Sentimos a dor das famílias, diz irmã de vigia que incendiou creche

De acordo com Simone Soares dos Santos, seu irmão, Damião Soares do Santos passou por problemas pessoais após deixar a casa da família

Felipe Resk, ENVIADO ESPECIAL A JANAÚBA (MG)

09 Outubro 2017 | 03h00

JANAÚBA - "Eu só queria pedir que a sociedade entenda que nós sofremos muito e também somos vítimas. É uma dor geral." É com essas palavras que a professora Simone Soares dos Santos resume o sofrimento que a família tem passado desde que o irmão, o vigia noturno Damião Soares dos Santos, de 50 anos, ateou fogo na creche Gente Inocente, em Janaúba, matando, além dele próprio, oito crianças e uma professora. Outras 25 pessoas ainda estão hospitalizadas.

Apesar do clima de revolta diante da maior tragédia da história da cidade e dos burburinhos de ameaças, Simone afirma que tem recebido a solidariedade de muitas pessoas. "Até o momento, ninguém fez nada contra a gente", diz. "Nesses dias, recebi muitas visitas de amigos que compreendem a situação pela qual estamos passando. Nós não temos culpa pelo que ele fez, também estamos sentindo a dor dessas famílias."

Segundo a irmã, o vigia noturno morava sozinho há mais de três anos, antes mesmo da morte do pai, Patrocino Soares dos Santos, de 81 anos, apontado como o motivo da desavença entre ele e a família. Nos últimos dias, porém, ele havia se reaproximado da mãe, de 85 anos, que tem a saúde debilitada, e até dormiu na casa dela na véspera do ataque. "Ele tinha uma vida normal, ninguém nunca imaginava que ele fosse fazer isso."

Segundo Simone, Damião também passou por problemas pessoais após deixar a casa da família. Uma namorada do vigia ficou grávida, mas de outra pessoa. O vigia nunca casou ou teve filhos.

A mãe, Joaquina Maria dos Santos, teve 11 filhos: quatro meninos e sete meninas. Boa parte da família foi criada na zona rural de Porteirinha, vizinha de Janaúba. Damião tinha um irmão gêmeo, chamado Cosme - que não mora mais na cidade. Os nomes foram dados em homenagem aos santos, cujo dia é tradicionalmente comemorado com distribuição de doces para crianças.

Investigações apontam que, depois de entrar na creche, Damião teria dito que daria picolé para as crianças, atraindo a atenção das vítimas. Na casa onde morava sozinho, ele mantinha uma pequena fábrica de sorvete, que vendia a R$ 1 nas ruas de Janaúba. A polícia de Minas suspeita que o vigia aproveitou o etanol, usado para manter os picolés refrigerados, para incendiar a creche.

Para a polícia, o crime foi premeditado, uma vez que ocorreu na data de aniversário de três anos da morte do pai de Damião. Segundo depoimentos coletados, antes do crime, o vigia disse aos familiares que daria "um presente" e que também iria morrer.

Vigilante da Gente Inocente há oito anos, onde cumpria expediente de 12 por 36 horas, Damião completou os estudos tarde, fazendo supletivo. Entre moradores da região, ele é descrito como uma pessoa "reservada" e de pouca conversa. Já vizinhos afirmam que ele era trabalhador, educado e prestativo.

Há três meses, no entanto, ele não comparecia na creche, porque estava com férias acumuladas. Na semana da tragédia, deveria voltar ao serviço, mas faltou. A entrega de um atestado médico foi a justificativa que Damião usou para entrar na unidade no dia do crime.

Após a morte do pai, Damião chegou a denunciar ao Ministério Público, em 2014, que a mãe estaria envenenando sua comida e recebeu orientação para comparecer a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPs). Para a Polícia Civil, Damião tinha transtorno metal e imaginava ser perseguido. Depois do incêndio, a promotoria abriu inquérito para apurar por que o vigia trabalhava em uma unidade infantil. 

Já a prefeitura de Janaúba alega que o vigia nunca compareceu a uma unidade de atendimento psiquiátrico e que não sabia de nenhum transtorno relacionado a Damião. "Nós não tínhamos problema com ele: cumpria os horários e nunca desrespeitou ninguém", disse a secretária de Educação da cidade, Luzia Angélica Santos.

O velório dele aconteceu às pressas e o corpo foi enterrado sem a presença de familiares, na mesma cova do pai."Por questão de segurança e por respeito às vítimas, a família decidiu não ir", conta Simone, que minimiza os riscos de alguma agressão no cemitério. "Foi uma decisão nossa, até porque foi oferecido proteção policial, se a gente quisesse enterrar o corpo." 

"Posso imaginar o sofrimento, mas não consigo expressar o que ele causou a todas essas famílias", afirma Simone. "Não tem nada que a gente pode dizer para amenizar a dor."

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