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Seria o PCC o nosso Estado Islâmico?

Se os meios são distintos, um enraizado no tráfico de drogas e o outro em uma leitura deturpada da religião muçulmana, ambos se igualam no desejo de estabelecer um Estado paralelo

André Fran, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 11h00

Lendo as mais recentes e reveladoras reportagens do Estadão sobre o PCC, me veio uma pergunta à mente: seria o PCC o nosso Isis? Explico. Sou nascido e criado no Rio de Janeiro e minha editoria profissional, mais focada no internacional, não tem a criminalidade de São Paulo no seu escopo. Portanto, tenho pouco conhecimento das intrincadas dinâmicas operacionais do Primeiro Comando da Capital. Por outro lado, por força da profissão já estive em regiões dominadas pelo crime mundo a fora. De Ciudad Juarez, controlada pelos violentos cartéis do narcotráfico mexicano, aos territórios dominados pela mafia Yakuza, no Japão.

Mas, refletindo sobre as maiores ameaças à lei e à ordem em nosso tempo, tenho de destacar minha experiência na linha de frente do combate ao Estado Islâmico, no Iraque. Me enfiei em bases improvisadas, adentrei barricadas, estive ao lado de soldados Peshmerga (os muçulmanos que compunham a principal barreira de defesa contra o avanço do grupo terrorista no norte do país) e conversei com inúmeras vítimas dos jihadistas. De modo que, sempre que ouvia a comparação do crime organizado no Brasil, fosse o PCC ou as milícias do Rio, com organizações terroristas islâmicas, eu dava uma pausada. O paralelo entre duas realidades tão diferentes me soava superficial e gratuito. Um artifício de retórica pra causar impacto. Por isso, procurei ir além da frase de efeito e fazer uma análise baseada no que vi e vivi no Oriente Médio.

Primeiro, vale atentar para o objetivo principal dos dois grupos. E aí realmente há uma grande semelhança. Se os meios são distintos, um enraizado no tráfico de drogas e o outro em uma leitura deturpada da religião muçulmana, ambos se igualam no desejo de estabelecer um Estado paralelo.

No Brasil, são comuns as alusões à presença institucional do tráfico organizado em comunidades "onde o Estado não chega". Líderes de facção se tornam lideranças locais reconhecidas ao preencher o vácuo das autoridades oficiais. Distribuem remédio, mediam disputas entre vizinhos e até controlam suas fronteiras.

O Isis, por sua vez, proclamou um Califado. Seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, morto no ano passado, declarou em 2014 a autoridade política, religiosa e militar sobre essa região que englobava cidades grandes como Raqqa, na Síria, e Mossul, no Iraque. Um Estado paralelo governado pelas leis do wahabismo, versão mais radical do Islã. A área era maior do que o Reino Unido.

E se engana quem imagina um imenso terreno descampado com ovelhas passeando por estradas de terra batida. Os territórios dominados incluiam prédios comerciais, sítios históricos, banco central e uma importante estrutura petrolífera (que financiou as operações do grupo por um bom tempo). Estive a poucos quilômetros de Mossul, hospedado em um hotel cinco estrelas de uma rede internacional. Não é para me gabar, mas para mostrar o nível organizacional e o poder de uma organização terrorista que consegue controlar tamanha região. Mas para efeito de comparação, Mossul possui cerca de 600 mil habitantes. Calcula-se que só o Rio tenha hoje 3,7 milhões de habitantes em áreas dominadas pelo tráfico.

As táticas desses grupos também apresentam uma série de semelhanças entre si. O terror, claro, sendo o principal ponto de contato. A violência como simbolismo para manter o domínio sobre territórios, ameaçar inimigos e até controlar seus próprios membros. A espetacularização das execuções, de "infiéis" em um caso e de rivais ou traidores no outro, guardam muitas similaridades. E, infelizmente, ganham o mundo via redes sociais. O que acaba atendendo aos objetivos desses grupos. Na busca por sua afirmação ideológica e territorial, ser temido é mais importante do que ser respeitado. Seja na Síria, no Iraque ou em um dos 26 Estados brasileiros ou no Distrito Federal, onde o PCC atua.

Ao alcançarem uma dimensão relevante, é possível perceber no PCC, nas milícias do Rio e no Isis, um maior profissionalismo, também. Todos criam seus respectivos "escritórios do crime" com organogramas definidos como os de negócios tradicionais.  As organizações criminosas têm departamentos de finanças e contabilidade que muitas vezes contam com profissionais com experiência em empresas reconhecidas.

O Estado Islâmico, por sua vez, tinha um setor de comunicação com profissionais internacionais, equipamento de ponta e realizava produções cinematográficas de seus atos hediondos. O governador afastado do Rio, Wilson Witzel (PSC), manifestou em 2019 o interesse de interceder junto à ONU para equiparar as facções brasileiras a grupos terroristas como al-Qaeda e o Isis, na tentativa de conter o complexo esquema de contrabando de armas operado pelas organizações criminosas nacionais. O recrutamento também obedece uma lógica parecida em ambos os casos: buscam a identificação e se apresentam como única via de reconhecimento e ascensão para aqueles à margem da sociedade. A diferença seria que um atua mais no âmbito social, e outro mais no econômico (apesar das interseções entre eles).

Apesar de todos esses paralelos, um episódio me lembra a principal diferença entre os grupos terroristas islâmicos e as facções do crime no Brasil. Tive a oportunidade de entrevistar um ex-terrorista, como ele se denominava, em um campo de refugiados da Palestina. Ele havia cumprido pena em uma prisão de Israel e hoje tem vida pacata, com mulher, filhos e um emprego estável na Cisjordânia. Quando perguntei se ele se arrependia do que tinha feito a resposta foi direta: "Não. Faria tudo de novo em nome de Deus." 

No fundamentalismo religioso, a identificação está baseada em valores (deturpados). Os seguidores do grupo estão dispostos a dar a vida em nome de um ideal. E talvez aí esteja a grande diferença entre Isis e PCC: o componente ideológico. Pelo menos até que uma facção criminosa cresça ao ponto de ganhar essa simbologia no imaginário social. É bom ficar de olho.

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