Seqüestro abre crise na Polícia Civil de SP

O seqüestro de Patrícia Abravanel acabou com a libertação da vítima e a prisão de quase todos os envolvidos. Boa parte do dinheiro foi recuperada. Mesmo assim, a Polícia Civil mergulhou numa profunda crise interna.E não faltam motivos: a desmoralização de ter sido afastada das negociações para libertar Silvio Santos e o fantasma do estranho episódio que culminou com a morte de dois policiais do 91º Distrito (Ceagesp).Delegados da cúpula da polícia e representantes de classe estão descontentes por terem sido colocados fora das negociações para a libertação de Silvio. As críticas recaem sobre o secretário da Segurança Pública de SP, Marco Vinicio Petrelluzzi, e até sobre o delegado-geral, Marco Antônio Desgualdo, que acatou a ordem sem contestá-la."A Polícia Civil saiu desmoralizada do episódio", disse o presidente da Associação dos Delegados de Polícia, Paulo Fortunato. A ordem que retirou os policiais civis da casa de Silvio foi dada por Petrelluzzi. "Nessa hora, ele demonstrou todo o ódio que tem pela Polícia Civil."A alegação foi que os policiais poderiam matar Fernando, em represália pelo fato de ele ter assassinado dois investigadores e ferido um terceiro, na noite do dia 29, num flat em Alphaville.Desgualdo foi visto num boteco com outros policiais, enquanto aconteciam as negociações, sob o comando da Polícia Militar. Segundo Fortunato, a ordem de Petrelluzzi desobedeceu à resolução 122, que determina que negociações com bandidos para liberação de reféns fiquem a cargo da Polícia Civil. "O poder do Estado foi submetido a um vagabundo de terceira classe", criticou Fortunato.A morte dos policiais do 91º DP, é outro fantasma que atormenta a polícia. Todas as possibilidades estão sendo apuradas pela Corregedoria, até de acerto de contas para deixar Fernando fugir. Até agora, muitas dúvidas não foram esclarecidas e não faltam versões contraditórias.Entre elas, está a de que Fernando, ao contrário do que afirmaram peritos, não desceu pelo vão da fachada do 10º andar do Flat L´Étoile Residencial. Ele teria descido pelo elevador de serviço até o 1º andar e de lá saiu pela janela, evitando passar pela portaria.Paulo Tamaki e Marcos Bezerra, que morreram, e Reginaldo Guatura Nardi, ferido no ombro, ficaram por oito horas no local, acharam armas e o dinheiro (R$ 486 mil, pois Fernando já gastara e dividira R$ 16 mil). Mesmo assim, não foi chamado reforço.Os investigadores foram ao local por ordem do delegado-titular Armando Bélio, que também foi ao flat e levou o dinheiro para a delegacia - apesar de não ser responsável pela área. Só muitas horas depois é que o dinheiro foi levado para a Delegacia de Barueri, a responsável pela área.A vida pregressa de todos os policiais envolvidos está sendo avaliada. Nardes - que carregava apenas duas balas em sua arma - já foi ouvido pela Corregedoria.

Agencia Estado,

04 de setembro de 2001 | 21h17

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.