Sem informação sobre Voo 447, França cogita até terrorismo

Mistério sobre desaparecimento cresce após Aeronáutica negar que peças achadas no mar eram do avião

05 de junho de 2009 | 11h58

A negativa da Aeronáutica de que as peças encontradas no Oceano Atlântico a cerca de 700 quilômetros de Fernando de Noronha, seriam do Airbus da Air France, ampliou o mistério em torno do desaparecimento do avião com 228 a bordo na última segunda, 1º.  A França reiterou nesta sexta-feira, 5, que nem a hipótese de atentado terrorista foi descartada. "Sempre disse que não podemos descartar o terrorismo", disse Hervé Morin, ministro da Defesa francês. 

 

Outra tese que vem ganhando força é a da falha nos indicadores de velocidade como um dos causadores do acidente. A Airbus divulgou nesta quinta-feira procedimentos a serem seguidos caso a tripulação suspeite de falhas nos indicadores de velocidade das aeronaves, sugerindo que um defeito técnico pode ter sido preponderante no acidente. Mensagens de emergência enviadas durante três minutos antes da queda indicam que havia uma inconsistência entre diferentes velocidades aferidas pelos instrumentos logo depois que o avião entrou em uma zona de tempestade.

 

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Os investigadores não sabem se realmente ele chegou à zona de tempestade com velocidade errada. Um especialista em aviação, que pediu anonimato, disse que os sensores de velocidade se baseiam na pressão do ar e podem apresentar leituras incorretas se forem obstruídos por objetos como o gelo. Mas o equipamento é aquecido para evitar o congelamento, e não há informações precisas sobre qualquer falha. Se os pilotos tiverem confiado em leituras imprecisas, podem ter alterado equivocadamente a velocidade, prejudicando a estabilidade do voo.  

 

O que já se sabe sobre o Voo 447

 

4 minutos no total: O primeiro sinal de um possível problema a bordo chegou às 23h10 (hora de Brasília) do domingo, dando conta de que o piloto automático do Airbus A330-200 havia se desconectado. As mensagens seguintes apontam para uma sucessão de graves panes em alguns dos principais computadores do jato. O último alerta foi emitido às 23h14: "cabin vertical speed" (cabine em velocidade vertical, na tradução do inglês). Sem gravações de diálogos com o comandante do voo, as dúvidas só poderão ser dirimidas a partir das caixas pretas da aeronave, ainda perdidas no meio do oceano.

 

Houve falta de comunicação com o controle aéreo do Recife, mas ainda não há explicação sobre as causas. Isso pode indicar que o problema que afetou o avião foi repentino e severo, sem dar tempo para que a tripulação entrasse em contato por rádio com os controladores de voo. Sabe-se que, minutos antes do acidente, uma comunicação por rádio com a base do Recife informou que não havia problemas climáticos por volta das 23 horas (horário de Brasília).

 

Desintegração no ar: a tese é reforçada pela forma dispersa em que os destroços estão sendo localizados no Atlântico. "É possível observar fragmentos ao longo de uma distância de mais de 300 quilômetros", diz a fonte citada pelo Le Figaro. A desintegração a cerca de 10 mil metros de altura poderia ocorrer por um fenômeno meteorológico "excepcionalmente violento", uma "brusca despressurização" ou um "atentado terrorista", segundo o jornal.

 

Um piloto da companhia Air Comet que fazia o trajeto Lima-Madri na madrugada de segunda-feira também disse ter visto um "clarão forte e intenso de luz branca, que assumiu uma trajetória descendente e vertical e desapareceu em seis segundos", segundo o jornal El Mundo, da Espanha, o que pode reforçar a tese de que o avião explodiu  no ar. Ele sobrevoava uma região próxima ao acidente quando viu o clarão e seu informe foi entregue à Direção Geral da Aviação Civil Espanhola e à Air France.

 

Plano de voo: A aeronave não seguiu a altitude prevista pelo plano de voo quando o aparelho foi detectado pela última vez pelos radares de Fernando de Noronha. O Voo 447 deveria subir de 35 mil pés (10,7 km) para 37 mil pés (11,3 km), o que não foi feito. As causas são desconhecidas, inclusive se os controladores de voo autorizaram a manutenção da altura. 

 

Sem problemas antes da decolagem: As autoridades francesas afirmaram que não há dados para afirmar que o avião da Air France da apresentava problemas antes de decolar do Rio de Janeiro com destino a Paris. O Escritório de Pesquisas e Análise (BEA, na sigla em francês) comunicou que "nenhum fator leva a pensar que o avião tinha um problema antes de partir do Rio".

 

Pane elétrica: Uma das hipóteses levantadas por pilotos e experts em segurança de voo é a possibilidade de o avião ter ficado sem instrumentos de navegação e ter se acidentado. Não há explicação para o início desses problemas que teriam provocado pane nos instrumentos. Tanto pode ser um raio como outro problema gerado na chamada "baia eletrônica", onde ficam os computadores que controlam os equipamentos do avião. Nos anos 90, curtos-circuitos em sistemas elétricos podem ter derrubado aviões como um MD-11 da Swissair e um Boeing 747 da TWA no litoral da América do Norte.

 

Em caso de percurso errático, o acionamento do controle automático pode ser detonado, retirando o comando da tripulação e levando a aeronave a desvios súbitos de trajetória, com ganho ou perda radical de altitude e aceleração superior à suportada pelo equipamento. Jean Serrat, ex-comandante e membro do Sindicato Nacional de Piloto da França lembra ainda que, caso o piloto tenha decidido alterar a rota do avião elevando de forma brusca sua altitude, com o intuito de evitar a instabilidade, o desempenho do aparelho pode ter sido insuficiente. "Nem todos os aviões são capazes, seja por seu peso, seja por seu desempenho, de passar por sobre as tempestades que se formam na região da linha do Equador", explica.

 

Falha humana: Especialistas ouvidos pelo jornal francês Le Figaro afirmam que 70% das catástrofes aéreas acontecem por falha humana, principalmente nos casos em que os procedimentos não são respeitados.

 

Mau tempo: Especialistas indicam que uma das hipóteses seria de que a área de instabilidade climática que transitava a faixa equatorial do oceano Atlântico no momento do voo possa ter levado à alteração súbita e imprevista da rota, possivelmente fruto de um processo de congelamento e dano dos principais mecanismos de orientação da aeronave. Porém, o jato é equipado com radares capazes de prever condições meteorológicas adversas na rota e escapar do núcleo de cumulus nimbus, onde a instabilidade é ainda maior. Os técnicos do BEA da França não acreditam na chance de uma tempestade elétrica ter sido decisiva para a sorte dos passageiros.

 

De acordo com o instituto Méteo France, as condições no momento do trânsito do avião pelo Atlântico não eram as piores possíveis. Prova disso: outras aeronaves atravessaram a mesma região de instabilidade sem sobressaltos. O certo é que sem a caixa preta do aparelho, poucas das dúvidas que cercam a queda do Airbus poderão ser esclarecidas. 

 

Atentato terrorista: A França diz que nunca descartou essa hipótese, mas a considera pouco provável. 

Para o diretor-geral do Departamento de Aviação Civil da França, Patrick Gandil, a sequência de uma dezena de mensagens automáticas enviadas em um intervalo de quatro minutos a partir de 4h13min (23h13min de Brasília) indicam que não houve "despressurização explosiva", a destruição, parcial ou total, do aparelho - o efeito mais plausível provocado pela explosão de uma bomba. Também nenhum gurpo terrorista reivindicou qualquer tipo de autoria.

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