Serra e Dilma evitam polêmicas diplomáticas

A política externa brasileira, área que talvez mais distanciou os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), caminha para o que parece ser uma convergência de ideias sob os pupilos José Serra e Dilma Rousseff, pelo menos em tempos de pré-campanha.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Até mesmo nas relações mais espinhosas, como Irã e Venezuela, assuntos que estiveram em pauta durante a semana, os pré-candidatos evitaram o embate. Enquanto Dilma tenta ganhar luz própria, frente à alta popularidade de Lula, Serra tem tido o cuidado de não fazer críticas diretas ao presidente.

Questionado por repórteres, o tucano preferiu não comentar a política externa brasileira mesmo diante do possível fracasso no acordo com o Irã, que o chanceler Celso Amorim tenta agora salvar fazendo lobby com os membros do Conselho de Segurança para que adiem o acordo sobre sanções contra o país.

De um lado e de outro, tenta-se evitar o desgaste político com a aproximação de uma eleição presidencial ainda altamente indefinida.

Venezuela. Serra também baixou o tom sobre a relação com Hugo Chávez, antes alvo de suas mais acaloradas críticas contra o governo Lula.

Em entrevista à rádio CBN, o pré-candidato tucano fez questão de lembrar que o presidente venezuelano também "elogiava o relacionamento com o Brasil na época de FHC", embora "a ligação não fosse tão estreita".

Serra defendeu ainda manter acordos comerciais com a Venezuela, apesar de já ter se declarado anteriormente contra a entrada do país no Mercosul.

"José Serra está calculando muito bem o que fala porque, candidato a presidente pós-Lula, o que o tucano menos quer é ter uma posição contra o governo petista", avalia o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas Marco Antonio Carvalho Teixeira. "O que está por trás disso é a alta popularidade do presidente Lula", diz ele.

Dilma, por outro lado, conhece bem a fama do presidente venezuelano em setores onde busca apoio político. Diante da pergunta sobre o que achava de Chávez, durante participação no programa do apresentador Ratinho, no SBT, a pré-candidata disse ser apenas "um dos presidentes da América Latina com quem temos de lidar".

"E em uma eleição acirrada como essa, ninguém quer arriscar perder votos", avalia o cientista político. "Dilma sabe que Chávez não é bem visto e tenta mostrar-se menos próxima a ele. Serra sabe que Lula é altamente popular e evita bater de frente com o governo. Por isso, preferiu não comentar o acordo nuclear com o Irã e tem até elogiado algumas políticas do presidente."

O especialista vê no discurso brando do pré-candidato da oposição e no pragmatismo da governista uma estratégia de campanha, mais do que o alinhamento entre os planos de governo. "O que temos é um PSDB crítico, mas um Serra mais condescendente", analisa. "Um governo do PT altamente popular e uma Dilma que tenta ser pragmática nas questões mais polêmicas, em busca de luz própria."

PT versus PSDB. Nos bastidores, PT e PSDB trabalham para catapultar a própria campanha e neutralizar a do adversário, minimizando os efeitos sobre os pré-candidatos. Pelo menos em fase de pré-candidatura, as discussões têm se concentrado entre partidos e mais em Lula e FHC do que em Dilma e Serra.

Os petistas defendem os benefícios da política externa de Lula para a economia. O Brasil tem na Venezuela o maior saldo comercial - US$ 4,6 bilhões, 2,5 vezes superior ao obtido com os Estados Unidos (US$ 1,8 bilhão).

A diversificação da pauta, além de aumento da projeção internacional, foi a justificativa da aproximação maior com o Irã e da tentativa de se envolver na mediação entre Israel e Palestina, que protagonizam o principal impasse para a paz no conturbado Oriente Médio.

Os tucanos criticam o governo usando os argumentos da defesa dos direitos humanos e da liberdade de imprensa e de expressão, que Chávez e Ahmadinejad, além do antigo companheiro Fidel Castro, de Cuba, são acusados de violar.

Para os tucanos, o Brasil comete "desvios de conduta" ao não condenar esses países. "Mas, o governo anterior (FHC) nunca fez declarações sobre as violações de direitos humanos em Cuba, embora já existissem naquela época", defendeu o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra.

Para o líder da área de Relações Internacionais do Senado, Eduardo Azeredo (PSDB), a política petista é que demonstra incoerências. "O governo Lula não reconheceu o presidente eleito de Honduras porque diz ter sido uma eleição feita após um golpe de Estado. Mas ao mesmo tempo indica um embaixador nosso para Cuba, onde nem eleição houve." Para ele, o embate de Lula com EUA e França é "excesso de vaidade".

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