Brooke Lavalley / AP
Brooke Lavalley / AP

Sim, vamos continuar falando das mesmas coisas. Até chegarmos à igualdade

Erradicação da violência. Equidade de oportunidades e direitos. Essas são as reais bandeiras do feminismo 

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2019 | 16h57

Caros leitores,

A abominação agora tipificada como feminicídio foi exposta na primeira Supercoluna Capitu. A segunda reflexão abordou a desigualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho, mesmo quando desempenham funções idênticas e têm capacidades iguais. Vamos continuar falando das mesmas coisas neste espaço. Sim, muito infelizmente. E apenas porque a realidade da qual tratamos está longe de mudar. 


Emeli, Ana Cláudia, Bianca, Engel. Todas assassinadas no intervalo de menos de um mês em São Paulo. É provável que não tenham sido as únicas no Estado, uma vez que as estatísticas para esse tipo de crime ainda não são confiáveis. Outras vidas e famílias foram igualmente destroçadas País afora, em grandes metrópoles e nos rincões mais desconhecidos.  

Dar um basta na violência contra a mulher é uma das bandeiras históricas do feminismo. Assim como a busca por equidade de oportunidades e de direitos. Formam a essência do movimento, denominador comum a todos os feminismos. No plural mesmo, não estranhe. Porque também há lutas específicas a serem travadas, como você pode ouvir nestes podcasts. Viver no Brasil em 2019 é uma experiência diferente dependendo da cor da sua pele, de sua orientação sexual, do fato de ter nascido biologicamente mulher  - ou não. Se é de direita, de esquerda, religiosa ou ateia. 

As feministas são muito distintas entre si. Podem ser gordinhas ou magras, ter rugas ou botox, estar com 18 ou 81 anos. Algumas gostam de saltos. Outras, de coturno. Ter pelo nas axilas não está em nenhum manual do movimento, é critério pessoal. 

Há as casadas e as solteiras, seja por enquanto ou em definitivo. Como também existem as que têm filhos e decidem parar de trabalhar para  se dedicar a eles em tempo integral. As que dão de malabaristas entre emprego e família. Nada disso é definidor de uma feminista. São meramente opções de vida.

Assim como é opção defender políticas de igualdade entre os gêneros e medidas que ajudem a combater a violência contra as mulheres sem ser feminista e mesmo sem gostar que lhe atribuam o qualificativo. Ou sendo homem, como vários que certamente você conhece e os milhões que no mundo aderiram ao movimento #HeForShe, criado pela ONU Mulheres.

Leis específicas para equiparação de salários e contra a violência podem surgir ou caminhar na Câmara Federal, a mais feminina de todos os tempos. Temos recorde de deputadas nesta legislatura: são 77, um aumento de cerca de 50%, mas o número ainda corresponde a apenas 15% das cadeiras. 

No site Capitu, decidimos conversar com todas, para entender seu perfil e suas pautas. Quarenta e oito deputadas responderam ao questionário montado pela reportagem. A pauta da igualdade salarial é consenso e apenas uma disse não ser a favor da existência de leis que combatem a violência contra as mulheres. Entre elas, 35 se posicionam pela ampliação da licença-paternidade. Pouco mais da metade se identifica como feminista. 

Boas vitórias em termos de legislação foram aprovadas nos últimos meses. Caso da definição do crime de importunação sexual, para punir  toques indesejados no corpo da mulher e abuso no transporte público, por exemplo. E da proibição do casamento de menores de 16 anos, em qualquer hipótese. Sancionada há menos de um mês, a lei é um dos inúmeros passos que precisam ser dados para tirar o Brasil de mais uma situação vergonhosa. Um dos rankings, o do Banco Mundial, mostra o Brasil em quarto lugar no número absoluto de casamentos infantis.   

Por que o adjetivo vergonhoso se aplica? Meninas que se casam antes dos 18 anos têm maior probabilidade de morrer no parto, de sofrer violência doméstica, de largar precocemente os estudos, só para citar as situações mais graves. Problemas que só reforçam o ciclo de desigualdades entre os gêneros. 

“Não acredito que ainda estamos protestando por isso”, dizem as mulheres nas imagens que ilustram essa coluna. Com variações, a frase aparece em manifestações ao redor do mundo, estampa camisetas, é usada em memes. Não acreditamos porque as batalhas atravessam gerações - e ainda não foram vencidas. Sim, vamos continuar falando das mesmas coisas. Até o momento que tivermos uma sociedade mais igualitária. Não é ameaça, é promessa. E contamos com a ajuda de todos.  

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