Sete meses antes do acidente autoridades discutiram risco

Ata de reunião em dezembro mostra empresas e autoridades debatendo condições de segurança em Congonhas

Luciana Nunes Leal, do Estadão,

23 Agosto 2007 | 20h16

Um documento revelado nesta quinta-feira, 23, pela CPI do Apagão Aéreo, na Câmara, prova claramente que, sete meses antes do acidente com o avião da TAM, que matou 199 pessoas, as autoridades da Anac e da Infraero tinham noção exata do perigo que era aterrissar na pista de Congonhas. Em uma reunião, no dia 13 de dezembro do ano passado, que juntou técnicos da Agência Nacional de Aviação Civil, Infraero e companhias aéreas, chegou a se fazer mais do que uma previsão: descreveu-se, diante de três incidentes ocorridos dias antes, que era iminente a possibilidade de um avião perder o controle e "atravessar" a pista.   Veja também Quem são as vítimas do vôo 3054 Todos os vídeos da tragédia   Todas as fotos do acidente  Especiais produzidos sobre a tragédia  Tudo sobre a tragédia do vôo 3054  Maiores desastres da aviação brasileira Cronologia da crise aérea   Os técnicos discutiram o assunto com o gerente de Padrões de Avaliação de Aeronaves da Anac, comandante Gilberto Schittini. Segundo ata da reunião, realizada no Rio de Janeiro, Schittini "reportou que os três incidientes ocorridos recentemente poderiam ser considerados indícios de que há um potencial de ocorrências mais graves, com ultrapassagem do final da pista (varar a pista)". Foi exatamente o que aconteceu com o Airbus da TAM, que atravessou a pista e explodiu ao bater no prédio da TAM Express, na Avenida Washington Luís.   O comandante acrescentou, segundo a ata, que o risco existia "principalmente se houver uma situação de decolagem abortada (RTO - Rejected Take Off) ou uma situação de pouso com velocidade e altura superior à de aproximação (pouso alto e embalado)". A ata da reunião foi distribuída nesta quinta-feira aos deputados da CPI do Apagão Aéreo pela diretora da Anac Denise Abreu, que prestou depoimento de mais de sete horas.   No mês passado, o chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), brigadeiro Jorge Kersul Filho, já tinha feito outra revelação sobre os indícios que apontavam para uma possível tragédia. À CPI do Apagão Aéreo da Câmara, Kersul contou ter feito uma reunião de emergência, no dia 28 de dezembro do ano passado, com Anac, Infraero e companhias aéreas. Segundo o brigadeiro, houve um comentário nos seguintes termos: "Tudo leva a crer que teremos um acidente em Congonhas". Emocionado, disse que várias providências foram tomadas, mas reconheceu que não foram suficientes. E lamentou: "Não conseguimos evitar o acidente que tínhamos previsto".   A ata da reunião do dia 13, no Rio, mostra que o encontro foi aberto pelo superintendente de Infra-Estrutura Aeroportuária da Anac, Luiz Kazumi Miyada, que classificou como "preocupantes" os três incidentes na pista principal de Congonhas. Representantes de companhias aéreas revelaram a recomendação aos pilotos, feita já naquela época, para pouso no aeroporto de Guarulhos, caso não tivessem segurança de aterrissar em Congonhas. As empresas também cobraram das autoridades aéreas informações mais precisas sobre as condições da pista principal de Congonhas, para que os vôos ou os pousos pudessem ser mais bem planejados.   Os representantes da BRA Linhas Aéreas, comandantes Ivan Vergara e Alírio Ferreira, disseram que a empresa emitiu um boletim técnico "após ter dificuldade de frenagem em operação de pouso na pista em tela". Segundo a ata da reunião, "atualmente o critério estabelecido pela BRA é a de que em caso de dúvida o comandante da aeronave deve alternar para o aeroporto de São Paulo/Guarulhos. Todas as operações de pouso em Congonhas são conduzidas com autobreaking em máximo e somente pelo comandante da aeronave".   Em seguida, o comandante Igor Bruno falou pela Gol Linhas Aéreas. Cobrou a necessidade "de uma melhor qualidade de informação das condições da pista, havendo a necessidade de se padronizar a terminologia a ser adotada". "Por precaução, vem utilizando o autobreaking em máximo, para todas as condições da pista, não havendo nenhuma pressão sobre os pilotos para pouso em Congonhas, sendo que, em caso de desconforto ou dúvidas, devem prosseguir para o aeroporto de alternativa", diz a ata.   Três representantes da TAM, Marcos Castanheiros, comandante Will Fulvio Nunes e Osvaldair da Silva, registraram ter editado um alerta distribuído a cada piloto detalhando operações em pista molhada, "que são realizadas somente pelo comandante da aeronave" e também cobraram "fornecimento das corretas condições da pista, para o planejamento de cada vôo".   O superintendente do aeroporto de Congonhas, Willer Larry Furtado, segundo a ata, "reportou que vivenciou uma situação de preocupação, quando, sob condições de chuva torrencial muito forte, a operação de pousos e decolagens da pista principal de Congonhas era contínua". Furtado comentou que já estava concluída a licitação para a reforma da pista principal e que havia problemas na licitação da reforma da pista principal. A pista principal foi reformada entre maio e junho deste ano e, em julho, já estava reaberta.   Ao fim da reunião, ficou decidido que a Superintendência de Infra-Estrutura Aeroportuária iria propor ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), da Aeronáutica, que fosse autorizada a suspensão temporária das operações de pouso e decolagem na pista principal, "visando medir a lâmina de água sobre a mencionada pista, mantendo-a impraticável enquanto for considerada contaminada". No dia 24 de janeiro, portaria conjunta da Anac com a Aeronáutica e a Infraero determinou que fossem interditada a pista quando houvesse mais de 3 milímetros de água em mais de 25% da pista.

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