EVARISTO SA / AFP
EVARISTO SA / AFP

Sem presença de João de Deus, centro espiritual continuará?

Para seguidores, as 'entidades' continuam se manifestando, mesmo sem a 'presença física' de João de Deus

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2018 | 02h00

SÃO PAULO - O que será da Casa Dom Inácio de Loyola sem João Teixeira de Faria, o João de Deus? Além das cirurgias espirituais, o centro promove correntes de oração e banhos de cristal, realizados por funcionários ligados ao líder espiritual. Para seguidores, as “entidades” continuam se manifestando, mesmo sem a “presença física” de João de Deus. Por isso, o espaço segue aberto, mas com cerca de um terço do movimento normal.

A perspectiva é de que fiéis sigam viajando para Abadiânia, mas em uma proporção menor e talvez mais regional do que a atual, estima André Ricardo de Souza, professor de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). “Talvez dê para comparar com o que ocorreu em Uberaba depois que Chico Xavier morreu (em 2002). Outros psicógrafos surgiram e atraem pessoas. Tem fluxo, mas é bem menor”, diz ele, que também é coordenador do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política da universidade.

O professor ressalta que João de Deus mistura elementos do espiritismo com o catolicismo, de modo a exibir imagens de santos e ter um deles, católico, como a principal entidade que incorpora (Santo Inácio de Loyola, que dá nome à casa). “Há muitos casos desse tipo hoje, independentemente da identificação com o espiritismo kardecista, que transita entre religiões.”

Ele lembra que um dos primeiros grandes expoentes dessa trajetória foi José Arigó nos anos 1950 e 1960, que chamou atenção internacional e atendeu até a filhas do presidente Juscelino Kubitschek. “Depois dele, outros também apareceram, como o Dr. Fritz, que enfrentaram acusações de charlatanismo. Muitos morreram de forma trágica, em acidente de automóvel ou assassinados.”

Na cidade de Franca, no interior de São Paulo, um dos principais expoentes é João Berbel, do Instituto Medicina do Além (Ima), que oferece atendimentos, tratamentos e medicamentos gratuitamente. Ele ainda realiza cirurgias espirituais, mas deixou de fazer incisões nos anos 1990, quando a prática passou a ser mais criticada.

Souza afirma que a cirurgia espiritual com cortes é “controversa”. “É bem menos usado, até porque é algo problemático. Se, por um lado, as pessoas ficam curiosas, é um espetáculo, por outro, gera receio, medo”, aponta. 

No fim da vida, Chico Xavier teria deixado de se submeter a uma cirurgia do tipo, mesmo após recomendação. “O espiritismo, enquanto religião, rejeita isso categoricamente”, pontua. “Mas, como o João de Deus não tinha compromisso com espiritismo, continua com as incisões, que chamam a atenção, dão repercussão. Ele tem essa coisa da celebridade, dos artistas até internacionais, de uma grande espetacularização. Em torno dele se formou toda uma estrutura comercial.” 

Permanência. Uma jovem de 23 anos que afirma ter sido abusada por João de Deus afirmou ao Estado ser contrária ao fechamento da casa. Ela frequenta o local há 10 anos e diz ter sido abusada em 2015. “Esse trabalho ajudou muita gente, curou várias pessoas, porque quem curava eram as entidades. Todos esses espíritos de luz, e não ele. Ele servia de instrumento”, diz. “Lamento que a história da casa tenha sido manchada por um escândalo. Mas acredito que vai continuar funcionando: a casa não deixará de ser um lugar abençoado, a espiritualidade tem meios de continuar esse trabalho sem ele.”

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