Só tapumes na área da maior tragédia

Projeto de praça no local onde bateu A320 depende de desapropriações, enquanto famílias preferem memorial

Eduardo Nunomura e Elder Ogliari, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

O local virou um enorme pátio vazio, cercado por tapumes azuis e nada que lembre ter ocorrido ali, um ano atrás, o maior acidente aéreo do País. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) prometeu construir, neste ano, uma praça em homenagem às 199 vítimas do vôo 3054 da TAM. Mas a Prefeitura ainda não desapropriou os quatro imóveis que permaneceram de pé ou o posto de gasolina que foi atingido pelo Airbus A320. E as famílias discordam sobre a praça: preferem um memorial."Uma praça não atende tudo o que nós queremos, ela limita muito", explica a chef de cozinha Lili Mello. A viúva de Andrei François de Mello está à frente da comissão da associação de parentes e visitou o Marco Zero, memorial nova-iorquino construído no lugar do World Trade Center. O que mais a impressionou foi ver como os americanos vêem o ataque terrorista como um assunto nacional. "No Brasil, a diferença é gritante, como se o acidente tivesse ocorrido só com as 199 famílias."O memorial, na visão dos familiares, deve ter um auditório, uma sala de teatro ou música ou mesmo uma biblioteca, onde as pessoas possam usufruir o espaço sem imaginar estar num local fúnebre. O arquiteto Ruy Ohtake foi procurado e topou desenhar, de graça, um croqui.Já a Praça dos Ipês Amarelos foi proposta pelo arquiteto Marcos Cartum, da Secretaria Municipal de Cultura. A praça ocuparia os 8.500 metros quadrados do terreno com um espaço verde e contemplativo, como define a secretária-adjunta da Prefeitura, Stela Goldstein. "Não há definição e estamos abertos ao diálogo", diz ela. "Criou-se um impasse, porque os familiares não compreenderam muito bem o projeto", afirma Cartum, que considera impraticável a idéia de um memorial, por estar muito próximo de Congonhas. A TAM já doou ao Município o terreno onde ficava a TAM Express, também atingido pelo avião.Lili Mello, que não pôde enterrar o marido, uma vez que ele foi uma das quatro vítimas não localizadas nos resgates, pediu pessoalmente a Kassab que uma Bandeira do Brasil fosse hasteada no local. Ele teria se comprometido a fazer isso hoje, no mesmo horário do acidente no ano passado. Até o início da noite de ontem, a Assessoria de Imprensa da Prefeitura não confirmava esse evento na agenda oficial.RIO GRANDE DO SULNo canteiro central e na área interna de uma rótula da Avenida Severo Dullius, diante do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, 199 árvores nativas plantadas há dois meses homenageiam todas as vítimas do vôo 3054. Um projeto em tramitação na Câmara Municipal denomina o local de Largo da Vida e autoriza a colocação de um monumento no terreno - o projeto será definido após concurso público a ser promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil.

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