Senador vira voto de suplente por temer CPI

Licenciado, Ribeiro foi fiador da cúpula do Dnit que acabou demitida e recebeu R$ 650 mil em doações

Leandro Colon / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2011 | 00h00

A pressão do senador João Ribeiro (PR-TO) para que seu suplente Ataídes Oliveira (PSDB-TO) retirasse a assinatura que apoia a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Transportes tem uma causa própria. Ribeiro teme que uma investigação no setor chegue a seu nome.

Licenciado até o fim do mês por motivo de saúde, o senador é um dos principais fiadores da cúpula do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) demitida nos últimos 30 dias. E mais: na eleição de 2010, quando foi reeleito, ganhou ao menos R$ 650 mil de ajuda financeira de empresas contratadas pelo órgão.

Presidente do PR do Tocantins, Ribeiro fez ainda o relatório no Senado que aprovou o nome de José Henrique Sadok para a diretoria executiva do Dnit em 2006. Sadok foi afastado em julho passado após o Estado revelar que uma empresa da mulher dele faturou R$ 18 milhões em contratos vinculados ao Dnit. No documento, Ribeiro disse que Sadok tinha "idoneidade moral e reputação ilibada" para ser diretor executivo.

Agora, o senador do PR tenta emplacar o superintendente do Dnit no Tocantins, Amauri Souza Lima, como novo diretor-geral da autarquia em Brasília. Quer, pelo menos, que ele seja uma espécie de "interino" para que possa ser efetivado mais à frente após sabatina no Senado. O nome de Lima já foi apresentado ao ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, que ainda não divulgou o escolhido e resiste à sugestão do senador.

Na campanha eleitoral do ano passado, pelo menos quatro empresas que possuem contratos com o Dnit no Tocantins doaram, no total, R$ 650 mil diretamente para campanha de João Ribeiro ou para o comitê financeiro do PR no Estado, do qual ele é presidente. São elas: Egesa Engenharia, Strata Engenharia, Construtora Central do Brasil e Paviservice Serviços de Manutenção. Nos últimos cinco anos, receberam pelo menos R$ 1,1 bilhão dos cofres do Dnit.

A Paviservice, por exemplo, é contratada para cuidar de obras de recuperação nas rodovias BR-226, BR-153 e BR-010, no Tocantins. Em 14 de setembro de 2009, a empresa assinou um contrato de R$ 17 milhões com o Dnit daquele Estado para a BR-226 e a BR-153. Cinco meses depois, em fevereiro de 2010, um aditivo foi assinado no valor de R$ 3,4 milhões.

Em 2011, a prática continuou. No dia 20 de maio, foi publicado no Diário Oficial da União um acréscimo de R$ 324 mil no contrato. O mesmo ocorreu nos contratos da BR-010 nos últimos anos. A Paviservice doou R$ 100 mil para a campanha de Ribeiro.

A Construtora Central do Brasil repassou R$ 300 mil para a campanha, dos quais R$ 200 mil para o PR regional e o restante direto para o senador. A empresa é contratada do Dnit para obras na BR-153, no Tocantins. Somente este ano já recebeu R$ 25 milhões dos cofres do órgão dos Transportes em relação a esse serviço.

A Strata Engenharia, que doou R$ 50 mil, é contratada do Dnit para atuar na BR-242, na divisa com a Bahia. Para obras na mesma rodovia foi contratada a Egesa, que doou R$ 200 mil para o PR do Tocantins em 2010.

Patrimônio. No total, o senador diz ter gasto R$ 2,1 milhões com sua campanha à reeleição. Ele declarou à Justiça Eleitoral patrimônio do mesmo valor, incluindo terras, automóveis e sociedade em empresas. O parlamentar é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) por suposto envolvimento com trabalho escravo em suas fazendas.

Em maio, Ribeiro tirou licença do mandato para tratar da saúde. O suplente, Ataídes Oliveira, assumiu temporariamente. Depois de assinar o pedido de CPI sobre a corrupção nos Transportes, o suplente voltou atrás por pressão de Ribeiro. Mas recuou novamente e manteve a assinatura. Oliveira, aliás, aparece como doador de R$ 305 mil para o diretório regional do PR. Ontem, a reportagem do Estado tentou localizar por telefone o senador João Ribeiro para comentar a crise nos Transportes. Um recado foi deixado, até mesmo no gabinete de seu suplente por meio de uma secretária, que disse que tentaria encontrá-lo. Mas nenhuma resposta foi dada até o fechamento da edição.

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