Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Serra critica esvaziamento da indústria

Política econômica atual levou à importação de bens de consumo e desindustrialização do País, diz tucano

Daniel Bramatti e Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

José Serra voltou a criticar, ao longo da entrevista, o processo que acredita ser de desindustrialização da economia brasileira. "É o caminho que estamos trilhando. Com os nacionalistas desenvolvimentistas petistas à frente", ironizou. O tucano responsabiliza o governo Lula por aumentar a importação de bens de consumo que, anteriormente, eram produzidos aqui. E por conduzir uma política monetária "inconveniente" para o País. "O Brasil foi o único país significativo do planeta que demorou quatro meses para baixar os juros durante a crise."

No campo da Previdência, Serra defende que sejam revistas algumas benesses de aposentadorias para funcionários públicos. "Por que um juiz se aposenta com 50 anos de idade? No governo, vamos fazer essa correção no futuro", prometeu, acrescentando que para os que já têm direitos adquiridos seria criado um fundo previdenciário com reservas do pré-sal e de capital de empresas públicas.

Tese curiosa. O déficit em conta corrente cresce vertiginosamente e nada indica que isso vá diminuir. A candidata Dilma parece não ter estudado economia, porque quando fala disso mostra seus pontos mais frágeis. Ela disse que esse crescimento se deve à importação de bens de capital, a investimento, e é óbvio que não é assim. Qualquer análise mostra que estamos importando para o consumo. Indústrias de tratores e automóveis estão importando cada vez mais coisas que antes eram produzidas aqui com muita eficiência. Há uma rigidez fiscal imensa, uma política monetária ajustada, da qual decorre uma política cambial inconveniente para o País. O Brasil foi o único país significativo que demorou quatro meses para baixar os juros durante a crise. É uma coisa para tese de mestrado como curiosidade científica.

Desindustrialização. Estamos importando uns 40% do papel que consumimos. Estamos em franco e aberto, só não declarado, processo de desindustrialização. Via rápida para o modelo "hacia afuera", de economia primária e exportadora. Funciona em economias pequenas, mas em uma economia continental seria uma novidade. É impossível, em um país de 200 milhões de habitantes, prosperar com uma economia exportadora de commodities. É o caminho que estamos trilhando com os nacionalistas desenvolvimentistas petistas à frente. Até porque eles têm muito mais noção de interesses de grupo, pessoais, de facção, de cupinchas, do que de desenvolvimento do Brasil.

Desperdício. Vivemos hoje um tripé perverso da maior carga tributária do mundo em desenvolvimento, a maior taxa de juros real do mundo e a menor taxa de investimento governamental do mundo entre os países mais significativos. É um tripé complicadíssimo. O próximo presidente terá de enfrentar isso. Precisamos ter políticas de juros e câmbio, e de gastos e de receitas, diferentes. Precisamos de austeridade fiscal e aí tem campo, porque tem muita gordura de desperdício.

Crescimento. Em 2009, o PIB diminuiu. Desaparecidas as causas desse declínio, no ano seguinte a economia cresce mais. Isso não significa que seja a taxa de crescimento provável da economia nos próximos anos. Criou-se o mito de que o Brasil surfou na crise. Quem surfou foi a China, a Índia, países que têm projeto nacional.

Política monetária. O ministro do Planejamento gasta alopradamente. O da Fazenda quer arrecadar. E o Banco Central quer subir juros. O câmbio no Brasil é flutuante só para baixo. Quero uma equipe harmônica, com objetivos comuns. Quando falei do modelo chileno, na verdade fiz um projeto no começo dos anos 90 e falei de uma junta de coordenação financeira. Não é para agora.

Política previdenciária. Na época da Constituinte, eu queria fazer um projeto para a Previdência que valesse para os que iriam nascer. No caso de funcionário público, não foi eliminada a aposentadoria integral. O que teria sido melhor? Colocar a idade normal para se aposentar. Por que um juiz se aposenta com 50 anos de idade? Não tem cabimento. Você faria essa correção, que teria sido defensável. No governo, vamos fazer isso no futuro. E equacionar os que já têm direitos adquiridos criando um grande fundo previdenciário com reservas do pré-sal, de capital de empresas públicas. Vou apresentar isso na TV.

Reforma política. Eu faria a eleição distrital nos municípios com mais de 200 mil eleitores, onde há segundo turno. O custo da campanha diminuiria muito e o eleitor consegue cobrar o eleito. Meu propósito é diminuir o custo da campanha, para recuperar a ética na sociedade brasileira. Pagar campanha legitima a corrupção de alguma maneira. Outra mudança é que no horário eleitoral teria só o candidato e a câmera. Poderia cair a audiência, que já é baixa, mas pelo menos não teríamos mais o candidato iogurte, o sabonete, o envelope fechado. Também tentaria encontrar uma forma de obrigar a ter debates.

Cópia. Temos um programa de governo pronto. A dúvida é se soltamos antes ou depois do deles, porque, se soltar antes, o deles terá tudo o que o nosso tiver.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.