Luciano Nagel/Estadão
Luciano Nagel/Estadão

Skinheads são condenados a 13 anos de prisão por atacar judeus no RS

Grupo agrediu vítimas com socos, pontapés e facadas durante lembrança dos 60 anos do Holocausto, em 2005, em Porto Alegre

Luciano Nagel, especial para o Estado

19 de setembro de 2018 | 22h50

PORTO ALEGRE - Três acusados de atacar um grupo de judeus na região central de Porto Alegre, em 2005, foram condenados nesta quarta-feira, 19. Thiago Araújo da Silva e Laureano Vieira Toscani receberam pena de 13 anos de prisão em regime fechado. Já Fábio Roberto Sturm terá de cumprir 12 anos e 8 meses de detenção. O crime aconteceu em frente a um bar no bairro boêmio Cidade Baixa. Silva e Sturm poderão recorrer da decisão em liberdade.

O julgamento teve início na manhã da terça-feira, 18, no Foro Central de Porto Alegre, e durou cerca de 22 horas. A sentença foi expedida por volta das 21h30 desta quarta pela juíza Cristiane Busatto Zardo.

O crime aconteceu em 8 de maio de 2005 na movimentada Rua Lima e Silva, em frente a um bar do bairro Cidade Baixa. Na data, eram lembrados os 60 anos do Holocausto, o extermínio de milhões de judeus em campos de concentração espalhados pela Alemanha, pela Polônia e por outros países da Europa.

Na ação, as vítimas, identificadas como Rodrigo Fontella Matheus, Edson Nieves Santanna e Alan Floyd Gipsztejn, usavam quipás quando foram brutalmente agredidos com socos, pontapés e facadas por um grupo de skinheads que estava dentro do bar. Matheus foi golpeado com arma branca e levou socos e pontapés. Ele esteve internado em estado grave em uma UTI  em Porto Alegre. Santanna também foi atacado pelo grupo com golpes de facas e canivetes, mas conseguiu escapar e buscar abrigo dentro de um bar. Gipsztejn, que levou socos e pontapés, também conseguiu fugir para o interior do bar.

Julgamento

O material apreendido durante as investigações policiais foi exposto em frente ao júri. Entre os pertences estavam facas, livros, CDs e bandeiras de apologia neonazista.

"Se isto aqui não é nazismo, eu não sei mais o que dizer. Tenho até nojo de segurar isso", dizia a promotora Andrea de Almeida Machado enquanto mostrava em uma das mãos o livro Minha Luta, escrito por Adolf Hitler, aos jurados.

A obra serviu para inspirar a ideologia nazista espalhada pela Europa e vendeu mais de 21 milhões de exemplares em 1925. Atualmente, o livro é proibido em muitos países. 

O depoimento das vítimas ocorreu ainda na terça, a portas fechadas e sem presença da imprensa, do público e dos réus. Essa teria sido uma das exigências dos jovens agredidos, com o objetivo de evitar a exposição em frente aos acusados, com medo de represálias. Testemunhas do crime também relataram os fatos para os jurados na terça.

Thiago Araújo da Silva, Fábio Roberto Sturm e Laureano Vieira Toscani foram julgados por tentativa de homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe (discriminação racial), meio cruel e sem chance de defesa por parte das vítimas. O trio prestou depoimento durante toda esta terça e negou as acusações.

"O Fábio Sturm, meu cliente, mora em Passo Fundo e até ontem à noite (segunda-feira, 17) não havia sido intimado. Ele veio espontaneamente para ser julgado. Ele tem tanta convicção da inocência dele, que ele veio para ser julgado sem sequer ser intimado", afirmou a defensora pública Tatiana Kosby Boeira. "Ele sempre negou que tivesse participado das agressões. Ele estava dentro do bar junto com a namorada pagando a conta, quando aconteceu essa ação lá fora." 

Já o defensor público de Thiago Araújo da Silva, Álvaro Fernandes, afirmou ao Estado que leu o processo várias vezes e que não existem provas de que Silva "tenha contribuído com o fato". O advogado de defesa de Laureano Vieira Toscani preferiu não se manifestar durante a audiência. 

Nazismo e antissemitismo

De acordo com denúncia do Ministério Público (MP), os réus fariam parte de um grupo denominado Carecas do Brasil, que faz apologia ao nazismo e ao antissemitismo. Além dos três sentenciados, outros dez acusados aguardam julgamento previsto para ocorrer em 22 de novembro.

A demora de se fazer justiça foi uma das queixas do representante da comunidade judaica no Estado. "Como é que o sistema judiciário demora tanto tempo (13 anos) para chegar até este momento? Toda semana há manifestações nazistas e antissemitas e o discurso de ódio não tem nenhum sentido", lamentou Zalmir Chwartzmann, da Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS).

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