Sequestro de Patrícia reacende polêmica entre Rio e SP

O seqüestro da estudante Patrícia Abravanel reacendeu a rivalidade das polícias fluminense e paulista. Há uma semana, no dia em que Patrícia foi levada da casa do pai, o empresário e apresentador de TV Silvio Santos, o delegado da Divisão Anti-Seqüestro (DAS) do Rio, Fernando Moraes, disse que, se as autoridades de São Paulo quisessem, emprestaria seus homens para esclarecer os casos registrados todos os dias no Estado.Os policiais paulistas recusaram-se a rebater as acusações de Moraes. Mas o governador Geraldo Alckmin mandou preparar um dossiê com números para mostrar que o delegado do DAS estava ?exagerando?. De janeiro a 15 de agosto, a Delegacia Especial Anti-Seqüestro (Deas) registrou 107 seqüestros no Estado de São Paulo. No ano passado, de janeiro a dezembro, ocorreram 79 desses crimes.ImpunidadePara Moraes, no entanto, as autoridades de São Paulo não têm se esforçado como deveriam para inibir esse tipo de crime, que vem crescendo na capital, na Grande São Paulo e em algumas cidades do interior. Para ele, a impunidade faz a indústria do seqüestro aumentar.Ao oferecer a equipe da DAS para ajudar na investigação do seqüestro de Patrícia, Moraes mencionou o fato de, em 1992, policiais da divisão terem libertado em menos de 16 horas a diretora regional do SBT, Sarah Benvinda Soares, irmã caçula de Silvio Santos. Sarita, como é conhecida, tinha sido seqüestrada na Tijuca, zona norte do Rio. O resgate não foi pago.Na ocasião, as fotos de Sarita foram divulgadas pela imprensa. Terminado o seqüestro, Silvio Santos explicou que se tratava de uma estratégia da polícia para ajudar na solução do crime.DivulgaçãoNo caso de Patrícia, Moraes disse acreditar que a divulgação poderia ajudar na elucidação do seqüestro, pela popularidade do apresentador, mas advertiu que essa não é a regra. Ele condenou a divulgação de seqüestros por acreditar que a atitude expõe as vítimas. ?Se a quadrilha for de especialistas, o seqüestrado nada sofrerá. Mas, se forem amadores, a vítima pode sofrer represálias e até ser eliminada.?Moraes disse basear sua afirmação no fato de o índice de participação do disque-denúncia na elucidação de seqüestros ?ficar perto de zero por cento?. Segundo o delegado, desde que foi criado, em 1995, somente em dois casos o serviço recebeu informações que ajudaram na solução dos crimes.SolidariedadeO superintendente do Movimento Rio de Combate ao Crime, entidade responsável pelo serviço de disque-denúncia, Zeca Borges, discordou do delegado. ?As famílias não podem ficar à mercê dos bandidos. Elas precisam contar com a solidariedade da população?, afirmou. Ele alegou que os telefonemas para o disque-denúncia livraram sete pessoas do cativeiro.O ano de criação do serviço foi o mais crítico para a polícia: 108 pessoas ficaram nas mãos de seqüestradores. Somente em outubro daquele ano houve 14 seqüestros, entre eles o de Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira Filho, filho do presidente da Federação das Indústrias do Rio.Em 2001, o número de seqüestrados no Estado caiu para três. ?Hoje as quadrilhas estão presas, desarticuladas ou migraram para São Paulo?, diz Moraes.Ele cita como exemplo o bando de José Carlos Arruda Brandão, o Zé Galinha, de 15 homens, que foi desmantelado. ?Noventa por cento deles foram presos no Rio?, disse Moraes. Zé Galinha continua foragido e estaria atuando em Santos.MineirarPara Moraes, o fim da indústria de seqüestro fluminense deve-se à ?seriedade dos policiais?. ?Eles deixaram de ´mineirar´ (extorquir) as quadrilhas e passaram a prendê-las.? O delegado também citou o trabalho de inteligência no mapeamento de quadrilhas e a instauração de inquéritos para apurar todas as denúncias. ?Pedidos de resgate de R$ 1,00 ou de R$ 1 milhão passaram a ter o mesmo tratamento?, disse.Borges preferiu atribuir o fim da onda de seqüestros no Rio à atuação da imprensa. ?É muito difícil lutar sozinho contra seqüestradores. Com suas denúncias a imprensa tem conseguido alertar as autoridades para a seriedade do problema?, afirmou.

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