Servidor do BC que matou mendigos em janeiro é preso

Crime ocorreu na mesma praça onde, há 12 anos, índio Galdino foi morto

Rui Nogueira, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

Na mesma praça, outro crime bárbaro. Doze anos depois de ter sido o palco macabro do assassinato do pataxó Galdino Jesus dos Santos, a Praça do Índio, na entrequadra residencial 703/704 Sul, em Brasília, serviu de cenário para o assassinato de dois mendigos, mortos por "motivo fútil" pelo funcionário do Banco Central José Cândido do Amaral Filho, de 48 anos, casado e pai de três filhos. O crime foi cometido em janeiro, mas só anteontem, após uma longa investigação, Amaral Filho foi preso.A investigação revelou que Amaral Filho premeditou o crime. "Mas a audácia do planejamento, apesar dos despistes plantados, foi também o que levou a polícia a concentrar as investigações na figura do funcionário do Banco Central", disse ontem ao Estado a delegada Martha Vargas, da 1ª DP. Os mendigos Paulo Francisco de Oliveira Filho, de 35 anos, e Raulhei Mangabeiro, de 26, foram mortos em 19 de janeiro.No depoimento à polícia, o bancário, sempre mascando chiclete e falando com desenvoltura, afirmou que vivia incomodado com os mendigos da Praça do Índio - o mesmo local em que, no dia 20 de abril de 1997, cinco jovens de classe média atearam fogo ao corpo do índio Galdino. No dia 18 de janeiro, um domingo, Amaral Filho atravessou a praça com os filhos, de 14, 9 e 3 anos, e disse à polícia que ficou "transtornado" ao ver os mendigos "em atos libidinosos". Pressionado, detalhou: "Um homem estava beijando o peito de outro homem." Por volta das 6h30 do dia seguinte, Amaral Filho pegou um revólver 38, vestiu roupas pretas, subiu numa moto, foi para a praça e surpreendeu os mendigos no coreto. Depois de atirar a esmo e de mandar os mendigos se deitarem, Amaral executou um deles com dois tiros e o outro com um tiro, todos na cabeça. Disse que um dos mendigos havia olhado para ele e que, por isso, decidiu matá-los.O bancário alegou que, no domingo, havia pedido à Polícia Militar para tirar os mendigos da praça, mas nada foi feito. "O sangue subiu à minha cabeça e eu queria limpar a praça." Contou ainda que não havia conseguido dormir pelo fato de seus filhos terem presenciado "atos sexuais" dos mendigos e porque eles teriam roubado uma tocha do gramado de sua casa.Amaral Filho fugiu de moto e foi para o Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), onde tentou comprar um capacete para esconder o rosto. Com as lojas fechadas, decidiu se livrar da moto, da pochete e das roupas, jogando-as na laje de uma borracharia. Três dias depois, registrou o furto da moto - que a polícia já havia recolhido, após telefonema anônimo. Ao registrar a ocorrência, Amaral ressaltou que o furto ocorrera por volta das 5 horas. "Os furtos da madrugada não são presenciados. O horário certinho chamou nossa atenção. Como as testemunhas diziam que o assassino usara uma moto preta, checamos as marcas do local do crime com os pneus da moto encontrada no SIA. O problema é que a moto era prateada. Ele maquiou a carenagem para cometer o crime", disse a delegada. Na casa de Amaral, a polícia achou um diário com indícios de que ele pode ter cometido outro crime, "de conotação sexual", e ter envolvimento com tráfico.

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