Sistema não monitora cheias em tempo real

Atualmente, transmissão de dados do Rio Itajaí-Açu leva no mínimo 2h

Renato Machado e Agência RBS, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2008 | 00h00

O sistema de monitoramento de cheias da Bacia do Rio Itajaí é considerado obsoleto e incapaz de verificar em tempo real a elevação do nível dos rios. Durante a enchente do último fim de semana, os dados coletados nos rios levaram até seis horas para chegar aos computadores dos especialistas, atrasando as projeções para os próximos instantes e também as medidas tomadas pelo poder público. "Não serve para alerta de enchentes. O objetivo é ser uma fonte de coleta de dados hidrológicos da Ana (Agência Nacional de Águas) para pesquisas e outros fins", diz o meteorologista do Centro de Operações do Sistema de Alerta da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí-Açu (Ceops), Dirceu Luís Severo. O sistema de telemetria atual foi criado em 1998 em substituição ao de 1984, que tinha cinco estações de coleta automática de chuva e níveis em Blumenau, Apiúna, Ituporanga, Taió e Ibirama. O da década de 80, no entanto, poderia ser considerado um sistema de alerta, porque as informações eram coletadas diretamente pelos funcionários, via telefone, rádio ou outros meios. Eram transmitidas em tempo real. Atualmente, os dados das dez estações ao longo da Bacia do Itajaí são transmitidos via satélite para os especialistas da Ceops, processo que leva pelo menos duas horas. Quando todos os dados são reunidos, os especialistas conseguem trabalhar nas projeções de cheias para as horas seguintes. Há um projeto para modernizar a rede de monitoramento da Bacia do Itajaí. Segundo Severo, que vai coordenar a substituição, o processo de licitação já foi encerrado e a empresa vencedora tem até o dia 16 para instalar as 16 novas estações telemétricas. Em alguns momentos do fim de semana, os técnicos fizeram edições pluviométricas manuais. O nível do rio atingiu 4 metros, o que deu início ao estado de alerta na região. As primeiras previsões afirmavam que não havia risco de enchente. "Uma enchente leva de 24 a 30 horas para se consolidar. Nesse caso foram menos de dez horas", diz o diretor do Ceops, Mário Tachini. Além da chuva intensa, a região atingida foi determinante para a tragédia. As enchentes anteriores no Vale do Itajaí começavam com precipitações na região do Alto Vale e as águas desciam. Desde então, investiu-se em um sistema de contenção de cheias que melhorou barragens da década de 50 e construiu outras. Atualmente, existem três: José Boiteux, Taió e Ituporanga. Em 2005, índios invadiram a José Boiteux e destruíram o sistema de comportas, em protesto contra a falta de indenização pelas perdas sofridas com a construção da barragem. Ela foi reconstruída e entregue há alguns meses. No entanto, a enchente do fim de semana foi provocada por chuvas na região do Médio e Baixo Vale do Itajaí.Outros fatores contribuíram para a gravidade da tragédia. Há 25 anos, quando houve uma grande enchente em Blumenau, 15% dos 150 mil moradores viviam em partes altas. Hoje, com o dobro de habitantes, esse contingente chega a 40%, o que eleva o número de desabrigados. O desmatamento e a abertura de estradas também aumenta a incidência de quedas de barreiras e deslizamentos.

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