Setor de transporte tem o 12.º sindicalista morto em dez anos

Cinco tiros de pistola PT-380 no tórax mataram, às 14h30 deste domingo, o diretor-conselheiro Paulo Gonçalves, do Sindicato das Cooperativas de Ônibus do Sistema Bairro-a-Bairro (Sincooturb), na frente da sede da entidade na Rua Barão de Jaguara, 738, Cambuci, região central de São Paulo. A polícia suspeita de crime encomendado.O setor de transportes coletivos é famoso pela violência com que são decididas as disputas de poder. Nos últimos dez anos, 12 sindicalistas da área foram assassinados, o que levou 19 integrantes de sindicatos de transportes à cadeia. Entre eles o ex-presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores Edivaldo Santiago, solto na semana passada.Segundo colegas que preferiram não se identificar, Gonçalves, considerado o maior articulador político da área de cooperativa de transportes, estava sofrendo ameaças por telefone havia algum tempo e chegou a andar com seguranças. Foi morto ao lado do cunhado e motorista, Elson de Brito, quando voltava do almoço. Pouco antes, dois homens em uma moto haviam parado na esquina vizinha ao Sincooturb.O que estava na garupa, desceu, deu a volta em dois ônibus que estavam diante do sindicato e, de frente para o sindicalista, disparou cinco vezes a pistola. "Ele era muito rápido e atirava demais. Só não me matou porque acabaram as balas", contou Brito.O sindicalista correu para dentro do sindicato, mas caiu no salão principal. Brito ainda chegou a jogar uma cadeira sobre o assassino sem conseguir atingi-lo. Gonçalves tinha uma pistola PT-380, igual à usada pelo matador, guardada em sua sala na entidade. "Se a arma estivesse comigo, ia reagir", afirmou o motorista, ainda muito abalado e com a roupa suja de sangue.Depois de atirar, o homem, que não usava capacete ou máscara, subiu na moto e fugiu em alta velocidade com o parceiro. Levado ao Pronto-Socorro Vergueiro, o sindicalista chegou morto. Marcas de sangue, cápsulas deflagradas e até um projétil intacto ao lado do ônibus ainda podiam ser vistos logo após o assassinato.Interesses contrariadosApesar das ameaças contra o diretor, os sindicalistas não quiseram dizer quem poderia ter interesse em sua morte. "Entramos na licitação do transporte mais importante da América Latina e contrariamos muitos interesses", disse um deles.Outro diretor garantiu que o sindicato não paralisaria suas atividades por conta do assassinato de Gonçalves. "Se alguém está querendo nos amedrontar ou fazer com que desistamos, perde tempo", afirmou. A frase, no entanto, é contrariada pelo medo de represálias demonstrado pelos diretores.Sogro de Gonçaves, Nílson Ferreira disse que o sindicalista raramente falava sobre ameaças. "Sempre tem muito conflito no sindicato e os diretores andam com segurança. O assassinato só pode ser coisa pedida", disse.Há algumas semanas, Gonçalves e os diretores do sindicato faziam reuniões aos domingos para decidir assuntos de interesse dos cooperados. Na deste domingo, estavam recebendo representantes das revendedoras de ônibus Sambaíba e Citymax para escolher os carros que seriam comprados pela cooperativa. Adventista, ele não trabalhava aos sábados.

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