia, está sendo vencida aos poucos.

Leve e solto. Entre os dois, o empresário Guilherme Leal, de 50 anos, que desembarcou neste ano na vida política partidária e ontem debutou em debates políticos, não fez feio. Embora sem a habilidade dos outros para manipular o tempo das respostas e até fugir do tema proposto, pareceu tranquilo.

Coube a Leal, que em determinado momento se definiu como "livre, leve e solto", o primeiro momento de descontração na plateia. Provocou gargalhadas ao se referir ao vice de Serra como "nosso aguerrido deputado Índio da Costa, com seu arco e flecha" - numa referência ao estilo franco atirador do concorrente. Por outro lado, também coube a ele a expressão mais dura em relação ao projeto do trem-bala defendido por Dilma, para ligar Rio e São Paulo. Tachou-o de "eleitoreiro".

Um detalhe curioso sobre a participação de Leal foi que, ao se referir a temas polêmicos, como aborto e casamento gay, fugiu do pronome "eu". Preferiu dizer que "a candidatura Marina Silva acha" isso e aquilo.

No caso de Temer, chamou a atenção o fato de não ter se referido ao Bolsa-Família - o principal programa do governo Lula na área social.

Índio, que usava um relógio esportivo, vistoso, de pulseira alaranjada, confundiu datas e fatos ao afirmar que a invasão da Colômbia pelos Estados Unidos, em 1984, resultou na morte do narcotraficante Pablo Escobar. De acordo com os manuais de história, essa invasão não ocorreu. Quanto a Escobar, foi morto em 1993 por policiais colombianos, com o apoio de agentes americanos.

Ouvidor. Em relação ao papel que desempenhará no governo, em caso de vitória, o deputado do DEM disse que deverá atuar como ouvidor: "Minha função, se o Serra for eleito, será estar ao lado das pessoas ouvindo os problemas, com minha experiência política e humana."

Temer, que é jurista, lembrou a letra da lei: "A Constituição lembra que o vice deve ter discrição, mas não omissão. O que se quer de um vice é que possa colaborar com o governo."

Quanto a Leal, quer levar sua experiência de empresário bem sucedido - ele é um dos donos da Natura - para a administração pública.

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