Dida Sampaio/Estadão
Investimento em gerador no início do ano salvou o estoque de vacinas de Tartarugalzinho, conta Alessandro Morungaba, dono do açougue  Dida Sampaio/Estadão

Sem energia elétrica, vacinas foram refrigeradas em açougue no Amapá

No interior, cidade de Tartarugalzinho teve de improvisar porque posto de saúde não tem gerador; Estado entra no 10º dia de apagão

Vinícius Valfré, enviado especial, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 05h00

TARTARUGALZINHO (AP) - A interrupção no fornecimento de energia elétrica colocou em xeque as vacinas à disposição dos 17 mil moradores de Tartarugalzinho, cidade de frágil infraestrutura na floresta do Amapá. Com o apagão que atingiu o Estado, a luz parou de chegar à unidade básica de saúde (UBS) onde ficam as duas geladeiras com os materiais, que demandam refrigeração permanente.

A saída emergencial para que não se estragassem os lotes de vacinas - como a tríplice viral, a de hepatite B e a antirrábica - foi transferir as geladeiras para um açougue, um dos poucos locais com energia na cidade, 230 km ao Norte de Macapá. 

As geladeiras com as vacinas ficaram no local improvisado por seis dias, de quarta-feira da semana passada até a última segunda-feira, 9, quando voltaram para o posto de saúde. Além de carne, o estabelecimento trabalha com produtos variados de material de construção.

"Todas as vacinas utilizadas pela população tiveram de sair daqui por causa do apagão. Não temos gerador. Armazenamos tudo em caixas térmicas. Mas depois tivemos que levar para o açougue que tem gerador", afirmou Bete Correia, diretora da UBS José Meireles. 

O atendimento nas duas únicas unidades de saúde do município chegou a ser suspenso. “Era uma urgência. As vacinas poderiam estragar e deixar de atender muitas crianças”, contou o açougueiro Alessandro Juan, de 43 anos. Morungaba, como ele é conhecido, fez um investimento providencial no início do ano. O gerador que custou R$ 14 mil ajudou a socorrer também outros comerciantes e vizinhos.

Na última segunda-feira, o presidente Bolsonaro disse que a situação estava 70% resolvida. Se na capital do Estado o rodízio de luz é falho, no interior as consequências do apagão são ainda mais severas. A equipe do Estadão registrou nos municípios de Tartarugalzinho, Ferreira Gomes e Porto Grande o drama das famílias com as quedas de energia. Nas ruas centrais sem asfalto, os comunicados oficiais de Brasília não fazem eco, ante a falta de luz e energia.

Só três cidades, abastecidas com sistemas diferentes daquele que pegou fogo no último dia 3, não estão às escuras: Oiapoque, Laranjal do Jari e Vitória do Jari. Em municípios como Calçoene e Amapá, os dramas ainda são profundos.

No bairro do Trem, em Macapá, onde mora o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM), o rodízio de energia é regular. A luz tem hora para chegar e para ir embora. As casas do entorno de hospitais da região metropolitana estão beneficiadas por alimentação permanente. Nos rincões do Estado, a vida está longe de voltar ao normal.

Sem gelo

Lenilton Barbosa dos Santos, 39, não pesca desde a terça-feira da última semana, 10. Morador da comunidade de Andiroba, entre Tartarugalzinho e Ferreira-Gomes, precisa de gelo para armazenar os tucunarés que tira do Rio Tartarugalzinho. “Sem gelo não dá para pescar. Arrumei um trocado porque consegui uma mandioca que um rapaz me deu, fiz farinha e vendi. Comprei açúcar, café, coisas para manter as crianças. Mas já acabou”, disse.

Lenilton conseguiu acesso a não mais do que três parcelas do auxílio emergencial de R$ 600 pagos pelo governo. Com dois terços do dinheiro presenteou a si próprio com uma geladeira, em agosto - ela está fora da tomada desde a semana passada. “Não tem como funcionar. A energia vai e volta.”

Para não perder a pouca comida que tinham, a mulher dele salgou o alimento. “A gente tem de colocar sal na carne e no peixe para não estragar. A água também não tá boa. Quando a luz vem, a gente enche a caixa e vamos distribuindo”, disse Ziane Souza Santos, 28, enquanto o caçula de seis filhos, Diogo, de 11 meses, dormia em seu colo.

O casal reservou o dia para viajar ao centro de Tartarugalzinho para, entre outras coisas, atualizar os cadastros de pescadores e conseguir um cartão do SUS. A informação no hospital era a de que não havia internet para atendê-los. A viagem foi perdida. Custou cerca de R$ 50.

No breu das noites de Tartarugalzinho, bem longe de Brasília, não resta muito a não ser esperar e resistir. Em uma roda de cantoria no centro da cidade, um grupo de jovens matava o tempo iluminado pela luz das estrelas e por celulares. Cantavam a canção É preciso saber viver, de Roberto e Erasmo Carlos.

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Com o apagão, o Amapá perdeu o controle sobre os dados da pandemia e não atualiza o número de infectados e mortos Dida Sampaio|Estadão

Com apagão, Amapá deixa de contar novos infectados pelo coronavírus

Apagão atrasa registro de casos e mortes pela covid-19; UTI está sobrecarregada

Vinícius Valfré, enviado especial , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Com o apagão, o Amapá perdeu o controle sobre os dados da pandemia e não atualiza o número de infectados e mortos Dida Sampaio|Estadão

MACAPÁ - A falta de energia no Amapá colocou o sistema estadual de saúde pública, já precário, sob mais pressão. Com a queda no sistema elétrico, há uma semana, em 13 dos 16 municípios do Estado, a comunicação da rede do setor foi cortada e prejudicou o controle de registro de novos pacientes com suspeitas da covid-19 que procuram o primeiro atendimento nas unidades regionais.

O governo estadual informou ao Estadão que há cinco dias não envia boletins de casos da doença ao Ministério da Saúde. Outros Estados também vêm apresentando problemas na atualização dos boletins. 

Sem os dados em tempo real, as autoridades sanitárias locais não sabem como a pandemia se comporta. A falta de informação prejudica a gestão do sistema e dificulta, por exemplo, planejar a necessidade de mais ou menos leitos. 

“Por causa do apagão, temos um limbo de informação que ainda não conseguimos acessar, sobre casos que, por exemplo, procuraram unidades básicas de saúde”, disse o secretário estadual de Saúde, Juan Mendes Silva. “A comunicação ainda está fragilizada. Hoje estamos começando a retomar a questão do boletim.”

O abastecimento de energia tem sido restabelecido de forma permanente nas áreas dos hospitais, sem os rodízios de seis horas que foram estabelecidos para outras áreas. Apesar disso, ainda há oscilação em unidades básicas de referência para o combate à covid-19. São esses os locais que, no Amapá, recebem pacientes com os primeiros sintomas, para testagem.

No centro de Macapá e nas periferias, máscaras de proteção facial não predominam. O crescimento dos casos de infecção pelo novo coronavírus foi significativo nas últimas três semanas e, antes do apagão, a curva ainda era estável, sem declínio. O consórcio de veículos de imprensa registrou a partir do dia 26 de outubro 1.883 casos e 10 mortes. Até a última quarta-feira, 751 amapaenses haviam morrido com o vírus. Os números, porém, não são atualizados desde o dia 4. Ontem, a equipe de reportagem presenciou a retirada de dois corpos de vítimas da covid-19 do Hospital Universitário, referência no combate à doença.

A UTI do Hospital Universitário está sobrecarregada. O quadro demanda uma manobra de enfermeiros para não desmotivar os pacientes que lutam pela vida. Enquanto as equipes dos serviços funerários saem com corpos em caixões lacrados, os profissionais da saúde se posicionam de modo a obstruir a visão dos internados.

Previsão de surtos

Outro foco de pressão sobre o sistema de saúde do Amapá está nos improvisos da população para ter o que beber e comer nos últimos dias. Sem água para lavar a louça ou consumir, quem não pode pagar por galões inflacionados recorre a doações, poços artesianos ou até mesmo ao Rio Amazonas. O governo estadual prevê surto de casos de doenças diarreicas agudas por causa da qualidade da água que está sendo consumida e das condições dos alimentos. 

A queda de energia, provocada por incêndio em uma subestação, interrompeu o funcionamento das bombas da companhia de distribuição de água e o governo chegou a usar geradores para retomar esse serviço. Na pandemia de covid-19, as autoridades mundiais ressaltam que a higiene é um importante fator para conter o avanço da doença. “Moramos na beira do maior rio do mundo e não temos água para beber”, afirma o caminhoneiro Danielso de Araújo Borges, de 37 anos.

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Hospital teve de revezar na hemodiálise dele, diz mulher que perdeu marido durante apagão no Amapá

Rubens Neves de Albuquerque Júnior, de 59 anos, morreu no sábado e família atribui piora no quadro ao apagão que atinge o Estado. 'Sempre acreditei que ele ia sair vivo', lamenta mulher

Vinícius Valfré, Enviado especial a Macapá

10 de novembro de 2020 | 05h00

O apagão no Amapá impôs a alguns moradores tragédias em combo. O Estado enfrenta problemas no fornecimento regular de energia elétrica desde a terça-feira passada. Aos poucos, a luz volta à região, mas as dificuldades ainda são sentidas. O governo federal fala em restabelecimento total em nove dias. Além da preocupação sobre como ter água para beber e para a rotina de casa, a professora Maria Adriana Silva Fonseca, de 36 anos, tinha apreensão com o quadro de saúde do marido. 

Aos 59 anos, Rubens Neves de Albuquerque Júnior contraiu o novo coronavírus. Com quadro de diabetes e pressão alta, não conseguiu a mesma pronta recuperação que Adriana e as filhas, de 13 e 14 anos.

De um hospital na cidade de Santana, a 20 quilômetros da capital, Rubens foi transferido para o HU, na capital. Foram dez dias internado, sem nenhum contato com a família. A última conversa com a mulher foi há duas semanas, por telefone. 

O paciente morreu no sábado, 7. “Estava esperando que ele fosse se recuperar. Ele lutou pela vida dele. Eu sempre acreditei que ia sair daqui com ele vivo, assim como deixei ele aqui vivo”, lamentou Maria Adriana. A professora afirma que recebeu informações do hospital sobre a necessidade de revezamento dos pacientes nos aparelhos de hemodiálise.

“A situação dele se agravou por causa desse apagão. Tiveram de revezar na hemodiálise dele. Essa (falta) de energia também atingiu aqui”, relatou. “O que chegou para nós foi que o que agravou foi o apagão mesmo”, ressaltou. 

Procurada por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria de Saúde não comentou a denúncia. A direção do hospital também evitou se pronunciar.

Mortos pela covid-19 precisam ser enterrados rapidamente. Os corpos são tirados do hospital por funcionários com roupas especiais e logo levados para o cemitério. Entre a família de Maria Adriana receber a notícia da morte e enterrar Rubens, passaram-se apenas cerca de cinco horas. 

O cemitério São José de Macapá, para onde foi levado o corpo do técnico, não permitiu que os parentes fizessem velório. A equipe de reportagem também não pode entrar no cemitério. A justificativa é evitar aglomerações por causa do vírus.

A ordem que é passada aos coveiros é limitar no máximo a dez o número de pessoas com entrada autorizada num sepultamento de algum parente. Diante disso, quase sempre a maior parte da família acaba ficando do lado de fora do cemitério, prestando as últimas homenagens à distância.

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Nas ruas de Macapá, apagão agrava clima de insegurança

Falta de energia elétrica, há mais de uma semana, traz desconforto e medo à periferia da capital do Amapá, que já convive com alta criminalidade

Vinícius Valfré, enviado especial, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2020 | 05h00

MACAPÁ - A luz cai a todo momento nas casas da periferia de Macapá. Moradores reclamam que o rodízio no abastecimento não funciona como propaga o governo. O vai e volta da energia aumenta o desconforto e agrava o clima de insegurança nas ruas escuras da capital do Amapá. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro vende como normalizada a situação no Estado, a vida de moradores afetados pelo apagão segue repleta de improvisos e dificuldades.

Em transmissão ao vivo pelas redes sociais, Bolsonaro disse na segunda-feira que 70% da energia foram restabelecidos no Amapá e deu um prazo de nove dias para normalizar a situação. Quem percorre as periferia da capital percebe que a realidade é outra.

Alguns bairros têm estruturas distintas da distribuição de luz. Com isso, ruas da mesma área ficam com horários de rodízio diferenciados. A falta de energia afeta ainda mais a rotina dos moradores quando a cidade aparece em destaque nas listas da criminalidade. Com uma taxa de 54,1 mortes por 100 mil habitantes, Macapá está entre as dez capitais mais violentas do País segundo o Atlas da Violência 2019. 

Em uma parte do bairro Pacoval, a energia só chega a partir da meia-noite e é suspensa às seis da manhã. Sem ventilador, dormir antes da madrugada é impossível. A falta de luz nos postes e dentro de casa também traz preocupação à família de Socorro Almeida, 42 anos, da professora de reforço escolar.

Na casa dela moram 15 pessoas, entre adultos e crianças. Colchões são espalhados pela varanda para que os pequenos tentem descansar. A família fica do lado de fora, na calçada, em busca de ar fresco. “Como está tudo escuro, é perigoso ficar aqui”, admite. 

Como as baterias dos celulares acabam, é preciso recorrer a velas, que tiveram preços inflacionados. A caixa sai a R$ 7,50 e não dura mais do que uma noite. É uma despesa importante para quem tem renda baixa. Definitivamente, as coisas não estão normais na casa de dona Socorro nem na extensão dessa localidade, próxima ao centro da capital. 

Para que mais luz natural entre na casa durante o dia, parte da mobília e dos eletrodomésticos da cozinha ficam de fora. A geladeira perdeu utilidade. Parte da comida estragou nos dias sem energia. Mesmo com o rodízio, os períodos não são suficientes para congelar a comida nem para gelar água suficiente para todos os moradores da casa. “Nós estamos bebendo água quente”, contou a professora. Se decidem se dar ao luxo de uma coca-cola gelada no comércio local, pagam R$ 15 na garrafa, em vez dos R$ 8 cobrados antes do apagão.

Noite tem calor de quase 40ºC

Na sensação térmica de quase 40ºC, a solução é beber água quente. No ócio das noites escuras, vizinhos discutem o que é pior: ter luz até meia-noite e passar a madrugada no calor ou suar até o início da madrugada para poder dormir com o ventilador ligado.

Filha de Socorro, Maria Clara Barbosa de Almeida, 20, cursa Serviço Social. Sonha dar uma vida melhor à família e ajudar profissionalmente pessoas que precisam. No período de apagão, estudar está fora de cogitação. Manter-se segura, ter comida e água limpa são as preocupações centrais. “É sobre o nosso dia a dia, nossa rotina, que está completamente mudada. Tem muita gente se aproveitando de apagão, bandido aproveitando para roubar”, disse. “Estão tendo acidentes também. Meu marido é ajudante de pedreiro e vigilante da obra. Ele precisa trabalhar e quase caiu de bicicleta em um buraco. O trabalho dele fica mais perigoso também.”

Unidade de saúde tem apoio de gerador

Há uma semana, desde o início do apagão, a UPA da Zona Norte de Macapá, no bairro Novo Horizonte, é auxiliada por um gerador que precisa ser ligado manualmente quando há pique de energia. Durante a hora em que a reportagem permaneceu na unidade, caiu o abastecimento do entorno por alguns minutos, derrubando luz e sinais de telefonia. “Já aconteceu outras duas vezes”, contou uma mulher que acompanhava o marido em atendimento.

Segundo funcionários da unidade, o atendimento não é prejudicado porque equipamentos como respiradores têm baterias que são acionadas entre a queda da luz e a ativação do gerador. A unidade lida, também, com pacientes com a suspeita da covid-19. Banhos e lavagem de roupas e de máscaras perderam frequência. Autoridades sanitárias ainda têm dúvidas sobre como a doença afetará as aglomerações e falta de higiene.

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Com o apagão, o Amapá perdeu o controle sobre os dados da pandemia e não atualiza o número de infectados e mortos Dida Sampaio|Estadão

Sem energia elétrica, Amapá vira zona de guerra

Apagão atrasa registro de casos e mortes pela covid-19; UTI está sobrecarregada

Vinícius Valfré, enviado especial , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Com o apagão, o Amapá perdeu o controle sobre os dados da pandemia e não atualiza o número de infectados e mortos Dida Sampaio|Estadão

MACAPÁ - A falta de energia no Amapá colocou o sistema estadual de saúde pública, já precário, sob mais pressão. Com a queda no sistema elétrico, há uma semana, em 13 dos 16 municípios do Estado, a comunicação da rede do setor foi cortada e prejudicou o controle de registro de novos pacientes com suspeitas da covid-19 que procuram o primeiro atendimento nas unidades regionais.

O governo estadual informou ao Estadão que há cinco dias não envia boletins de casos da doença ao Ministério da Saúde. Outros Estados também vêm apresentando problemas na atualização dos boletins. 

Sem os dados em tempo real, as autoridades sanitárias locais não sabem como a pandemia se comporta. A falta de informação prejudica a gestão do sistema e dificulta, por exemplo, planejar a necessidade de mais ou menos leitos. 

“Por causa do apagão, temos um limbo de informação que ainda não conseguimos acessar, sobre casos que, por exemplo, procuraram unidades básicas de saúde”, disse o secretário estadual de Saúde, Juan Mendes Silva. “A comunicação ainda está fragilizada. Hoje estamos começando a retomar a questão do boletim.”

O abastecimento de energia tem sido restabelecido de forma permanente nas áreas dos hospitais, sem os rodízios de seis horas que foram estabelecidos para outras áreas. Apesar disso, ainda há oscilação em unidades básicas de referência para o combate à covid-19. São esses os locais que, no Amapá, recebem pacientes com os primeiros sintomas, para testagem.

No centro de Macapá e nas periferias, máscaras de proteção facial não predominam. O crescimento dos casos de infecção pelo novo coronavírus foi significativo nas últimas três semanas e, antes do apagão, a curva ainda era estável, sem declínio. O consórcio de veículos de imprensa registrou a partir do dia 26 de outubro 1.883 casos e 10 mortes. Até a última quarta-feira, 751 amapaenses haviam morrido com o vírus. Os números, porém, não são atualizados desde o dia 4. Ontem, a equipe de reportagem presenciou a retirada de dois corpos de vítimas da covid-19 do Hospital Universitário, referência no combate à doença.

A UTI do Hospital Universitário está sobrecarregada. O quadro demanda uma manobra de enfermeiros para não desmotivar os pacientes que lutam pela vida. Enquanto as equipes dos serviços funerários saem com corpos em caixões lacrados, os profissionais da saúde se posicionam de modo a obstruir a visão dos internados.

Previsão de surtos

Outro foco de pressão sobre o sistema de saúde do Amapá está nos improvisos da população para ter o que beber e comer nos últimos dias. Sem água para lavar a louça ou consumir, quem não pode pagar por galões inflacionados recorre a doações, poços artesianos ou até mesmo ao Rio Amazonas. O governo estadual prevê surto de casos de doenças diarreicas agudas por causa da qualidade da água que está sendo consumida e das condições dos alimentos. 

A queda de energia, provocada por incêndio em uma subestação, interrompeu o funcionamento das bombas da companhia de distribuição de água e o governo chegou a usar geradores para retomar esse serviço. Na pandemia de covid-19, as autoridades mundiais ressaltam que a higiene é um importante fator para conter o avanço da doença. “Moramos na beira do maior rio do mundo e não temos água para beber”, afirma o caminhoneiro Danielso de Araújo Borges, de 37 anos.

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Apagão no Amapá: peixes apodrecem sem geladeira e aluguel de tomadas vira negócio

No Mercado do Pescado, comerciantes calculam prejuízos; já as lojas com gerador ate cobram para carregar celulares

Vinícius Valfré, Enviado especial

07 de novembro de 2020 | 22h07

MACAPÁ - Pelas ruas de Macapá, o sábado, 7, foi de tensão, prejuízo no comércio, pequenos conflitos e busca desesperada por água. Sem energia elétrica, as bombas das tubulações da rede e os sistemas dos poços artesianos não funcionaram. A capital é um dos 13 municípios do Amapá que sofrem com um apagão desde a noite de terça-feira, 3, quando um incêndio atingiu uma subestação de energia da capital. Amapaenses relataram dificuldade para conseguir água e comida ao longo da semana.

Neste sábado, o governo federal anunciou a retomada do abastecimento de 65% da carga do Estado, mas com sistema de rodízio. A previsão é que a situação seja totalmente normalizada somente em dez dias. Mas, também neste sábado, a Justiça Federal obrigou o restabelecimento da energia no Estado em até três dias. 

Durante a tarde deste sábado, o Estadão presenciou moradores em uma tentativa de encher galões e baldes de água. A 600 metros da residência oficial do governo do Estado, na região central de Macapá, um grupo descobriu um cano pelo qual corria água potável. A terra foi cavada e o cano, furado para a retirada de água. 

A tubulação abastecia o quiosque do comerciante Joel Silva, de 46 anos. Um princípio de tumulto foi armado. “Todo mundo tem necessidade, vocês não têm de chegar aqui quebrando”, reclamou ele. “Olha o prejuízo que me deram”, continuou. Foi o próprio comerciante quem tinha feito o encanamento há sete anos.

É um drama extra para quem vive sob os 33 graus que os termômetros marcaram ontem, com sensação térmica próxima dos 40. Enquanto Joel reclamava, o morador Raimundo da Costa, de 45 anos, apareceu com uma caixa de mil litros para encher de água. “O Amapá tem um monte de hidrelétrica e o que tem para nós é isso daqui”, criticou ele. 

Nos bairros da periferia da única capital brasileira na margem do Rio Amazonas, baldes, garrafas e recipientes são vistos a postos em frente às casas. A água ficou cara. Galões que eram vendidos a R$ 6 agora saem a R$ 17. 

Até carregar a bateria do celular virou negócio. Pelos relatos, comerciantes cobram entre R$ 5 e R$ 10 para emprestar as tomadas de estabelecimentos que têm pequenos geradores. 

Cooperação

Mas a solidariedade também marca presença nas cidades sem energia elétrica. O gerente de um posto de combustíveis de Santana, a cerca de 25 quilômetros de Macapá, liberou o acesso ao reservatório abastecido por um poço. Ele também autorizou o uso das tomadas. “As pessoas precisam se comunicar com os parentes. Sem água e sem energia piora tudo”, afirmou o gerente Benedito Batista, 30 anos.

A moradora Marlene Dutra Viana levou ao posto não apenas o celular, mas uma bicicleta elétrica. “É o que uso para andar pela cidade, fazer compras”, conta. Tornou-se comum, a cada esquina, grupos em volta de uma tomada de energia para carregar os aparelhos de telefone.

A falta de energia comprometeu o já combalido setor pesqueiro do Estado. No Mercado do Pescado Igarapé das Mulheres, no bairro do Perpétuo Socorro, em Macapá, comerciantes faziam as contas dos prejuízos com os aparelhos de freezer desligados. Pacus, branquinhas e pescadas apodreciam nas geladeiras. O cheiro forte tomou conta do espaço. O descarte de quilos de peixes nos contêineres de lixo atraíram urubus. 

O apagão de energia foi mais um golpe enfrentado por comerciantes e pescadores neste ano. Em março, com o início da pandemia do novo coronavírus, o comércio foi paralisado, retornando semanas depois. Pela estimativa do governo, seis mil pescadores atuam na região central de Macapá. O restabelecimento da energia na capital e no entorno, propagado pelo governo, ainda é instável.

 

Moradores fazem protestos para denunciar falta de energia e água

Na periferia de Macapá, moradores dos bairros Congós, Pedrinhas e Jardim Açucena fizeram barricadas e queimaram pneus em ruas e rodovias para protestar pela falta de energia e de água. No bairro São José, a polícia usou balas de borracha para reprimir um protesto. Houve também buzinaços e panelaços no Centro. “Em casa não tem água para tomar banho, lavar roupa e nem para beber”, disse a moradora Andressa Laura, 22, moradora da Avenida Central. “Tudo fica ainda mais difícil quando a gente tem criança em casa.”

Os hospitais e maternidades mantiveram o funcionamento por contarem com geradores a óleo diesel. Funcionários dos estabelecimentos, no entanto, tem relatado sobre quedas de energia. A maior preocupação de autoridades da saúde do Estado, porém, são as aglomerações de pessoas, neste tempo de pandemia, na busca de água, alimentos e tomadas em locais com geradores.

A energia ainda não foi restabelecida em boa parte de Macapá e das cidades vizinhas. Na noite de ontem, o bairro Buritizal, o mais populosos da capital, com 26 mil habitantes, estava completamente no escuro. O mesmo ocorria em Santana e em outros  municípios atingidos pelo apagão. A previsão é que, na madrugada, com o rodízio, a falta de energia atingiria a maior parte da capital.

Justiça Federal dá três dias para restabelecer energia no Estado

A Justiça Federal deferiu ação civil pública de autoria do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) contra o governo federal, a Agência Nacional de Energia Elétrica e a Gemini, empresa dona da linha de transmissão desde o ano passado. A decisão obriga os órgãos públicos a aplicarem sanções contratuais à empresa e cobra a instauração de inquérito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e pela Polícia Federal.

A Aneel também deverá comprovar que fiscalizou a empresa em até cinco dias. A companhia, por sua vez, terá de apresentar solução completa para a falta de energia em até três dias, sob pena de multa diária de R$ 15 milhões. O presidente Jair Bolsonaro chegou a falar, em vídeo nas redes sociais neste sábado, 7, que teria havido uma falha de manutenção da empresa privada responsável, sem citar nomes. Procurada, a Gemini não comentou a declaração. 

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