Sem praia, paulistano pratica ''surfe na corrente''

Novo esporte ganha adeptos em beco da Vila Madalena, na zona oeste; praticantes, meio malabaristas, querem organizar ?campeonato oficial?

Diego Zanchetta, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2008 | 00h00

O beco grafitado da Vila Madalena, epicentro da cena underground paulistana, a música Affiliation Revised, do DJ Hype, embala os jovens que se equilibram sobre a corrente suspensa a pouco mais de um metro e meio. A seriedade estampada no rosto de Carlos Evangelista, de 24 anos, destoa do clima de balada. Um a um, os "surfistas" emplacam grabs, kickflips e loopings, manobras do skate adaptadas à nova modalidade. Ao mesmo tempo, cerca de 30 jovens de 17 a 25 anos discutem a pontuação de ranking ainda oficioso. Galeria de fotos do surfe na VilaSe a piada diz que shopping center é a praia de paulistano, muitos encontraram agora a sua onda. Levado pouco a sério no início, o surfe na corrente já tem dezenas de adeptos e um encontro semanal na "orla" do bairro mais boêmio. Até um campeonato paulista já é planejado para 8 de setembro, e um abaixo-assinado pede à Prefeitura espaço para a modalidade. Hoje, em parques como o Água Branca, na zona oeste, ou em vias do centro como a Vieira de Carvalho e Largo do Arouche, é comum ver à noite jovens tentando se equilibrar em correntes na frente de estacionamentos ou hotéis. "Temos cansado de pregar que não se deve surfar na corrente dos outros. O esporte ficou associado ao vandalismo porque ainda tem jovens que insistem na prática ilegal. Aqui no beco a corrente é nossa", afirma Evangelista. A esperança dos praticantes do surfe na corrente é a de que a modalidade se dissemine como ocorreu com o francês le parkour (em português, algo como arte do deslocamento). Nesse esporte, hoje reconhecido na Europa e disseminado em São Paulo, os participantes ultrapassam obstáculos urbanos usando o corpo. "Todo mundo pensa sempre nisso. Se os franceses conseguiram emplacar o le parkour, por que não podemos ser pioneiros no surfe na corrente?", questiona Evangelista, organizador dos encontros às segundas-feiras na Vila.MALABARESDurante os encontros semanais, os "surfistas" também incrementaram as manobras com bolinhas e flare (uma tocha com fogo). "Mas isso é só para exibicionismo. Para a oficialização do esporte, e nos campeonatos, vamos estar limitados às manobras sem uso de equipamento", afirma o estudante de Arquitetura Renato Gonzales, de 23 anos, ex-skatista e surfista de "praia mesmo", como faz questão de ressaltar. "Mas até quando estou no Guarujá fico com vontade de pular em cima de uma corrente", brinca.Segundo relatos na internet sobre a modalidade - são 11 comunidades no Orkut com 788 participantes -, o surfe na corrente surgiu em 2001 na Ilha Porchat, em São Vicente, na Baixada. Já há registros de vídeos no You Tube de praticantes realizando manobras em parques e ruas de Brasília, Curitiba, Salvador e Porto Alegre."Mas é na Baixada Santista que temos os registros dos primeiros vídeos com as pessoas em cima das correntes. Eram surfistas que à noite brincavam de se equilibrar em cima das correntes. Mas foi em São Paulo que o lance começou a se espalhar entre os skatistas", conta Saulo Castanho, de 25 anos, santista e praticante do surfe na corrente.INTERNETO encontro na Vila Madalena às segundas-feiras ocorre na Rua Belmiro Braga, a partir das 19h30. Os "surfistas" mantêm endereço na internet com vídeos e a história da prática (www.flogao.com.br/surfnacorrentesp). "Para skatistas e adeptos de esportes radicais, é interessante conhecer o início de um esporte que vai crescer e se espalhar pelo mundo", diz o confiante Evangelista.

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