''Só me aproximava dos endinheirados''

Érica começou a usar droga aos 12

, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

A "gestação" para nascer a Érica sóbria durou sete anos, três tentativas de suicídio, dinheiro roubado da carteira da própria mãe e noites e noites dormidas na calçada - enquanto a cama quentinha na casa de classe média da zona norte da capital esperava vazia pela menina que, desde o encontro com a cocaína, nunca mais foi a mesma. Aos 12 anos ela foi apresentada ao pó. Virou parceiro ideal para a rebeldia anunciada pela criança que queria, a qualquer preço, ser independente. Hoje, aos 19, a jovem quer se livrar justamente da dependência do produto que tanto prometeu liberdade.Os amigos, na adolescência, ela aprendeu a escolher pelo bolso. "Me aproximava daqueles que tinham dinheiro ou podiam me oferecer droga. Nem tenho dedos para contar quantas pessoas boas eu afastei com esse critério." Nessa época, os pais já haviam cansando de falar sobre as más companhias. Em vez de brigar, decidiram que Érica não era mais filha deles. Sozinha, conta, ela podia cheirar carreiras e carreiras sem se preocupar com o estado em que voltaria para casa. Era ela, o pó e mais ninguém. A dupla só recebia a visita da depressão. O efeito da droga passava e, ao redor, nenhum colo. A imagem de coitada dava raiva. Chorava, escrevia poesias e corria para a cocaína. Para ter essa companhia, não era preciso nada além de alguns trocados. Quando faltava grana para bancar as noitadas era só, na ponta dos pés, pegar a bolsa da mãe. Olhando em retrospectiva, Érica sente tanta vergonha do que fez que até vermelha fica ao lembrar dos roubos caseiros. Nessa época, aos 16 anos, os sonhos de ser atriz, escritora e cantora já estavam perdidos em alucinações. A vida era cheirar, comer e dormir. Aos 18 anos, resumiu-se a cheirar e comer. Aos 19, a insônia chegou com tudo e até a alimentação foi cortada. Foi aí que ela ficou andando pelas ruas, já que não precisava voltar para cama, achando que ali era o seu lugar. Depois de dias ao relento, talvez por causa do frio ou, quem sabe, da solidão, Érica decidiu "nascer" para a vida de novo. Por conta própria, procurou ajuda especializada. Achou a única clínica pública de internação para adultos - inaugurada há três meses em São Bernardo do Campo pela Unifesp em parceria com o governo do Estado - e pediu abrigo. Estava acostumada a ser sozinha, mas a mãe, de surpresa, apareceu. Com um longo abraço, pediu para ocupar o lugar do pó - Érica reconhece que "ele" não deixava espaço para mais ninguém. Faz 17 dias que ela rompeu a relação com a cocaína. Faz 17 dias que Érica sente saudades da mãe (que em todo dia de visita aparece). Os 17 piercings do corpo já não existem mais. Os cabelos, que já foram azuis, rosa, brancos e verdes, estão naturais. Ela diz que quando passou pela porta da clínica nasceu de novo. Voltou a sonhar com o canto e não fica mais triste após escrever uma poesia.

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