Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

Serviços online vendem aulas para se tornar mãe de bebê influencer

Mentorias prometem bombar os perfis de crianças com dicas para tirar boas fotos e definir a melhor frequência das publicações

Júlia Marques, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Na onda da exposição de crianças nas redes sociais, serviços online já vendem o passo a passo para criar “bebês influencers” e conquistar milhares de seguidores para o filho na internet, desde o nascimento. As “mentorias”, vendidas nas próprias redes, prometem bombar os perfis de crianças com dicas para tirar boas fotos e definir a melhor frequência de postagem. As aulas atraem mães interessadas em conseguir parcerias com marcas e publicidade para os filhos. 

“Perca esse medo e veja seu filho brilhar na internet”, afirma a criadora de um desses cursos. Para ela, o temor é “coisa de tia ou de avó”. Os serviços afastam os riscos de que as fotos caiam em redes de pornografia e vendem a ideia de que o “sharenting”, o hábito de compartilhar as fotos de crianças nas redes, é uma forma de se aproximar do filho. Também ressaltam que crianças perfis com mais seguidores conseguem parcerias até com escolas particulares - e obtêm descontos nas mensalidades. 

A crise econômica tende a levar mais pais a buscarem esse caminho, na opinião de Maria Mello, coordenadora do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana. Hoje, há mais de um milhão de publicações no Instagram com a hashtag #miniinfluencer, associadas a crianças e até bebês. Para ela, há o risco de que as crianças sejam inseridas em uma lógica de consumo e acabem afastadas da vivência plena da infância. 

É comum que as parcerias envolvam, por exemplo, pose para fotos com roupas recebidas pelas empresas anunciantes ou que as crianças sejam filmadas desembalando presentes, como sapatos. “Muitas vezes, influenciadores mirins se tornam eles próprios mercadorias de consumo. Em muitas situações, são colocadas como mini-adultos”, diz Maria. 

Na casa de Noah, de 3 anos, há caixas de presentes recebidos em agosto que a família ainda não teve tempo de desembalar. Foi sem querer que o menino se tornou um influencer digital este ano e conquistou um milhão de seguidores no Instagram e 5 milhões no TikTok - o equivalente a todos os habitantes da cidade do Rio assistindo, diariamente, ao que o menino faz. Os vídeos com declarações de amor de Noah aos pais viralizaram - e logo veio o assédio das marcas. 

“Tudo o que eu postava, as pessoas queriam saber: o chinelo que ele estava usando, a pulseira que eu usava e sem querer aparecia no vídeo”, diz a mãe, a farmacêutica Frécia Melo, de 33 anos, que hoje se dedica apenas às contas da família na internet. Noah recebe presentes - com a expectativa das empresas de que faça vídeos abrindo os pacotes - e convites para propagandas. 

O combo de foto e stories pode custar R$ 4 mil e, muitas vezes, a família tem de recusar pedidos de publicidade em cima da hora com roteiros longos que um menino de 3 anos jamais seria capaz de seguir. “Tentamos inserir as ‘publis’ de forma natural, não é obrigação dele.” A mãe também diz respeitar a soneca do filho - e já teve de justificar às marcas que o menino estava dormindo e, por isso, não poderia gravar.  O alcance leva Noah a ser reconhecido na rua e já houve situações em que ele se assustou com os fãs. 

“Ele não gosta do assédio. As pessoas não têm vergonha de pedir foto, de chegar, como se fosse um objeto. Mas ele não é um brinquedo, um ponto turístico”, diz Frécia, que avalia levá-lo ao psicólogo para ajudar o menino a lidar com o ônus da fama precoce. “Pode ser que ele não queira seguir esse caminho e ok. Vou respeitar.” 

Mesmo com poucos seguidores, a dona de casa Thainá Barbosa, de 32 anos, já recebeu convites de marcas e sugestões de serviços para “bombar” o perfil do filho - mas recusa, por enquanto, com medo do estresse que isso poderia causar ao bebê. 

No caso de Alice, de 2 anos, a bebê que ficou famosa no Instagram ao ler gibis e falar palavras difíceis, há contato de anunciantes, mas a mãe diz rejeitar mais convites do que aceita. “Publicidade para produtos que não consumo e não quero incentivar as pessoas a consumirem, por exemplo, eu não faço”, diz a fotógrafa Morgana Secco, de 38 anos. “Não são sempre decisões fáceis porque envolvem rendimentos que poderiam fazer diferença no nosso dia a dia, então tento escolher minhas batalhas.”

Segundo Maria Mello, do Instituto Alana, os pais têm papel importante, mas não são os únicos atores na tarefa de proteger as crianças nas redes sociais. As marcas que anunciam em contas ligadas a crianças devem ter o cuidado de garantir que o trabalho de publicidade - permitido por lei apenas para fins artísticos - respeite o desenvolvimento e bem-estar da criança. 

Especialistas defendem que seja exigido alvará judicial para crianças que desempenham a atividade de influenciadores nas redes, assim como é exigido para aquelas que são modelos ou atrizes. Na França, lei aprovada em 2020 põe limite de horas semanais para o trabalho de youtubers mirins e obriga que os rendimentos das crianças nas redes sejam depositados em uma poupança para uso após a maioridade. Também prevê o direito de que a criança apague as postagens. 

A regra tenta preencher um “vazio jurídico” sobre o que pode e não pode nas redes, que são hoje um dos caminhos mais atrativos para empresas anunciantes. Já as plataformas poderiam colaborar com mecanismos para reduzir o alcance de publicações puramente comerciais, na opinião de Juliana Cunha, da SaferNet. Crianças podem fazer publicidade, mas propagandas direcionadas a crianças são proibidas no Brasil.  

Indagado sobre a presença de crianças em publicações comerciais, o Instagram informou que contas que representam pessoas menores de 13 anos devem deixar claro na bio (descrição inicial do perfil) que são gerenciadas por pais ou responsáveis. O Instagram tenta aprimorar mecanismos de controle para que crianças não gerenciem contas na rede. Já o TikTok informou que não pode comentar sobre as decisões dos pais e responsáveis sobre suas famílias e que as políticas da rede “focam no comprometimento com a segurança dos menores”. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.