Sob ameaça de desapropriação, 25 mil moradores com a intenção de ficar

No entorno de Cumbica existem nove bairros cujos moradores devem ser desapropriados, quando tiver início a construção da terceira pista do Aeroporto de Guarulhos. De acordo com o último levantamento feito pela Infraero, em 2002, existem no local 5.330 residências, onde moram perto de 25 mil pessoas. Nos últimos cinco anos, a população continuou a crescer e os moradores prometem resistir à retirada, organizados no Movimento Contra a Terceira Pista. "O aumento no movimento do aeroporto pode agradar às empresas, mas é prejudicial à população da cidade, que enfrenta problemas de saúde, ambientais. E há os que moram na região há bastante tempo e não querem se desfazer dos imóveis", afirma o historiador Elton Soares de Oliveira, integrante do movimento. O aposentado Raimundo Soares da Silva, de 64 anos, mora há 11 no Jardim Portugal, onde está prevista a remoção de mais de 600 famílias. Reside em uma ribanceira de onde pode ver a pista a cerca de 200 metros de casa. Somando a mulher, os filhos e os netos, são nove pessoas em uma casa "auto-construída por eles", de 125 metros quadrados. Ele conta que paga R$ 450 de Imposto Predial, Territorial e Urbano (IPTU), desde 1990, e por isso pretende lutar por seus direitos. "Ouvi dizer que para sair daqui receberíamos apartamentos em conjunto habitacional de 42 metros quadrados. É absurdo." No Jardim Malvinas, bairro onde se calcula que serão removidas 950 residências, está parte dos empregados do aeroporto. No cálculo dos moradores, pelo menos 30% dos que estão ali trabalham em Cumbica. As ruas do bairro ainda são de terra. Apesar da infra-estrutura precária, é possível ir a pé para o trabalho em 20 minutos. Chiquinho trabalha em uma empresa de carrinhos em Cumbica desde 1991. Conseguiu emprego no aeroporto depois de se mudar para o Malvinas. Ele não quer que a terceira pista seja feita por dois motivos. "Além de perder minha casa, terei de trabalhar dobrado, porque o movimento vai aumentar bastante." Apesar de a área já ter sido declarada de utilidade pública, as negociações para a desapropriação ainda nem começaram.

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