Serra baixa a guarda e adota discurso mais solto

Pré-candidato do PSDB tem demonstrado jogo de cintura até mesmo em entrevistas para programas populares e de humor na televisão

Julia Duailibi e Lucas de Abreu Maia, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

José Serra em 2002: "Com a consciência da responsabilidade de minha decisão venho hoje declarar que sou candidato a presidente da República." José Serra em 2010: "Venho hoje, aqui, falar do meu amor pelo Brasil; falar da minha vida; falar da minha experiência; falar da minha fé; falar das minhas esperanças no Brasil. E mostrar minha disposição de assumir esta caminhada."

Os trechos acima abriram os discursos do tucano no lançamento das pré-candidaturas à Presidência em anos e em conjunturas políticas distintas. Embora sejam fragmentos de falas mais longas, os dois períodos evidenciam uma mudança na oratória do tucano.

Nas entrevistas e nos discursos que tem feito desde que oficializou a intenção de concorrer ao Palácio do Planalto, em março, Serra tem se mostrado mais solto, com um tom menos tecnocrático, embora ainda um pouco professoral, na avaliação de aliados e especialistas.

"Em 2002, tanto Lula quanto Serra se esforçaram, com graus de eficácia diferentes, para fazer de seus discursos uma conversa com o eleitor. Lula conseguiu com mais eficiência. Agora Serra está mais leve, com uma fala mais amena", diz o professor Carlos Piovezani, da Universidade Federal de São Carlos. Especialista em análise de discurso, Piovezani é autor de uma tese de doutorado sobre os pronunciamentos dos dois candidatos na disputa de 2002.

Em comparação com a campanha de 2002, Serra "baixou a guarda", segundo um integrante da coordenação tucana. Ele tem sido assíduo em entrevistas para programas populares, como o de José Luiz Datena. Já conversou sobre o rebolation com Sabrina Sato, do Pânico na TV. Disse apreciar o "pescoço das mulheres" para o CQC. E participou até mesmo de um certo desafio entre loiras e morenas do Programa do Gugu, no qual fez com as mãos o "L" de "loirinha" e cantou uma marchinha.

Aliados aprovam o Serra auto-confiante e sensível, mas advertem que essa atitude mais desarmada também pode causar problemas. Citam o caso de um encontro evangélico no fim de semana passado, quando o pré-candidato falou sobre pessoas que fumam e pessoas que não acreditam em Deus - o que levou um jornal à interpretação incorreta de que ele comparara fumantes a ateus.

A oratória mais solta também é resultado de uma pausterização da linguagem dos pré-candidatos, afirma Piovezani. "Há uma publicização da linguagem política. Ela se aproxima da publicidade, na medida em que tenta ser mais leve e busca se afastar do ranço político do passado."

Sugestões. O desempenho do tucano nas entrevistas agrada a assessores mais próximos, que passaram a incentivar Serra a falar mais com a imprensa, principalmente com emissoras de TV e rádios regionais, nas viagens pelo País. O tucano pegou mais traquejo ao enfrentar programas ao vivo quando prefeito e governador. Nas entrevistas, cita frases de personalidades e usa expressões sugeridas por aliados.

Na busca por aperfeiçoar o discurso e chegar ao eleitor de renda mais baixa, acatou sugestões, por exemplo, para usar expressões e palavras mais populares. No programa de Datena, há 15 dias, chegou a usar o verbo "engaiolar" quando se referiu aos bandidos e chamou um assassino de "pedófilo maldito".

O tucano também passou a falar mais sobre sua vida, a citar sua infância e a falar de seus pais. E, quando o faz, não é sem pensar. Acata avaliação dos estrategistas do PSDB, segundo a qual essa eleição presidencial será uma disputa entre as biografias dele e da pré-candidata do PT, a ex-ministra Dilma Rousseff.

Para aliados, no entanto, a mudança na forma do discurso não começou com a pré-campanha de 2010, na qual o tucano tem sido chamado de "Serrinha paz e amor", numa alusão ao Lula de 2002. O processo começou em 2004, na eleição para prefeito de São Paulo, quando o PSDB adotou o jingle "Serra é do bem".

O atual desempenho em pronunciamentos e entrevistas, afirmam integrantes da campanha, também está relacionado com o contexto político - além do fato de Serra estar garantindo boas noites de sono, brincam. A candidatura de 2010 começou num clima de união no PSDB mais forte do que em 2002, quando Serra foi acusado de atropelar correligionários.

"Ele é o comandante da campanha. E não há diferença entre o que ele pensa e o que ele faz. Isso dá uma segurança e uma serenidade muito grande", afirma o deputado Jutahy Júnior (BA). "Serra pensou muito antes de entrar na campanha. Tomou a decisão já imaginando como faria tudo", diz o coordenador da campanha e presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

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