Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

‘Só peço um trabalho, mais nada’, diz venezuelano em São Paulo

23 venezuelanos estão temporariamente abrigados na Missão Paz; alguns ainda sonham em trazer a família

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2018 | 03h00

Em silêncio, Junior Alexandro, de 25 anos, segura o celular sob o sol e mostra uma série de vídeos no celular. “Fora, fora, fora, fora!”, repetem brasileiros em um dos registros, que traz imagens supostamente feitas por participantes dos ataques a refugiados venezuelanos em Roraima. 

Ele é um dos 23 venezuelanos temporariamente abrigados na Casa do Imigrante, na Missão Paz, na região central de São Paulo. Ao Estado, eles evitam criticar a receptividade de parte dos brasileiros e dizem “já estar acostumados”. Antes de chegar a São Paulo, há pouco menos de um mês, Junior atravessou a fronteira até Pacaraima (RR). No país natal, trabalhava como “ajudante de muitas coisas”. 

No mês seguinte, a mulher de Junior repetiu o mesmo caminho e o encontrou na Praça Simón Bolívar, em Boa Vista, onde já foi montado um acampamento de imigrantes. O filho, de 6 anos, ficou na Venezuela, com os avós maternos. “Só vamos trazer quando estiver estável, com emprego”, diz.

Por três meses, o chef de cozinha Jesus Sifontes, de 45 anos, também viveu na Praça Simón Bolívar. Segundo ele, no início, havia ajuda, especialmente de igrejas, mas o apoio foi diminuindo com o passar do tempo. Comerciantes do entorno fechavam os registros para os imigrantes não retirarem água. “Lutamos muito para estar aqui.”

O objetivo de Sifontes é conseguir um emprego e, quem sabe, futuramente abrir uma venda de marmeladas. Com isso, poderia trazer a filha caçula, de 13 anos, e a mulher para o Brasil.

“Só peço um trabalho, mais nada”, diz Sifontes, que garante ter 22 anos de experiência na área. “Aqui somos nada, para aqui, estudamos para nada. Em Venezuela, teria emprego em qualquer restaurante”, garante. 

Já o assistente de odontologia Efraim Rangel, de 26 anos, deixou de exercer o ofício já na Venezuela. No país vizinho, por causa da crise, começou a trabalhar “em muitas coisas”, de padaria a supermercado. Rangel ainda tem uma irmã e uma sobrinha que estão em Boa Vista, com as quais se preocupa. 

Já Graciano Larez, de 44 anos, vendeu tudo para chegar ao Brasil e encontrar a filha em Rondônia. “Mas faltou dinheiro para chegar até lá.”

Prefeitura. Do total de 287 venezuelanos que chegaram a São Paulo desde o início do processo de interiorização, 212 estão em abrigos municipais. Dois grupos de imigrantes que foram acolhidos em 6 de abril e 4 de maio receberam documentação brasileira, CPF e Carteira de Trabalho. 

Pela Prefeitura, foram capacitados 135 imigrantes para o Programa Trabalho Novo e 75 foram contratados por empresas como McDonald’s, Burguer King, Carrefour, Sodexo, Casas Bahia, KFC, DOX, Loja Paraíba e GRSA . / COLABOROU ANA PAULA NIEDERAUER

 

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