Silêncio nas ruas? não para os líderes de partidos

Na sombra da disputa eleitoral de 2014 estão as consequências das manifestações que tomaram oPaís em junho. Os Focas foram às ruas de São Paulo perguntar a 420 jovens se os protestos podeminfluenciar de alguma forma o resultado das eleições. Dos entrevistados, 80% acham que sim.

Felipe Resk, Juliana Diógenes, Marco Antônio Carvalho e Teresa Dias,

13 Dezembro 2013 | 18h00

Entender a força e o fôlego da insatisfação jovem é o desafio para os políticos que pretendementrar na disputa eleitoral. “O sistema está visivelmente incapaz de expressar os sentimentos dapopulação”, avalia o ex­presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Embora afirme queo efeito político­eleitoral das manifestações de junho tenha se diluído, FHC acredita que o efeitocultural continue. E uma nova onda de protestos pode ser decisiva em 2014. “Se as manifestações fossem próximas às eleições, muitos governos cairiam, independentemente do partido.”

Quando os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus ganharam dimensão nacional, apopularidade da presidente Dilma Rousseff sofreu queda de 55% para 31%. Seis meses depois,Dilma não conseguiu recuperar totalmente a aprovação, que se mantém em 39% , de acordopesquisa Ibope de novembro. Entre jovens até 24 anos, o número ficou em 32%, o que faz deles afaixa etária que menos “devolveu” aprovação à presidente.

Não por acaso o ex­presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, durante o Processo de EleiçãoDireta (PED) do PT, que o desafio dos próximos dirigentes é renovar a legenda, “ fazer umdiscurso mais para a juventude”. Em termos absolutos, o governo perdeu quase metade dossimpatizantes entre os mais jovens em menos de seis meses.

Leia a seguir o que pensam três nomes de áreas distintas da política brasileira sobre participaçãopolítica jovem e as eleições que se aproximam: o ex­governador José Serra (PSDB), o senadorRandolfe Rodrigues – nome do PSOL para a disputa da Presidência da República em 2014 –, e otambém presidenciável governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Convidados ao debate, apresidente Dilma e Aécio Neves (PSDB) optaram por não participar. (FELIPE RESK, JULIANA DIÓGENES, MARCO ANTÔNIO CARVALHO E TERESA DIAS)

­ José Serra (PSDB), ex­governador de São Paulo

Qual é a opinião do senhor sobre o afastamento do jovem da política institucional?

Você não resolve política econômica nem social plebiscitariamente. Uma coisa é governar, outracoisa  é  manifestar.  Mas  como  você  vai  governar  com  a  coletividade?  Não  existe.  Deve  havercanais para o diálogo, sim. Mas decisão de governo é decisão de governo. Entre o plano da grandemobilização e o plano da política pública há uma distância imensa.

Houve um esvaziamento das discussões políticas após a reabertura democrática?

É muito difícil ter uma resposta. Há ciclos na vida da sociedade: de ação coletiva e de introversãona vida privada. A partir do  Plano Real, houve um ciclo de introversão, marcado pelo consumo,que, talvez, tenha atingido o ponto máximo na época do Lula. Isso, de um certo ângulo, é muitodespolitizador.  Agora  começou  outro  ciclo  de  participação  coletiva,  que  culminou nas manifestações. Mas, no começo dos anos 1960, pelas condições estruturais da sociedade, é lógico e os estudantes tinham mais peso. Havia uma proximidade com o poder.

As instituições políticas estão mais fechadas aos estudantes?

Não,  o Brasil  avançou  na democracia.  Acho que hoje a questão  democrática  está muito  maisentranhada  na  sociedade.  Basta  dizer  que  vivemos  15  anos  de  superinflação,  destituímos  umpresidente e nada disso abalou as instituições democráticas.

O que justificaria o sentimento antipartidarista das manifestações?

O que há mesmo  é uma insatisfação  com o poder político existente: o governo, o Congresso, o serviço público. É um estado de insatisfação enorme. E nunca houve nada parecido na história do Brasil.  Antes,  as  manifestações  eram  organizadas  por  grupos  políticos.  Organizar  um  comício antigamente  era  uma  dor  de  cabeça  infinita.  A  televisão  era  um  meio  secundário  e  nós  não tínhamos acesso ao rádio. Essas últimas foram espontâneas, ninguém convocou.

­ Randolfe Rodrigues (Psol), senador

Como o senhor percebe o grau de politização do jovem atualmente?

Essa geração não tem nenhuma das características das anteriores porque é a primeira do pós­redemocratização. Ela tem elementos de interação novos, como as redes sociais. A informação chega muito mais rápido. Erram os que apostam numa despolitização. Há, sim, outros elementos de politização, que não são os de 20 anos atrás.

A velocidade da informação tem impacto no debate em torno da política nacional?

Ajuda a mobilizar. É imprevisível. Assim como as mobilizações começam, podem se esvair. Por isso, o que aconteceu em junho pode voltar a acontecer quando menos se espera. É diferente das mobilizações das gerações anteriores, que eram resultado de um processo. Agora, não, a informação é mais rápida. Uma mobilização contra o reajuste da tarifa de transporte coletivo pode desencadear outras reivindicações pelo País.

Como o senhor avalia o posicionamento dos partidos diante das manifestações?

Nenhum partido entendeu. Se ativesse entendido, teria canalizado esforços em torno das reivindicações. Nem o governo entendeu direito. Ele tentou apenas dar uma resposta eleitoreira aos protestos.

As consequências dessa mobilizações serão sentidas em 2014?

O povo brasileiro é pródigo em quebrar dogma, em surpreender. Quem diria que esse povo seria capaz de realizar a sua maior jornada desde a redemocratização durante a Copa das Confederações? Eu não apostaria em cenários resolvidos em 2014. Não há satisfação com as candidaturas que se apresentaram. Os presidenciáveis mostram uma agenda que não dialoga com essas mobilizações. Elas pediam mais investimento em saúde, educação e mobilidade urbana. O centro dessas reivindicações não foi atendido seis meses depois e as pautas de junho foram esquecidas.

­ Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco

As manifestações de junho fizeram os partidos repensarem suas estratégias de atuação?

As  manifestações  nos  mostraram  que se  abriu  um  novo  ciclo  que  conclama  à  busca  de  novos consensos e diálogos. Nas ruas, os brasileiros mostraram vigor democrático. Sinceramente, ainda é cedo para avaliar de que forma se deram as mudanças estratégicas nas atuações dos partidos, mas é inegável que aquilo que todos vimos em junho pegou gente de surpresa. Não nos pegou, porque há muito nós do PSB já alertávamos para a necessidade de um debate mais aprofundado.

Qual é o papel da juventude no desenvolvimento dessas estratégias?

É  sempre  bom  quando  gente  jovem  se  junta  à  política  para  somar.  Meus  filhos  foram  às manifestações  de  junho.  Se  eu  não  fosse  governador,  também  iria.  É  importante  atrairmos  os jovens para a política, para reciclar nossas ideias. A juventude quer contribuir e ser ouvida.

Qual a saída para a desconfiança da população nas instituições políticas?

Esse  quadro  não  é  o  desejado  pelos  que fazem  a  política  com  pê maiúsculo.  As manifestações fizeram muita gente perceber que o cerco está se fechando. As eleições trarão surpresas, sobretudo para quem vive da velha política. A população vai acertar as contas com muita gente.

 

Faltam líderes para dar andamento às reivindicações?

Antes, as ideias eram puxadas por grandes lideranças. Hoje, não. Vivemos um tempo em que todos falam para todos – e não mais poucos falam para muitos. É uma geração digital, enquanto o Estado continua analógico.

 

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