Washington Alves/ REUTERS
Washington Alves/ REUTERS

Sob ameaça de represa, distrito de Cocais enfrenta saques

Áreas de risco, cujos moradores foram tirados e proibidos de voltar, são alvo de ladrões; polícia diz já ter suspeitos

Felipe Resk, enviado especial a Barão de Cocais

25 de maio de 2019 | 03h00

No fim de março, o topógrafo Francisco Xavier de Assis Filho, de 67 anos, tomou um susto quando atendeu o telefonema de uma amiga. “Chiquinho, viram um pessoal andando de moto com um saco nas costas lá no Socorro. Parece que roubaram sua casa.”

Chiquinho e todo o povoado do Socorro, em Barão de Cocais (MG), havia sido retirado de lá um mês antes – e impedido de voltar, sob risco de acabar soterrado pela lama de rejeitos da mina Gongo Soco. Na hora, no entanto, ele não pensou duas vezes. Pegou o carro e entrou sozinho na área de risco. Era verdade: seu sítio fora saqueado. 

Adquirido há 15 anos, o terreno de Chiquinho tem 6 hectares, uma casa de 275 metros quadrados com duas suítes, piscina e horta, além de criação de mais de uma tonelada de peixe, javaporco, galinha-d’angola, peru, pato, ganso. Segundo conta, os ladrões levaram TV, equipamento de som e ferramentas.

Aproveitando que o vilarejo estava vazio, os saqueadores também atacaram outras propriedades. A polícia não sabe se os crimes foram cometidos no mesmo dia ou em ocasiões diferentes, mas abriu inquérito para investigar a série de saques.

Povoado histórico, Socorro seria o primeiro lugar atingido em caso de rompimento – a estimativa é que a lama demore entre 5 e 7 minutos para chegar. “Meu sítio era um paraíso, mas está na bacia receptora da barragem”, diz Chiquinho. “Engraçado é que a polícia não pode entrar lá, mas ladrão pode.”

Indignado, o topógrafo chegou a gravar um vídeo mostrando o estrago na propriedade. A imagem viralizou e ele acabou sendo conduzido a prestar depoimento, mas não para falar sobre os furtos e, sim, explicar como entrou em área proibida.

Depois, um grupo com cerca de 20 moradores do Socorro se juntou para ir ao povoado, conferir a situação das suas casas. “Nesse dia não se falou em outra coisa na escola”, afirma Ana Paula Herculano, que dá aula para crianças que moravam na comunidade. “Uma aluna me mostrou um vídeo do guarda-roupa dela todo revirado.”

Neste mês, as Polícias Civil e Militar de Minas fizeram uma operação contra a série de saques. Duas pessoas que estavam com objetos furtados foram presas por crime de receptação. “A operação recuperou vários televisores, que são os objetos mais valiosos que estão sendo furtados”, diz nota da Polícia Civil. Segundo os investigadores, os suspeitos já teriam sido identificados.

Já a Vale afirma que cumpre o protocolo de segurança para a área e que os acessos têm vigilância 24 horas. “Não há registro de entrada de pessoas por esses locais”, diz em nota.

Moradora da Vila Brandão, bairro mais perto do centro, mas também em área de risco, a esteticista Gisele Ramos teve de sair de casa para um hotel, pago pela Vale, no domingo. O motivo é que a mãe dela, de 80 anos, faz tratamento de câncer e teria dificuldade para seguir a rota de fuga, se for necessário.

“Morro de medo de entrarem na minha casa e levarem tudo”, diz Gisele. Com vista para o Santuário São João Batista, a residência tem varanda, cinco quartos, piscina e uma oficina para fabricar móveis. “Por causa dessa barragem, perdi o direito de morar na minha casa. Ficou tudo abandonado. Sinceramente, eu já estou torcendo para que a barragem rompa logo. Quem aguenta essa vida? Pelo menos, quando romper, acaba o sofrimento.”

Segundo  Gisele conta, a única coisa que ela não deixou para trás - além de algumas fotos, roupas, documentos e remédios da mãe - foi a cachorrinha Luna. "É a minha filha, não posso ficar sem ela."

No Socorro, os moradores não tiveram tempo de recolher seus animais quando a sirene tocou na madrugada de 8 de fevereiro. Eles foram recolhidos pela Vale, dias depois, e levados a hoteizinhos, haras e fazendas bancados pela empresa. A maioria, entretanto, ainda não reencontrou seus donos.

No caso de Chiquinho, ele não sabe o paradeiro do labrador El Diablo e da pastora alemã Laika. "O labrador era do meu neto, Artur, tenho um carinho danado por ele", afirma.

"Meu neto nasceu com hidrocefalia e passou por uma cirurgia de vida ou morte assim que nasceu", conta. "Ele era deficiente e ia fazer 20 anos, mas foi atropelado por um motoqueiro inabilitado, atravessando a faixa de pedestre. Isso faz um ano, quatro meses e 13 dias", diz. "O cachorro foi o último presente que ele me deu."

Criador de javaporco, Marcos Pereira, de 49 anos, relata que tinha 12 animais, mas três já morreram após terem sido recolhidos pela Vale para um sítio de Barão de Cocais. "Javaporco não pode ficar preso, tem de andar. Agora, eles só ficam trancados numa baia", afirma.

Em nota, a  Vale diz que resgatou 3.407 animais da zona de autossalvamento, entre bovinos, equinos, galináceos, suínos e cães. "Do total, 573 animais já foram devolvidos para seus donos. Até o momento, foram distribuídos mais de 259 mil quilos de ração e 5.610 vacinas e medicamentos aplicados."

Em áreas secundárias, a empresa siz ter resgatado outros 283 - e 15 foram devolvidos aos donos. "Para o recolhimento, o interessado deve acionar a empresa pelo telefone de atendimento 0800 031 0831", diz a nota. A Vale também disponibiliza em seu site um book com fotos para identificação dos animais./ COLABOROU TULIO KRUSE

 

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