'Só uma família agradeceu', diz militar que resgatou vítimas

Sub-comandante do Para-SAR lembra a quem sempre viveu no conforto das grandes cidades que selva não é sítio

Tânia Monteiro, do Estadão,

19 de agosto de 2007 | 12h39

Depois de passar 49 dias no trabalho de busca das vítimas do acidente com o Boeing da Gol, em 29 de setembro de 2006, o subcomandante do Esquadrão Aéreo Terrestre de Salvamento (Para-SAR), major Josué dos Santos Lubas, não se conforma com os questionamentos levantados pelos familiares sobre o desaparecimentos dos pertences dos mortos. "Aprendi que não há mérito nenhum no cumprimento do dever e, por isso, não procuramos ser reconhecidos pelo que fazemos. Não buscamos glórias, mas não queremos que a nossa unidade receba uma culpa que não merece receber", desabafou, emocionado, o major Lubas.    O desabafo dos comandantes que resgataram as vítimas da Gol  'A verdade aparecerá', diz chefe do Cenipa sobre acidente da Gol  O que sobrou do Boeing da Gol foi explodido  Imbróglio na Justiça deixa jato Legacy ao relento  Pedaço da asa, com quase 7 metros, continua perdido  Especial sobre a crise aérea    No depoimento ao Estado, o subcomandante do Para-SAR contou que a única manifestação de apoio e agradecimento ao trabalho de sua equipe foi enviada pela família de Marcelo Paixão, o último passageiro da Gol a ser identificado. "Foi a única família que disse obrigado por vocês terem tentado achá-lo". Lubas lembra que muitas pessoas, de inúmeras instituições e organizações, estiveram no local do acidente. Afirmou que "gostaria muito que (o eventual desaparecimento de objetos importantes das vítimas) fosse apurado e que ficasse esclarecido o que realmente aconteceu." Acrescenta um comentário: "Se peças resistentes do avião ficaram totalmente destruídas, imagine o que aconteceu com uma carteira ou documentos que estavam nela, além das bagagens ou celulares".   Os principais pontos da entrevista:   Qual era a missão de vocês? Nossa obrigação é retirar sobreviventes e conduzi-los a um local em segurança. Mas, devido à comoção nacional, resolvemos fazer os resgates por sermos uma tropa especializada. Juntar a bagagem não era e não é função nossa. Eu fui contra recolher esta bagagem. Como vou explicar que quem foi treinado para resgatar pessoas vivas e corpos estava ali resgatando bagagens? Até peço desculpas aos meus superiores por ter sido intransigente. Briguei contra isso. (Presente à entrevista, o brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Cenipa, comenta: "Eu devia ter te ouvido".)   Qual foi o ponto máximo da missão? O que nós tínhamos e queríamos fazer, no final, era resgatar o corpo do passageiro Marcelo Paixão, que não tínhamos achado ainda. Mas cumprimos ordens para pegar as bagagens e agora somos obrigados a ouvir e ler coisas contra a nossa unidade. Para nós, é importante esse desabafo porque tenho duas filhas, uma de 11 e outra de 17 anos, que estão me questionando. Estão vendo na televisão que nosso trabalho foi desvirtuado, o que não é verdade. E elas também estão sendo questionadas na escola. Isso é muito ruim porque foi um trabalho muito difícil, porque não é como andar na cidade, em um sítio. É na selva. Selva fechada, com todos os problemas.   Mas muitas famílias reconheceram o trabalho de vocês? Apenas uma. Ficamos lá 49 dias. Às vezes, dias e dias seguidos dentro da mata, sem comer, com diarréia, picadas de abelhas, carrapatos, praticamente sem dormir. Andava com cachorros procurando corpos que podiam ter sido levados pela correnteza. O nosso pensamento era que, se eram 154 vítimas e encontrássemos só 153 corpos, para aquela família que não recebeu o corpo do parente, o nosso trabalho não valia nada.   Quais foram os momentos mais dramáticos? Um dos nossos homens tirou o piloto de dentro da cabine do avião. Havíamos levado horas cortando a fuselagem. Para retirá-lo, um soldado teve que se abraçar ao corpo do piloto, já em decomposição porque havia se passado quatro dias do acidente. Conseguiu retirar o corpo pela janela do avião, com todos os riscos de contaminação com bactérias, apesar de estar de máscara e luva. Esse homem estava interessado em tirar algum documento, carteira, jóia, dinheiro de alguém?   Qual foi o primeiro grande problema enfrentado? Da clareira aberta para o local onde achamos a primeira vítima eram 343 metros em linha reta. Só que, na selva, não se anda em linha reta.   Quais foram os maiores riscos? O perigo da descida na clareira, com o helicóptero. A pista de pouso na fazenda, que era completamente irregular. As doenças – tivemos um homem que quase morreu com uma picada de abelha. Muita gente sofreu cortes profundos. Era uma verdadeira operação de guerra.   Trechos de carta da família de Marcelo Paixão Lopes - morto no acidente da Gol - enviada à FAB:   "Quando o primeiro componente das equipes de resgate desceu sobre os destroços do avião, carregava nos bolsos da orgulhosa farda militar orações e esperanças de milhões de brasileiros"   "Entre a primeira descida do corajoso tenente Lessa – um oficial do Para-SAR – e a última subida de um soldado anônimo, as famílias viveram a ópera da angústia tocada em notas agudas, sem bemol nem sustenido"   "Somos a testemunha ocular da jornada (...) exercida com eficiência por todos os homens que lutaram em condições adversas, longe de seus familiares. Parabéns!"

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