Sem-teto morre após ter alta em hospital em São Paulo

Entidades de direitos humanos denunciaram na terça-feira, 14, à Defensoria e ao Ministério Público suposto caso de negligência médica no atendimento ao morador de rua Ricardo Oliveira, de 54 anos. Com fortes dores nas pernas e nas costas, e sentindo falta de ar, ele foi encaminhado, às 19h30 de sexta-feira, 9, à Santa Casa de Misericórdia de Santo Amaro, na zona sul de São Paulo. Liberado às 22h55, morreu a caminho do albergue, no centro, para onde seguia em um carro da Central de Atendimento Permanente e de Emergência (Cape) da Prefeitura.O relatório da Santa Casa, assinado pelo plantonista Osny Batista, informa que o paciente estava ?em péssimo estado de higiene?. E conclui: ?Não se trata de uma patologia que necessite do auxílio de hospital. Trata-se de problema social. Não quer ir para albergue?. Oliveira até aceitou ir, mas morreu antes de chegar lá. O Instituto Médico-Legal (IML) só terá um laudo sobre a morte em 45 dias.Os agentes sociais Nicolas Dias e Suelene Soares, que o levaram da Rua Félix de Souza, no Campo Belo, ao centro médico, atestam que Oliveira tinha falta de ar e não podia andar. ?Ele teve alta, mas ao sair parecia debilitado, com dificuldade de entrar na Kombi. Deitou no banco. Quando chegamos ao albergue, vi que estava morto?, relata a técnica Cristiane de Campos. NegligênciaPara o coordenador da Cape, Cássio Giorgetti, houve uma negligência médica. ?Por que não fizeram os exames no Ricardo, nem raio X, se ele tinha dores e falta de ar??, questiona. ?O relatório médico é a prova da discriminação. São freqüentes os casos de pessoas que morrem nos albergues após terem alta do hospital. Os médicos têm preconceito e não dão a atenção necessária.?A diretoria da Santa Casa informou que vai apurar a denúncia. O plantonista Osny Batista não foi localizado na terça. O caso foi registrado no 5º DP (Aclimação) e será investigado.Oliveira era um antigo conhecido dos moradores da Rua Félix de Souza, por onde perambulava desde criança. Conversava com todos, tomava café da manhã na padaria da rua e costumava dormir na garagem da dona de casa Ana Maria Fernandes, de 52 anos.?Ele vivia por aqui há uns 30 anos. A mãe era doméstica de um vizinho, mas se mudou para uma favela e, depois, sumiu. O Ricardo voltou aqui um dia, apareceu em outro, foi ficando até morar na rua de vez. Ajudava a descarregar caminhões nas feiras do bairro para ganhar um dinheiro. Às vezes, falava coisas sem sentido, mas não tinha vício nenhum. Nunca o vi com um copo de cerveja nas mãos. Pergunte a quem quiser. Aqui, todo mundo gostava dele e ajudava porque tinha pena?, disse Ana Maria.

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