Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

'Só resta rezar para água não estar contaminada', diz secretário

Para secretário de Lagoa Real, Willike Fernandes Moreira, é 'líquida e certa' chance de ouros poços estarem contaminados com urânio

André Borges e Dida Sampaio, O Estado de S. Paulo

22 Agosto 2015 | 03h00

CAETITÉ E LAGOA REAL (BA) - A poucos metros da propriedade onde a Indústrias Nucleares do Brasil (INB) identificou um poço contaminado por material radioativo e cancerígeno, dezenas de outras famílias têm poços do mesmo tipo, com 90 metros de profundidade. Todas elas seguem utilizando normalmente a água desses reservatórios, sem que tenha havido qualquer tipo de notificação ou alerta dado pela estatal ou pela prefeitura de Lagoa Real.

Vizinho do sítio que teve o poço bloqueado, o morador Almir Fernandez Cardoso é dono, há três anos, de uma cisterna exatamente igual àquela contaminada. A água que abastece a sua casa e a de seu sogro é usada diariamente para tomar banho, lavar roupas e louças, além de regar a plantação e tratar dos animais.

“A gente tem de usar essa água, sem ela fica muito difícil. Vamos fazer o quê? Aqui não tem outro jeito. O que a gente faz é não beber, mas usamos para todo o resto”, disse Cardoso.

O morador de Lagoa Real diz que seu poço nunca foi alvo de uma inspeção técnica. “O certo seria ver se essa água tem qualidade. Teriam de vir aqui e olhar isso, mas isso nunca aconteceu. Uns dias atrás, a prefeitura passou aqui e cadastrou o poço, dizendo que vai medir. Mas não voltou mais”, disse.

Para o secretário de Meio Ambiente de Lagoa Real, Willike Fernandes Moreira, é “líquida e certa” a chance de outros poços da região estarem contaminados por alto teor de urânio. “Na verdade, qualquer poço aqui corre o mesmo risco. A gente está em cima da mina, todo mundo sabe disso. Acontece que o município não tem condições de fiscalizar isso, não temos recursos para fazer esse trabalho”, disse.

Na prática, revelou Moreira, não há nenhum controle sobre a abertura de poços na região, seja ela feita pelos proprietários de terra ou pelos agentes do poder público. “Às vezes, as pessoas furam os poços por aí, e a gente nem fica sabendo. A própria Cerb, que furou esse poço, não sabia da contaminação. Só soube porque nós informamos, mas até agora não tomaram nenhuma atitude pra ver se isso acontece em outros lugares”, declarou.

Moreira disse que, informalmente, a INB se comprometeu a analisar a situação de outros poços na região. “O povo aqui não tem água para nada. Aí você chega e diz que vai fechar o poço dele porque a água pode estar contaminada? Rapaz, é complicado. Só resta rezar para não estar contaminada. O povo vai usar, é aquela água a que ele tem.”

Nos últimos anos, a maioria das casas da zona rural de Caetité e Lagoa Real passou a contar com o apoio de cisternas para captação e armazenamento de água da chuva, um programa do governo federal. Esses reservatórios, que têm capacidade de guardar 16 mil litros, conseguem atender boa parte da demanda nos meses de seca. Essa água, no entanto, é usada basicamente para matar a sede. O resto depende dos poços artesianos.

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