Sensores não foram trocados

Apesar de recomendação, A330 voava com tubos de pitot antigos

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2009 | 00h00

O Airbus A330 - modelo do avião do voo AF447 que desapareceu no Oceano Atlântico - sofreu panes anteriores em seus sistemas de velocidade. A informação foi confirmada ontem, em Paris, pelo Escritório de Investigações e Análises para a Aviação Civil (BEA). Segundo os peritos, os três tubos de pitot - sensores que medem a velocidade do avião e orientam os demais sistemas eletrônicos - podem estar entre as origens da pane. A peça vem sendo substituída pela Air France e por outras companhias aéreas por recomendação da Airbus.Em seu segundo pronunciamento desde a abertura da investigação, o BEA deu três horas de coletiva - uma apenas para jornalistas brasileiros. Entre as diversas confirmações, a mais importante diz respeito aos tubos de pitot. De acordo com os especialistas, a análise das 24 mensagens automáticas enviadas pelo avião entre 23h10 e 23h14 apontou "incoerência da velocidade aferida". Esse erro, a princípio, é causado por divergência de análise das informações obtidas por tubos de pitot. O Airbus A330 têm três desses sensores idênticos. O cruzamento dos dados coletados por cada um fornece aos computadores de bordo a informação essencial para, por exemplo, o Air Data Inertial Reference Unit (Adiru), sensor que regula a altitude da aeronave. Coube a Paul-Louis Arslanian, diretor do BEA e responsável pela investigação, reconhecer que a pane no sistema de pitot já causou outros incidentes. "Sobre o A330, foi de fato constatado um certo número de panes desse tipo. Houve incidentes que foram constatados e nós os analisamos. Nem todos esses incidentes levaram a perdas significativas de altitude dos aviões. O que significa que o avião pode se recuperar rapidamente." Ainda conforme Arslanian, a performance dos tubos de pitot pode ser alterada por condições externas adversas. "A concepção desse sistema de velocidade é baseada em pressões. É um sistema que trabalha em contato com o exterior. Logo, é sensível às poluições exteriores." Entre as "poluições exteriores" que poderiam ter causado a pane está, segundo o diretor do BEA, o congelamento dos tubos - um dado que reforça a hipótese de que a tempestade pela qual o voo AF 447 atravessava tenha levado, indiretamente, à falha generalizada dos sistemas eletrônicos. Os investigadores do escritório insistiram que a eventual falha dos pitots ainda não foi totalmente comprovada e reforçaram que, mesmo em circunstâncias de pane verificadas em modelos do Airbus A330, há chances de recuperação da estabilidade da aeronave. "Não quero que a minha resposta (a respeito das panes dos tubos) seja interpretada como uma conclusão de que houve uma disfunção", reafirmou. As suspeitas sobre a eventual falha dos tubos de pitot ganham força porque a Airbus recomendou a substituição da peça às companhias aéreas que têm seus aviões, segundo o BEA confirmou ontem. "Há programas de substituição dos equipamentos pelos fabricantes e exploradores (empresas aéreas)", disse Arslanian, pedindo que não se estabeleça por enquanto vínculos entre a medida e a queda do AF 447. Na quinta-feira, a agência de notícias Associated Press revelou comunicado interno, distribuído pela Air France a seus pilotos, no qual informa que está procedendo a substituição dos tubos de pitot, prometendo encerrar o processo "nas próximas semanas". O BEA confirmou: "Estamos neste momento em um processo de substituição, que foi recomendado pelo construtor (Airbus), de uma sonda por outra (mais moderna), por várias razões". Detalhe: no A330 do voo AF 447 os sensores ainda não haviam sido substituídos. "Não significa ?não ainda?, já que existe um programa de substituição", confirmou Arslanian. "Mais uma vez digo: não significa que o avião tenha... Não extrapole o que eu digo."O diretor do BEA confirmou ainda que outras companhias que possuem o aparelho estão realizando o mesmo processo de substituição e reiterou que o fato de a peça ainda não ter sido substituída em outros aparelhos não os torna inseguros. "Minha irmã e seu filho vão pegar um A330 na próxima semana para fazer uma viagem. Se eu fosse ao Rio, pegaria um voo Air France e o aparelho seria provavelmente um A330", exemplificou. "Para nos limitarmos ao A330, há centenas de aviões que voam (com o equipamento) em inúmeras companhias e o fazem há anos, inclusive para o Rio e nesta mesma rota", lembrou o diretor, pedindo calma à opinião pública e ponderando: "A aviação, de tempos em tempos, implica acidentes. O mundo não se tornou perigoso do dia para a noite."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.