NILTON FUKUDA/ESTADÃO
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Sínodo começa neste domingo a discutir Igreja e família

O acesso dos casais em 2ª união aos sacramentos e a acolhida aos homossexuais estarão entre os temas polêmicos do encontro

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2015 | 03h00

O Sínodo Ordinário dos Bispos sobre a Família, que o papa Francisco abrirá hoje com uma missa solene na Praça de São Pedro, no Vaticano, debaterá nas próximas três semanas, até o dia 25, os principais desafios, a vocação e a missão da família no mundo atual.

A base é o Instrumentum laboris (Instrumento de trabalho), redigido com base nas respostas a um questionário de 46 itens enviado a todas as dioceses católicas. O texto será discutido por mais de 400 participantes, entre os quais 38 casais. “A Igreja deve cuidar das famílias feridas, dos separados, divorciados e recasados, e levar a eles a infinita misericórdia de Deus”, adiantou o secretário-geral do Sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri. 

“A Igreja deve estar próxima de quem decidiu se separar depois de anos de sofrimentos, de quem foi abandonado, e ajudar os casais a superar o drama das traições”, disse o cardeal. A questão de gênero também estará em pauta, para definição de uma pastoral de acolhida e respeito aos homossexuais. 

Esses serão os temas de mais impacto, mas não aqueles considerados de maior importância. “Não se espere um ‘liberou geral’, uma liberação de tudo, pois a Igreja não vai mudar a doutrina”, adverte frei Antônio Moser, professor emérito de Teologia Moral e Ética do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, no Rio, que participará da reunião como assessor ou perito. “O Sínodo, que não é deliberativo, pois a última palavra é do papa, abrirá pistas para que todos tenham boa vontade e se sintam acolhidos.” O segredo do êxito, acrescenta, “será o encantamento de Francisco, que tem a pedagogia de Jesus”. 

Segunda união. O cardeal-arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, afirmou que, embora não estejam previstas mudanças doutrinais, haverá orientações para que o ensinamento da Igreja possa ser acolhido nas atuais situações e desafios da família. “O Sínodo refletirá sobre a ajuda aos casais em segunda união, para que eles continuem a participar da vida da Igreja, mesmo dos sacramentos da comunhão e da confissão”, disse o cardeal. As orientações serão dadas pelo papa na exortação apostólica pós-sinodal. D. Odilo espera que, com o passar do tempo, apareça nova luz sobre a realidade do matrimônio e a família no ensinamento cristão e na prática da vida da Igreja.

“O Sínodo vai discutir os muitos desafios que a família enfrenta como célula da sociedade e da Igreja, num leque mais amplo, do qual a questão dos divorciados recasados e a dos homossexuais é um aspecto”, disse d. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana, em Minas, e ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), um dos delegados brasileiros em Roma. O respeito à vida, com a condenação do aborto, terá destaque. “A indissolubilidade do matrimônio não estará em discussão”, advertiu. 

O bispo de Camaçari, na Bahia, d. João Carlos Petrini, da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, salienta que questões delicadas e polêmicas, como o acesso dos casais em segunda união aos sacramentos e a união de pessoas do mesmo sexo, serão examinadas dentro de um horizonte de misericórdia, com amor e compreensão. “Penso que essa é uma grande oportunidade para que a família cristã seja apresentada em sua beleza, em vez de ser apontada como um peso.”

Como já ocorreu no Sínodo Extraordinário de outubro de 2014, é provável que esses itens voltem a dividir as opiniões dos bispos. O cardeal d. Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida, no interior, e um dos três presidentes delegados do Sínodo, afirmou à véspera de embarcar para Roma que se insistirá no conceito de casamento como união entre um homem e uma mulher, o que afasta a hipótese de aprovação de casamento entre homossexuais.

 

Casal. Os brasileiros Ketty Abaroa de Rezende e Pedro Jussieu de Rezende, que participarão do Sínodo como auditores, ao lado de outros 17 casais de outros países, vão ao Vaticano dispostos a insistir na valorização da família. “É preciso esclarecer que a Igreja está aberta para facilitar os processos de declaração de nulidade do matrimônio e assim possibilitar o acesso aos sacramentos dos casais em segunda união”, disse Pedro. Pais de sete filhos e avós de quatro netos, ele e sua mulher atuam na Pastoral Familiar na Arquidiocese de Campinas, onde moram e são professores da Unicamp, nas áreas de Matemática e Computação. Como auditores, terão espaço para uma curta intervenção no plenário, na presença do papa.

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