Leo Caldas/AE - 15/04/2010
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Sertão em festa no Mercado da Madalena

Os sábados no mercado público da Madalena, no Recife, são uma festa. Uma festa em torno do sertão pernambucano, paraibano, nordestino, cujos protagonistas são também do sertão pernambucano, paraibano, nordestino que ali, mais especificamente no Canto Sertanejo, das irmãs Neurides e Nelcita Ferraz, reencontram, revivem e exaltam sua essência e sua raiz.

Angela Lacerda - correspondente em Recife, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2011 | 12h45

 

Eles não se enquadram no perfil de retirantes da seca. Moram na capital, mas nos seus corações e na sua arte brilha o desejo de manter viva uma tradição que temem correr risco de extinção em meio ao apocalipse do "forró de plástico" - expressão criada por Sivuca para definir as bandas estilizadas. São poetas, declamadores, cantores, produtores culturais que amam a alma sertaneja.

 

 

Cenas

 

 

Onze e meia da manhã. Sentados em torno de uma cerveja gelada e pedaços de queijo de manteiga (típico do sertão), o poeta Marcos Passos, 48 anos, nascido em São José do Egito, Pajeú pernambucano, conversa com o escritor paraibano Zelito Nunes. Defendem que os cantadores de repente são gênios injustiçados. Para eles, repente é uma arte maior e não é para todo mundo.

 

 

"O maior deles foi Pinto do Monteiro", diz um atropelando o outro. "Pinto foi o Pelé do repente", sentenciam. Severino Lourenço da Silva, nascido em Monteiro, na Paraíba, em 1895, foi tema do livro de Zelito, "Pinto Velho do Monteiro, um cantador sem parelha".

 

 

Mas não se pode esquecer de Lourival Batista nem de Manoel Xudu - emendam. Dos vivos, são reverenciados João Paraibano, João Furiba, Geraldo Amâncio, Ivanildo Vilanova. Da nova geração tem Os Nonatos. O brilho dos olhos aumenta. Marcos Passos começa a declamar.

 

 

"A saudade é a reserva/dos sentimentos humanos/ E é feliz quem conserva/Saudade através dos anos". O autor do verso é o paraibano Chico Pedrosa, que começou a escrever folheto de cordel aos 18 e é reconhecido pelo Ministério da Cultura como mestre da cultura popular. Marcos também fez seu próprio verso para cantar a saudade e continua: "Saudade é sentir a brisa/que a nossa infância soprou/reviver a chama ardente/ que a juventude queimou/pintar o quadro de sonhos/ que a mão do tempo apagou".

 

 

Chega, então, Jorge Filó, 40 anos, que escreveu o romance-cordel "A Igreja do Diabo (ou a contradição humana)", inspirado no conto homônimo de Machado de Assis. Seu talento é reconhecido, mas sua maior virtude mesmo - pelo menos para os amigos sertanejos - é ser filho de Manoel Filó, grande repentista do sertão pernambucano. Filó, o filho, abriu uma cachaçaria - Matulão - em outro mercado público que inspira a tradição da cultura popular, o da Boa Vista, área central da cidade.

 

 

Um violão começa a acompanhar a voz de Rosaura Muniz, que se espraia pelo ambiente. Não impede a conversa. João Veiga, médico, entusiasta da arte sertaneja, já integra o grupo, contando causos e provocando risadas, ao lado do filho adolescente. Veiga foi um dos apoiadores da iniciativa dos colegas médicos Evilácio Feitosa e Luiz Carlos Diniz, organizadores do livro "O que eu admiro... fábulas acordeladas de bichos nadantes, andantes e voantes das terras deste mundo-sertão", definido como uma "seleta da sabedoria popular em sua forma mais pura".

 

 

Aplaudida, Rosaura, que lançou seu segundo CD, "Jazz com Jerimum", dá a vez a Eduardo Abranttes, cantor, compositor e poeta que todo sábado "sustenta a onda sertaneja", no dizer dos seus frequentadores. Músicas do baiano Elomar, de quem é fã, integram seu repertório. A esta altura, o assunto gira em torno de "João Badalo" contador de histórias do "sertão brabo", semianalfabeto e dono de uma memória invejável que mantém viva a oralidade da cultura sertaneja.

 

 

O produtor cultural e jornalista Anselmo Alves se indigna com a possibilidade de extinção da sanfona de oito baixos, que era tocada por Luiz Gonzaga, o Gonzagão, e hoje sobrevive com Arlindo dos Oito Baixos - 50 anos de carreira e uma das atrações dos festejos do São João deste ano no Estado.  "E quando Arlindo se for? Quem vai tocar oito baixos?"

 

 

Chega Walter Marcolino. Filho de José Marcolino, que foi parceiro de Luiz Gonzaga. Walter, 50 anos, criou a banda CUrrupio. Com dois CDs e um DVD gravados, a banda divide seu repertório entre música de "escrache" - crítica à música pornofônica e de baixaria que tem encontrado acolhida no sertão - e composições do pai.

 

 

A brincadeira em torno de poesia, cachaça e cantoria, batizada de "Prozac coletivo" por Evilácio Feitosa, só termina perto da hora do fechamento do mercado, às 18 horas. Sábado tem mais.

 

 

Bule bule quebra a rotina

 

 

Sábado desses, a presença do repentista, cordelista, compositor e cantador Antonio Ribeiro da Conceição, o Bule Bule, outro mestre da cultura popular, transformou a rotina do Canto Sertanejo. Todos queriam fotografar e filmar Bule Bule, nascido no sertão baiano, que esteve na cidade para fazer show no Recife Antigo.

 

 

O samba rural é a matriz da sua música, mas ele também passeia pelo coco, chulas e batuques. Ao sentar, espalhou livros e CDs seus pela mesa. Estão à venda. "Vivo do que canto e escrevo".

 

 

Pegou o violão e encantou. Mesmo doente - sofre de insuficiência renal - Bule Bule, 73 anos, é só tranquilidade e bom humor, que ele diz "bom gosto". Com seu chapéu de couro e longa barba branca, orgulha-se do Prêmio Cultural de Música, que lhe foi outorgado, em 2009, no Teatro Nacional, no Rio, e de ter se apresentado para o presidente Lula e para a presidente - então ministra - Dilma Rousseff, em Salvador, no Teatro Castro Alves.

 

 

Membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC), Bule Bule explica seu nome artístico como "a transição entre a lagarta e a borboleta" e se define com um verso: "Sou como uma fruta madura/ Que cai do pé lentamente/ Na queda se esbagaça/ Jogando longe a semente/ Procurando terra fértil/ Para ser fruta novamente".

 

 

Momento de êxtase para a confraria sertaneja.

 

Canto sertanejo

 

 

Nascidas em Serra Talhada, sertão pernambucano, terra do xaxado e do cangaceiro Lampião, as ex-bancárias Neurides e Nelcita Ferraz perderam o emprego em 1999, quando o banco em que trabalhavam foi privatizado. Numa passagem pelo mercado - terceiro mais antigo mercado público do Recife, inaugurado em 1925 - na zona oeste, decidiram investir no "Canto Sertanejo".

 

 

Começaram a trazer coisas do sertão - rapadura, mel, carne de sol, linguiça de bode, doces, queijo de manteiga, cachaça e também cordéis, livros e CDs - e os poetas foram chegando.

 

 

"O retorno é excelente", afirma Neurides, referindo-se à felicidade de participar de um movimento que mantém viva a cultura e a identificação de quem experimentou o sertão.  Como diz João do Vale, em uma citação escolhida para apresentar o livro de Marcos Passos "Retratos do Sertão - antologia poética", "não é só falar de seca, não tem só seca no sertão".

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