Servidora da Saúde, Havanir só aparece ''de vez em quando''

Segundo testemunhas, ela chega à secretaria à noite e às vésperas do pagamento; ex-deputada nega irregularidade

Fabio Leite e Fábio Mazzitelli, O Estadao de S.Paulo

25 Agosto 2009 | 00h00

Deputada estadual mais votada da história em 2002 pelo Prona - mais de 680 mil votos -, a médica dermatologista Havanir Tavares de Almeida Nimtz, de 55 anos, é servidora concursada da Secretaria Municipal da Saúde desde 1993 e recebe cerca de R$ 4 mil por mês. Mas funcionários da pasta ouvidos pela reportagem afirmam que ela só aparece na secretaria ocasionalmente e sempre às vésperas do fechamento da folha de pagamento, todo dia 20. Seis fontes diferentes, todas da secretaria, detalharam de forma semelhante a rotina da ex-deputada e ex-vereadora da capital, sem mandato desde 2007. Pelos relatos, Havanir costuma ir à pasta "de vez em quando" e sempre em horário alternativo ao dos servidores: à noite, após as 20 horas. Como a entrada do prédio-sede da secretaria fecha às 19h, a ex-deputada sempre é vista entrando pela garagem, de carro, antes de subir para o 2º andar. A reportagem tenta acompanhar a rotina de Havanir como servidora municipal desde a divulgação do site De Olho nas Contas, no fim de junho. No último dia 17, a reportagem fez plantão à noite na sede da secretaria e flagrou a chegada de Havanir. Às 20h34, a médica entrou com um Honda Fit vermelho na garagem do prédio. Pouco antes, o segurança do local confirmara que ela "aparece de vez em quando" e "nesse horário". Surpresa com a abordagem, ela negou que seja funcionária fantasma, mas não deu detalhes de sua rotina de trabalho. "Estou vindo trabalhar", disse Havanir. "Faço as minhas 20 horas. Exerço trabalho de médica. Faço um dia à noite; no outro, faço à tarde e à noite para completar a carga." Havanir deixou o prédio às 22h43 naquela noite. Entre a abordagem e a saída, por telefone, ela afirmou que "às vezes" trabalha em "eventos" da secretaria e, naquele dia, chegava de atividades fora da pasta, o que entra em contradição com o que afirmara na garagem. "Tem dias que cumpro todas as cargas horárias fora", disse. "Não vou explicar nada. Cumpro o meu horário. Trabalho como as outras pessoas", afirmou a ex-deputada. Duas semanas antes, sem saber do conteúdo da reportagem, a servidora havia dito, por telefone, que estava em viagem, "descansando fora da cidade". Nos dias seguintes à abordagem, Havanir foi vista em três dos quatro dias úteis restantes da semana. Num deles, terça-feira, teria aparecido na secretaria com uma peruca. Oficialmente, a médica está lotada na assessoria parlamentar do gabinete do secretário Januário Montone, que é do PSDB, partido para o qual Havanir migrou quando virou deputada - hoje ela está filiada ao PTC. Três vereadores afirmaram, contudo, que o único assessor da pasta que vai à Câmara Municipal é o funcionário Ivan Cáceres. "Nunca a vi na Câmara. Sempre trato com o Ivan", disse Juliana Cardoso (PT), presidente da Comissão de Saúde do Legislativo. Depois de 2002, a carreira política de Havanir decaiu. Não conseguiu se eleger a deputada federal em 2006 e obteve apenas 8 mil votos para vereadora em 2008. A Secretaria Municipal da Saúde informou apenas que Havanir Nimtz é médica de carreira da Prefeitura, efetivada em outubro de 1993. A pasta se recusou a responder questões básicas como o que ela faz e sua carga horária de trabalho.

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