Serra lança candidatura, prega fim de divisões e diz que Brasil não tem dono

ANA PAULA SCINOCCA, CHRISTIANE SAMARCO, JOÃO DOMINGOS E JULIA DUAILIBI, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

Celebração. Serra listou avanços no País nos últimos 25 anos, mas não deixou de lado ataques indiretos ao presidente Lula e a sua adversária, Dilma Russeff

Lançado pré-candidato à Presidência da República ontem, em Brasília, o ex-governador José Serra apresentou-se como o "pós-Lula" que se propõe a trabalhar pela união do País. Em críticas indiretas ao atual governo, o tucano destacou que o Brasil "não tem dono" e voltou a usar a expressão que "pode mais", dando assim o mote da campanha.

 

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No encontro do PSDB-DEM-PPS, que atraiu cerca de 6 mil pessoas, segundo organizadores, Serra apostou no tom conciliatório: "Não aceito o raciocínio do nós contra eles". Reforçou a imagem do candidato da união, contrapondo-se ao discurso da principal adversária, a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff.

"De mim, ninguém deve esperar que estimule disputas de pobres contra ricos, ou de ricos contra pobres. (...) Ninguém deve esperar que joguemos Estados do Norte contra Estados do Sul, cidades grandes contra cidades pequenas. (...)É deplorável que haja gente que, em nome da política, tente dividir o nosso Brasil."

Num recado indireto ao presidente Lula, Serra lembrou que, desde a redemocratização, a sociedade brasileira alcançou várias conquistas, como o direito de votar no presidente, a imprensa livre, a nova Constituição, o Plano Real, a responsabilidade fiscal dos governos, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a redução da miséria.

"Não foram conquistas de um só homem ou de um só governo, muito menos de um único partido. Todas são resultado de 25 anos de estabilidade democrática, luta e trabalho. E somos militantes dessa transformação, protagonistas mesmo, contribuímos para essa história de progresso e de avanços do nosso País", declarou Serra, que leu o discurso por meio de dois teleprompters instalados no palco.

Em mais um ataque velado ao PT, Serra afirmou ser necessário resolver os problemas nacionais "sem ceder à demagogia, às bravatas ou à politicagem". Disse ainda que o País "não tem dono" e que é dos brasileiros que "não dispõem de uma boquinha, dos que exigem ética na vida pública porque são decentes, dos que não contam com um partido ou com alguma maracutaia para subir na vida."

Serra apostou num discurso em que destacou o que considera "valores" do homem público, e listando "honestidade", "verdade", "caráter", "honra" e "coerência". Elaborou o texto com ajuda discreta do marqueteiro Luiz Gonzalez.

Um dos momentos de maior apelo foi quando falou da infância, parte da estratégia de trazer para o debate a disputa de biografias com a pré-candidata do PT. Foi quando recordou a origem humilde e a influência do pai. "Seu exemplo me marcou na vida e na compreensão do que significa o amor familiar de um trabalhador: ele carregava caixas de frutas para que um dia eu pudesse carregar caixas de livros."

Também citou a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, o que levou às lágrimas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Durante cerca de uma hora, Serra não tentou vestir o figurino de showman, Deixou-se levar pela empolgação apenas no final, quando fechou a leitura levantando os braços para a plateia. O público era maior do que a capacidade do local, o que provocou tumulto. Tucanos do alto escalão foram barrados no acesso ao palco e ao salão principal. O presidente do PSDB paulistano, José Henrique Reis Lobo, discutiu com seguranças. Luiz Gonzalez também chegou a ser barrado. Os tucanos viram a confusão como reflexo do "sucesso" do evento junto à militância, que ganhou transporte, alimentação e hospedagem para ir ao local.

Inadequação econômica. As declarações de Serra evidenciaram os pontos centrais da campanha. Falou sobre educação, saúde, meio ambiente, segurança e combate às drogas. Crítico do câmbio valorizado, cortejou o setor exportador ao dizer que a agricultura "tem sido a galinha dos ovos de ouro do desenvolvimento do País." Disse ainda que há "inadequações" na política macroeconômica, mas não entrou em detalhes. Citou o "aumento da rigidez fiscal e vertiginoso crescimento do déficit do balanço de pagamentos." Também fez rápida referência à política internacional. Disse que o País não pode tolerar aqueles que mantêm prisioneiros políticos ou os que fuzilam, numa alusão à relação que o Brasil tem mantido com Cuba e Irã.

Quanto à eleição, falou em ser sereno. "Às falanges de ódio que insistem em dividir a Nação vamos responder com trabalho presente e nossa crença no futuro. Vamos responder sempre dizendo a verdade. Aliás, quanto mais mentiras os adversários disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles." Concluiu seu discurso voltando ao ponto de partida: "Quero ser o presidente da União".

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