Sem os pais, garoto viaja de ônibus 700 km

V. já havia ido sozinho de avião para SP

Nelson Francisco, CUIABÁ, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2007 | 00h00

Viajar pelo Brasil de avião e ônibus, sem dinheiro, documento ou companhia adulta, não é problema para V.S.S., de 11 anos. Sob essas condições, ele embarcou há uma semana num ônibus que o levou de Cuiabá para Campo Grande - quase 700 quilômetros de viagem. Em 18 de outubro, sem que ninguém o incomodasse, já havia burlado a fiscalização do Aeroporto Marechal Rondon, em Várzea Grande, na região de Cuiabá, e conseguido embarcar num avião da Gol rumo ao Aeroporto de Guarulhos. Na época, porém, a Gol negou que ele tivesse viajado em alguma de suas aeronaves e a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero) informou que não havia imagens de V. na área de desembarque de Cumbica.Assim como fez há pouco mais de dois meses, o garoto fingiu estar na companhia dos pais e se misturou aos passageiros para embarcar sem bilhete na rodoviária de Cuiabá. Ele só foi localizado, no mesmo dia, na rodoviária de Campo Grande - pelo conselho tutelar - e passou o Natal num abrigo para crianças. V. ainda permanece na cidade. Seus pais, a dona de casa Flaviana Silva Almeida e o policial militar Valmirson dos Santos, viajaram ontem para Campo Grande a fim de buscá-lo. Os dois evitam falar à imprensa sobre as fugas recorrentes do filho.As "aventuras" do garoto provocaram críticas em relação à atuação dos conselhos tutelares. "Toda a responsabilidade não é dos pais, mas sim das empresas envolvidas e dos conselhos (tutelares), que não têm controle nenhum", disse o delegado Márcio Cambahúba, da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos das Crianças de Cuiabá.Os pais de V. deverão ser ouvidos hoje pela polícia no inquérito aberto para investigar a viagem de ônibus a Campo Grande. O primeiro inquérito, sobre o embarque num avião da Gol até Cumbica, já foi encaminhado à Justiça. O garoto teria confessado ao conselheiro tutelar de Campo Grande, Marcos Macena, que seus pais o teriam espancado. "Todas as informações serão checadas", afirmou Cambahúba.V. não informou ao conselho tutelar de Campo Grande o nome da empresa em cujo ônibus embarcou em Cuiabá. O Juizado da Infância e Juventude na rodoviária ressaltou que, para um adolescente viajar, é necessário apresentar uma autorização por escrito dos pais. Já a Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Estado (Ager-MT) informou que o ingresso de crianças em ônibus é de competência do juizado local.

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