Sem punição, massacre de moradores de rua completa 2 anos

Dois anos depois da assassinato de sete moradores de rua no centro da cidade, a punição dos culpados ainda parece estar longe de acontecer. No ano passado, a Justiça não aceitou a denúncia apresentada pelo Ministério Público(MP) e o pouco avanço que se conseguiu até hoje foi uma audiência com o presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Celso Limongi. A intenção do encontro, marcado para quarta-feira, é pedir que ele reveja a decisão que rejeitou a denúncia do MP e abra o processo o mais rápido possível.?Isso (o encontro com Limongi) já é um alento. Mas pode ter sido muito tarde?, disse o promotor Maurício Ribeiro Lopes. Ele acredita que, apesar da denúncia ser bem fundamentada, encontrar todas as testemunhas fica cada dia mais difícil. ?Antes o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) monitorava algumas delas, mas acredito que hoje eles tenham outras prioridades?, explicou. O juiz adjunto da presidência do TJ, Ronnie Hebert Barros Soares, que recebeu ontem um comissão da Pastoral do Povo de Rua, tentou justificar a demora da solução do caso. ?São Paulo tem em primeira instância 15 milhões de processos em andamento. No Tribunal de Justiça são 560 mil recursos aguardando julgamento.? Para o coordenador da Pastoral, padre Júlio Lancellotti, que ontem organizou uma manifestação em frente ao TJ, o encontro com o presidente do Tribunal já é uma vitória. ?A nossa esperança é que a partir dessa audiência se marque um julgamento para receber a denúncia do Ministério Público.? Lancellotti também espera que, assim que o processo seja aberto, novas testemunhas se encorajem a prestar depoimentos. ?Os que sobreviveram ficaram com seqüelas graves e não sabem dizer o que aconteceu.?No ano passado, investigações apontaram que os assassinatos haviam sido cometidos por uma quadrilha formada por cinco policiais militares e um segurança. O massacre ocorreu entre os dias 19 e 22 de agosto e resultou na morte de sete moradores de rua e oito pessoas feridas. O DHPP também apurou que as vítimas foram executadas com pancadas na cabeça, com instrumentos de borracha semelhantes a cassetetes.Tanto para o padre Lancellotti, como para um dos coordenadores do Movimento da População de Rua, Anderson Lopes Miranda, os crimes ocorreram porque no centro existe um quadrilha muito articulada de segurança clandestina. ? Alguns desses moradores de rua tinham muitas informações. Morreram ou porque estavam envolvidos em algumas dessas redes, ou porque estavam atrapalhando alguma ação em andamento. E outros foram atacados porque acordaram na hora?, disse o padre. ?E eles continuam atuando de forma violenta?, garantiu Miranda. A manifestação para relembrar o aniversário de dois anos do massacre começou ao meio-dia de ontem nas escadarias da Catedral da Sé e terminou às 15 horas em frente ao TJ. Segundo a PM, cerca de 250 pessoas estavam presentes. Além de moradores de ruas, representantes religiosos e entidades de defesa dos direitos humanos participaram do ato. ManifestaçõesDurante a manifestação pelos dois anos de impunidade do massacre dos moradores de rua no centro de São Paulo, o coordenador da Pastoral do Povo de Rua, padre Júlio Lancellotti, quase foi preso. Por volta de 14 horas, quando os manifestantes chegaram a o Tribunal de Justiça, o padre pegou um spray de cor preta e foi pichar cruzes e um boneco nos tapumes da Prefeitura - utilizados para isolar as obras de revitalização da Praça da Sé. ?A grafitagem é considerada cultura. Aqueles tapumes são públicos, pagos com o dinheiro público, eu não sei qual que era o crime, porque tanta truculência?, disse Lancellotti. Oito policias militares se aproximaram do padre e retiraram da mão dele a lata de spray. ?O grafite do povo de rua ofende a polícia, mas sujar as ruas de sangue não faz mal?, gritou. Segundo Lancellotti, os policias ameaçaram detê-lo. Mas nada aconteceu depois que a comissão de moradores de rua foi recebida pelo assessor do Tribunal.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.