Seqüestrador se passava por empresário para vizinhos

O senhor de cabelos brancos, magro, educado, sempre bem vestido, morador da casa 696 da Rua Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bairro Pinheirinho, em Curitiba, saía quase todas as manhãs para passear com seus dois cães da raça rottweiler. Tinha chegado de São Paulo, com a mulher e um filho, havia poucos meses e os vizinhos pensavam que era empresário do ramo de madeira, que resolvera investir no Paraná. Pedro Ciechanovicz, de 49 anos, o Pedrão, nascido em Tupã, interior de São Paulo, e criado no Paraná, era um investidor, mas do crime.Fugitivo da prisão, chefiava a principal quadrilha de seqüestradores de São Paulo e esperava, no fim desta semana, receber os US$ 700 mil que estava exigindo para libertar o empresário João Bertin, mantido em cativeiro havia 155 dias.Ao ver a casa cercada por policiais de São Paulo, o senhor considerado educado pelos vizinhos logo se transformou em Pedrão, bandido condenado a 46 anos, violento e disposto a matar para conseguir dinheiro. Armado com duas automáticas, começou a atirar nos policiais do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) que tinham viajado para Curitiba, na sexta-feira, para prendê-lo e tentavam entrar na casa.Os dois rottweilers impediam o acesso para os fundos da casa. Com os gritos do bandido, os animais ficaram mais furiosos. "Ele mandou os cães nos atacarem e dizia que não seria apanhado vivo. Mataria a mulher e daria um tiro na cabeça", disse o delegado Everardo Tanganelli, do Denarc.Foram disparados pelo seqüestrador e pelos policiais mais de 200 tiros. Os cães acabaram sendo mortos. Com a chegada de policiais militares e civis paranaenses, Pedrão pediu para falar com o delegado Tanganelli. "Se ninguém invadir vai dar para conversar." A negociação começou pouco depois das 20 horas. O bandido saiu por volta das 4 horas com a promessa de que sua mulher, Maria de Fátima Marcondes, seria liberada."Saio na moral. Sem violência e sem tiro."O bandido foi colocado num carro e, a caminho do aeroporto de onde embarcou para São Paulo com o delegado Tanganelli e o diretor do Denarc, Ivaney Cayres de Souza, que chegara de madrugada a Curitiba, disse que mandara soltar Bertin. "Mandei que liberassem o ?couro de boi? (como os seqüestradores chamavam Bertin). Vai dar tudo certo", disse aos policiais.Enquanto esteve na casa negociando a sua saída, o seqüestrador fez dezenas de telefonemas pelo celular, rasgou e queimou papéis.Já em São Paulo, durante depoimento no Denarc, Pedrão mostrou aos delegados onde era o cativeiro de Bertin, apontando no mapa o município de Quatá, no interior paulista.A prisão do principal seqüestrador do Estado foi possível após um ano e meio de investigações, que começaram na cidade de Sorocaba, quando o chefe da polícia da cidade era Cayres de Souza. Ele apurava o seqüestro e a morte de José Luís Lanaro e o seqüestro de Roberto Benito Júnior, filho do dono das Lojas Cem. Cayres de Souza, que assumiu o Denarc, continuou a investigar a quadrilha de seqüestradores.Em junho do ano passado, o delegado Tanganelli identificou Pedrão por meio de uma foto. "Soubemos que ele tinha três casas alugadas e, na semana passada, chegamos a uma delas, em Suzano, que estava vazia." O Denarc montou um esquema para prender Pedrão. Os investigadores sabiam que ele chegaria em Suzano às 19 horas.Mas, às 16 horas, policiais militares entraram na residência com um mandado de prisão para Pedrão e "quase estragaram tudo", disseram os policiais do Denarc. Os militares saíram e Pedrão falou com a mulher. Mandou que deixasse Suzano e seguisse para a casa de Curitiba. Tudo foi gravado pelo Denarc.Por meio de um celular de Curitiba, também grampeado com autorização da Justiça, o Denarc soube na quinta-feira que Pedrão estaria em sua casa do Paraná na noite de domingo. Desde o começo da semana, o bandido sabia que o Denarc tentava localizá-lo.Antes de chegar ao bairro Pinheirinho, em Curitiba, Pedrão passou por Ourinhos, Presidente Prudente e Teodoro Sampaio, no Estado de São Paulo, e Maringá, no Paraná. Pretendia receber esta semana o resgate de Bertin. "Fomos rápidos e conseguimos prendê-lo", disse Tanganelli.Pedrão montou uma "indústria" de seqüestros. Tinha como aliado mais próximo o assaltante Altair Rocha, que alugou uma casa na frente da dele, no bairro Pinheirinho. Altair está sendo procurado. Pedrão montou células para seqüestros no interior do Estado, na capital e na Grande São Paulo. A coordenação, a negociação, a logística, o armamento, a divisão, o controle do dinheiro e a escolha dos cativeiros ficavam com Pedrão.Os irmãos Ahmed Hassan Issa e Osmar Hassan Issa lavavam o dinheiro do grupo. Osman foi morto com 27 tiros. Teria ficado com dólares da quadrilha.Os demais cúmplices faziam o levantamento das pessoas a serem seqüestradas, o trajeto e as rotas de fuga, compravam veículos e telefones e vigiavam cativeiros.Para obrigar as famílias a pagar os resgates, mandava fotos das vítimas com as armas apontadas para a cabeça. "Fazia isso para intimidar as famílias. Mas com a de Bertin isso não ajudou. Eu falei para ele que a família não gosta dele", reclamou o bandido.Quem é quemA organização do grupo

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