Serra culpa PT, CUT e Força por confrontos

Entidades rebatem, afirmando que governador quer politizar greve

O Estadao de S.Paulo

17 Outubro 2008 | 00h00

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), acusou ontem a CUT, a Força Sindical e deputados do PT e PDT de incitarem o confronto entre policiais civis e militares no Morumbi. O governador disse também que "havia muitos sindicalistas" no ato, ao citar os cargos do líder do PT na Assembléia e de um deputado federal do PDT - Roberto Felício e Paulo Pereira da Silva, respectivamente. A CUT, segundo Serra, forneceu a infra-estrutura e a Força organizou a manifestação. Dirigentes das centrais e políticos rebateram Serra e afirmaram que o governo paulista quer politizar a greve dos policiais civis para se isentar da responsabilidade do conflito. "Isso (o confronto) não foi um duelo entre forças policiais, mas um movimento incitado politicamente. A categoria tem 33 mil pessoas. Aqui tinha cerca de mil e nem todos que estavam na manifestação são policiais", disse Serra. "Não tenho dúvida nenhuma de que tem participação ativa da CUT, que é ligada ao PT, e da Força Sindical, ligada ao PDT. Na verdade, se procura politizar essa manifestação." Para Serra, o episódio não vai respingar na candidatura Kassab. "Tem muita gente querendo faturar politicamente em cima dos problemas da Polícia Civil. Não é que todos os policiais envolvidos tenham motivações político-eleitorais. A direção do movimento e a infra-estrutura estão sendo dadas por esses interesses. A reivindicação se discute na mesa, não nas ruas com armas." Por causa da paralisação, o governador reafirmou que não receberá nenhum representante dos policiais. Afirmou também que o comando das polícias vai punir os mais exaltados. O diretor da Associação dos Delegados da Polícia do Estado de São Paulo, André Dahmer, disse ontem à noite, durante visita aos feridos no Hospital Albert Einstein, que "o governador fala inverdades". "Serra está tentando apagar incêndio com gasolina. O movimento nasceu espontaneamente entre os policiais. Nós tentamos negociar com o governador. Ele é que não quer", afirmou Dahmer, que, no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foi secretário-adjunto nacional de Segurança Pública. De acordo com o delegado, o confronto somente ocorreu porque o governador demora para atender às exigências da categoria. "O objetivo nunca foi invadir o palácio do governo, tanto que a manifestação estava marcada para acontecer na Praça Jules Rimet. A Polícia Civil não disparou nenhum tiro", afirmou. "Nenhuma entidade da Polícia Civil é filiada a qualquer entidade sindical." Apesar do apoio das centrais sindicais - estavam também presentes dirigentes da UGT, CGTB e CTB -, o movimento, segundo o presidente da CUT-SP, Edílson de Paula Oliveira, é de responsabilidade dos policiais civis. De acordo com Oliveira, as entidades sindicais apenas prestam apoio solidário à greve e não havia militantes no ato, apenas dirigentes. Além disso, como Dahmer, o cutista disse que nenhum sindicato ou associação da polícia é filiado às centrais. "A greve não tem cunho político. Serra diz isso para ignorar as reivindicações dos policiais." Oliveira também repudiou o enfrentamento. "O culpado pela violência é o Serra, que se recusa a negociar." O presidente da CUT-SP disse que a greve continuará a ter o apoio da central, que reúne grandes sindicatos dos servidores estaduais, como os trabalhadores da saúde e da educação. APOIO A idéia de realizar o protesto surgiu na quinta-feira da semana passada por sugestão do presidente nacional da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, durante ato dos policiais na Avenida Paulista. Ontem, Paulinho e sindicalistas da CUT, que forneceram carro de som para o ato, presenciaram o início do confronto. "O governador usou métodos da ditadura para acabar com uma manifestação", afirmou Paulinho. Em nota, a Força repudiou a violência. Com os manifestantes também estava o deputado federal William Woo (PSDB), ligado aos policiais. |O líder do PT na Assembléia Legislativa, deputado Roberto Felício, afirmou que Serra foi "irresponsável e não teve tato político" para evitar o conflito ao não receber uma comissão para negociar. "O governador quer desviar o foco do problema, que é a reivindicação da polícia." Felício disse que a passeata dos policiais civis transcorria de forma tranqüila até que, por volta de 15 horas, chegou a informação de que o governo não receberia a comissão. "O clima ficou muito tenso e daí os conflitos surgiram", contou. "Fui ao portão 2 do Palácio e tentei solicitar ao secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, que o governo recebesse os líderes dos grevistas", contou. Disse ter aguardado uma resposta até as 18 horas. O secretário afirmou que os representantes dos grevistas não esperaram três horas para serem atendidos. Um grupo, segundo ele, pediu para entregar um documento e, no momento em que um funcionário do palácio foi buscá-lo, "um orador mais inflamado incitou a multidão e começou o confronto". ELEIÇÕES O PT rebateu as acusações de Serra. O presidente do diretório paulistano, José Américo Dias, disse que o governador tenta de forma "oportunista jogar nas costas do PT um problema que ele causou". "Ele ganhou o governo com perspectiva de melhorar os salários, com essa promessa. E, ao contrário, o que ele fez foi trair as promessas e agora, diante da greve que já dura mais de 30 dias, diante de um movimento que é legítimo, tenta tirar o corpo fora e politizar a questão." O senador Aloízio Mercadante (PT-SP) também criticou o governador. "Isso (as acusações de Serra) é lamentável e descabido", reagiu. O senador advertiu que Serra tenta transferir para o PT responsabilidade que é dele. "Estamos tendo a greve nacional dos bancários e durante o governo Lula tivemos várias paralisações, nem por isso transferimos responsabilidades." Diferentemente de Mercadante, o ministro da Justiça, Tarso Genro, foi evasivo ontem à tarde, no Rio, ao comentar o confronto em São Paulo. "Quando tem um conflito dessa natureza, o que a gente tem que torcer é para que haja um ajuste, para que haja gestão eficiente para a crise passar. E, nesse sentido, somos totalmente solidários ao governo do Estado." À noite, por meio da Assessoria de Imprensa, o ministro manteve o posicionamento de solidariedade, mesmo após às críticas de Serra ao PT. Acrescentou que o governo federal está à disposição do Estado caso haja chamamento da Força Nacional de Segurança. ANDRÉIA SADI, BRUNA FASANO, EDUARDO REINA, FELIPE WERNECK, RICARDO LEOPOLDO e WILLIAM GLAUBER

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.