Semana é marcada por idas e vindas

Busca por destroços e corpos avançou apenas ontem; investigações ainda não chegaram às causas do acidente

, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2009 | 00h00

Eram 22h33 de domingo quando o Airbus 330-200 da Air France, voo 447 (Rio-Paris), enviou pela última vez uma mensagem para o controle aéreo brasileiro. A 11 mil metros de altura, em velocidade de cruzeiro (840 km/h), a tripulação informava aos controladores que estava prestes a deixar o espaço aéreo brasileiro, a uma distância de 565 km de Natal. Trinta e sete minutos depois, às 23h10, o desastre começava a se desenhar. A interrupção na comunicação (o avião já estava fora do alcance de radar brasileiro e ainda não havia alcançado a área de controle africano) acendeu o alarme da tragédia entre autoridades, notícia que se espalhou rapidamente pelo mundo. No decorrer dos dias, com poucos avanços na busca pelos destroços do avião no mar, o desaparecimento da aeronave continuava a ser a principal evidência do desastre, que causou a morte de 228 pessoas (entre eles 59 brasileiros).As primeiras provas materiais da tragédia só foram encontradas ontem. A Aeronáutica localizou dois corpos do sexo masculino, uma poltrona e uma maleta de couro com identificação da Air France.As investigações sobre as causas da queda avançaram com mais agilidade. No decorrer da semana, algumas peças de um complexo quebra-cabeça começavam a formar um quadro inicial de como o desastre se desenrolou. Ainda na segunda-feira, mensagens automáticas recebidas pela sede da Air France, em Paris, vindas do Airbus, indicavam que toda a tragédia se passou em 4 minutos. O primeiro sinal de um possível problema a bordo chegou às 23h10 (hora de Brasília) do domingo, dando conta de que o piloto automático do Airbus estava desconectado. As mensagens seguintes apontaram para uma sucessão de graves panes em alguns dos principais computadores do jato. O último alerta foi emitido às 23h14: "cabin vertical speed" (cabine em velocidade vertical, na tradução do inglês). A informação final, segundo investigadores militares, poderia ter duas leituras: queda livre ou uma brusca variação de pressão dentro da cabine, ocasionada por uma descida mais rápida do que o comum. Nesse momento, contudo, o quadro era muito incipiente e nenhuma hipótese era ainda descartada pelo governo francês: atentado, explosão, incêndio, perda de sustentação, congelamento e panes elétricas diversas. Na quarta-feira, em seu primeiro pronunciamento oficial, o Escritório de Investigações e Análises para a Segurança da Aviação Civil (BEA) da França informava que o avião estava em perfeitas condições técnicas antes de decolar. Essa era uma pequena certeza. "Não sabemos sequer a hora exata do acidente", disse Paul-Louis Arslanidan, diretor do BEA. No dia seguinte, no entanto, reportagem do jornal Le Monde informava que o Airbus viajava em "velocidade errada", dado que começava a jogar mais luzes sobre o acidente. A falha teria sido detectada no momento em que o avião atravessava uma tempestade. Na sexta-feira, cresceu a hipótese de que uma falha técnica no Airbus tenha sido determinante para a queda. Em comunicado enviado aos pilotos, a Air France informou que estava substituindo sensores de velocidade dos aviões que realizam voos de médio e longo cursos, a exemplo da ligação Rio-Paris. Segundo o memorando, a substituição dos "pitots" - que são três, no caso do A330 - seria encerrada "nas próximas semanas". Especialistas cogitam que o eventual congelamento externo do avião - ou altas pressões - durante a tempestade enfrentada pelo voo ao longo do percurso poderia ter levado ao erro de leitura por parte de sensores eletrônicos da aeronave, o que teria "enlouquecido" os computadores.A tempestade no meio do trajeto, portanto, aparecia como outra peça-chave para visualizar o quebra-cabeça. Antes de os problemas com o voo começarem, na sequência de mensagens enviadas pelo Airbus, a tripulação informou que atravessava uma área sobre cumulus nimbus - região de instabilidade formada por nuvens carregadas de eletricidade, no interior das quais ocorrem rajadas de vento e tempestades com possibilidade de relâmpagos. Segundo meteorologistas, o mau tempo enfrentado pelo Airbus resultava da chamada zona de convergência intertropical. Na quarta-feira, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que havia "uma tormenta muito forte" na rota do voo da Air France no dia do acidente. Apesar de considerarem o mau tempo um elemento importante para compreender os motivos da queda, especialistas descartaram que um raio possa ter derrubado o avião.Mesmo com o envio de um Telex de Informação sobre o Acidente orientando os pilotos a manterem a velocidade e a estabilidade durante tempestades, segundo a Airbus a investigação sobre o acidente ainda não pode responder se a velocidade do voo 447 (Rio-Paris) no domingo era mais alta ou mais baixa que a sugerida pelo fabricante. Dessa forma, fica impossível relacionar esse fato ao que teria causado a tragédia. Tratava-se apenas da hipótese mais forte naquela altura das investigações.AS BUSCASNa madrugada de segunda-feira passada, a tripulação de um voo da TAM que passava no sentido Paris-Rio, pouco depois do acidente, avistou focos luminosos em alto-mar, a aproximadamente 1.300 km de Fernando de Noronha, na madrugada do desaparecimento do Airbus.Os pilotos falaram em cinco pontos de luz, nas cores laranja e vermelha, no Oceano Atlântico. Eles estavam a cerca de 10 minutos do espaço aéreo do Brasil e sobrevoavam o espaço aéreo do Senegal. Essas informações serviram de base para as buscas dos destroços feitas inicialmente pela Força Aérea Brasileira.Na hora do acidente, o comandante do voo 974 da Air Comet, que seguia o trajeto Lima-Madri na madrugada de segunda-feira, afirmou em relatório ter visto no ar um clarão "forte e intenso de luz branca", em trajetória descendente e vertical, na mesma rota em que o Airbus A330 desapareceu, enquanto sobrevoava o Oceano Atlântico. O clarão desapareceu "em seis segundos", segundo informou o piloto, e foi testemunhado por outras duas pessoas - o copiloto e uma passageira, que estava na cozinha da aeronave -, de acordo com o relatório do piloto, publicados pelo jornal espanhol El Mundo.Com base nessas informações, as buscas pelas evidências materiais do acidente acabaram proporcionando as principais idas e vindas da semana.As entrevistas concedidas pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, acabaram motivando mais confusão do que esclarecimento. Após dois dias de buscas, destroços foram avistados a 1.200 km do Recife por aviões da FAB. Segundo o ministro da Defesa, os primeiros vestígios foram localizados pelo avião R-99, dotado de sensores, por volta da 1 hora de terça-feira. Às 5h37, um Hércules C-130 visualizou manchas de óleo no mar numa extensão de 20 km. Às 6h49, foi identificada uma poltrona de avião. Às 12h30, o C-130 detectou a linha de destroços de 5 km. "Cinco quilômetros de materiais não é de se supor que a maré tenha reunido. A existência da poltrona, do óleo, a identificação do R-99 e agora, complementando, os cinco quilômetros (de destroços), nos permitem ter uma posição de que isso é do Airbus da Air France", disse Jobim.No dia seguinte, em entrevista coletiva, Jobim afirmou que a presença de manchas de óleo, identificadas por aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) numa extensão de 20 km, afastaram por completo a hipótese de explosão no ar do Airbus A330.As declarações foram vistas com ceticismo e críticas na França porque no momento as autoridades locais diziam que nenhuma hipótese poderia ser descartada. Jobim disse que havia duas trilhas principais de destroços, distantes 136 km uma da outra. Uma ficava mais próxima do Arquipélago de Fernando de Noronha e outra mais perto das Ilhas de São Pedro e São Paulo. Entre os destroços, uma peça com 7 metros de diâmetro, que se acreditava ser parte da asa, dez objetos de tamanhos diversos e alguns de metal e objetos metálicos. Faltava, no entanto, recolher do mar os destroços avistados.DESMENTIDODepois dos trabalhos de busca, o Comando da Aeronáutica disse na quinta-feira que os fragmentos encontrados e resgatados no mar não pertenciam ao voo 447 da Air France. O diretor do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), brigadeiro Ramon Borges Cardoso, disse que o pallet (um porta-bagagem) içado, no início da tarde de quinta, pela Marinha, era de madeira. As duas boias que a Aeronáutica chegou a afirmar que haviam sido resgatadas, na realidade nem sequer chegaram a ser levadas a bordo. As manchas de óleo localizadas ao norte de Fernando de Noronha, a uma distância de aproximadamente 700 km do arquipélago, também não pertencem à aeronave francesa. "Descartamos essa possibilidade, por causa da quantidade de óleo encontrada. Num avião, essa quantidade é menor em cada motor. Mas as manchas que encontramos são bem maiores", destacou Jobim.O mal-estar causado pelo fraco desempenho nas buscas e pelo desencontro de versões foi amenizado no sábado, quando a Aeronáutica confirmou ter achado os primeiros destroços do Airbus. A área onde o material foi localizado está a aproximadamente 900 quilômetros de Fernando de Noronha e a cerca de 69,5 quilômetros (a sudoeste) do local onde foram identificado os últimos sinais de pane da aeronave. A semana começa com um novo desafio: a busca pelas caixas-pretas. Dois submarinos franceses - o primeiro uma máquina de guerra nuclear, o Emeraude, e o segundo o pequeno Nautile, famoso por suas buscas no Titanic - vão se juntar nos próximos dias às embarcações da Marinha francesa. Dois navios americanos equipados de sensores de ondas sonoras vão reforçar as buscas. Atuando em uma área geográfica pouco estudada, com profundidades que variam de 1,3 mil a 4,6 mil metros, franceses comparam as buscas nesse ambiente a procurar caixas de sapato perdidas em uma cadeia montanhosa com picos mais altos que os Pirineus, na fronteira da França com a Espanha.Depois dos problemas ocorridas essa semana, a tarefa já ganhou ares de missão quase impossível.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.