Símbolo da Copacabana popular, ''Duzentão'' faz 50 anos

Prédio n.º 200 da Rua Barata Ribeiro, no Rio, virou ícone da ?civilização do quarto-e-sala?

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

22 Fevereiro 2009 | 00h00

No livro Ô, Copacabana!, de 1978, o escritor João Antônio, morador e observador do bairro da zona sul carioca, comentou: "Mudaram o número do 200. Mas ele continua o velho 200 da Rua Barata Ribeiro, um dos crimes mais consideráveis da nossa construção civil. E um dos pontos mais críticos a que pode chegar a chamada civilização do quarto-e-sala". O número mudou para 194, mas o prédio continua até hoje no mesmo lugar. Construído em 1959, o Edifício Richard completou 50 anos. Tem 12 andares. São 45 apartamentos por andar nos 11 primeiros e 12 no último. Total de 507 imóveis - 300 são conjugados de 24 metros quadrados e 207 têm quarto e sala -, onde vivem 1.273 moradores. O responsável pelo "censo" é Benedito Rodrigues Silva, o Bené, síndico do prédio há 17 anos. Em 1969, o então mestrando em Antropologia Social Gilberto Velho fez pesquisas em prédios de apartamentos conjugados em Copacabana que resultaram no estudo A Utopia Urbana, de 1973. "Houve um período em que o 200 era o símbolo da degradação urbana do bairro", diz. Segundo ele, havia "cruzadas" contra pessoas acusadas de serem responsáveis pelos problemas no prédio, quase sempre prostitutas e homossexuais. "Nem sempre os diferentes conseguem coexistir bem. O clima era bastante tenso." Existem muitas histórias sobre o "Duzentão". Uma delas é a de que já houve até atropelamento de moto em um de seus compridos e estreitos corredores. "Isso é lenda", diz o síndico. "Mas tinha muita confusão mesmo." Em 1971, a peça Barata Ribeiro 200, que satirizava as ambições de um apostador de loteria, foi obrigada a mudar de nome, após processo movido por moradores. Eles temiam que a fama do prédio se espalhasse. Dois anos depois, a comédia Um Edifício Chamado 200 virou filme, dirigido por Carlos Imperial. Bené chega ao prédio às 8 horas para resolver um monte de problemas. Ele não mora mais no Richard. "Tem morador que me chamava de madrugada. Ou eu mudava ou deixava de ser síndico." Também não é apenas síndico. Vive da compra e venda de apartamentos, que valem, afirma, de R$ 70 mil a R$ 110 mil. "Quando aparece coisa boa, não deixo passar." Hoje, 70% dos imóveis são próprios. Até a década de 80, quase todos eram alugados. Esse foi o principal fator para o que ele chama de mudança do perfil de moradores. "Agora está bem família. Podem até morar essas meninas (prostitutas), mas não tem mais atendimento. O prédio é totalmente residencial", diz. Segundo ele, a multa é pesada para quem desrespeitar as regras. "Isso aqui mudou da água para o vinho." Em novembro, porém, um professor de educação física foi preso no prédio sob acusação de explorar sexualmente crianças e adolescentes. O Richard já havia frequentado as páginas policiais em maio, quando uma moradora de 68 anos, acusada de tráfico, foi presa. Segundo a polícia, a "vovó do pó" vendia cocaína no local havia dez anos. Moradora mais antiga, Maria da Glória Coelho de Souza, de 86 anos, adora o síndico. Diz que Bené "deu jeito" no prédio. Cabeleireira aposentada, Glorinha já trabalhou como "dama de companhia" no Copacabana Palace. Ela mora sozinha no 8º andar e caminha com o apoio de muletas. Usou cadeira de rodas por 9 anos e 2 meses, após uma cirurgia nos pés que deu errado, na década de 1970. Conta que sempre teve a ajuda de muitos vizinhos para fazer compras. Sobre o período considerado barra-pesada, afirma que não via nem ouvia nada. "Diziam que tinha muito travesti. Mas eu chegava tarde do trabalho e só saía aos sábados, para dançar. O Bené limpou tudo." Outros moradores contam que a situação mudou quando dois policiais do Bope foram morar no prédio. O Richard tem câmera na portaria e seguranças a partir das 22 horas. No livro, João Antônio (1937-1996) escreveu: "Se o que se passa dentro dessa tal civilização fosse boa vida, pedregulho seria pão de mel e paralelepípedos saberiam a cerejas japonesas". Glorinha conta que fez amigos e foi feliz. "Todo lugar tem coisa ruim e coisa boa", diz. "Antigamente chamavam isso aqui de p.. Mas foi naquele tempo que tive essa gente boa que me ajudou. Graças a Deus, fui feliz. Daqui, só para o cemitério."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.