Rodrigo Sales
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Sob lágrimas e orações, família se despede de vítima de chacina em RR

32 mortos na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo já foram enterrados

Cyneida Correia, Especial para O Estado

09 Janeiro 2017 | 18h53

BOA VISTA - Choro, dor e orações marcaram o enterro na manhã desta segunda-feira, de Jaime da Conceição Pereira, de 45 anos, um dos 30 degolados no massacre da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc), em Roraima. Ele tinha sido preso em 2010 por traficar crack, foi solto, e preso novamente em novembro passado, juntamente com sua esposa, acusado de tráfico de drogas e formação de quadrilha.

O corpo de Pereira foi encontrado enterrado dentro da cozinha do presídio dois dias após a chacina que matou 33 detentos, considerada a terceira maior do País.

Dos 33 mortos no massacre na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo, 30 foram decapitados, alguns ainda vivos. As cenas de selvageria dentro da unidade prisional foram filmadas pelos próprios presos, que divulgaram um vídeo em grupos de WhatsApp.

As imagens mostram os criminosos armados com facas arrancando, uma a uma, a cabeça dos presos enfileirados no pátio do presídio. Eles ainda arrancam o coração e outras partes dos corpos das vítimas.

O irmão da vítima, Walace Sousa, que é servidor público estava revoltado e questionou sobre a entrada de armas nas unidades prisionais. "Como entram celulares e armas dentro do presídio? Não cuidaram da vida do meu irmão como deveriam e agora temos que enterrá-lo sem ajuda nenhuma", disse.

Pereira foi enterrado na quadra 2 do cemitério Campo da Saudade, o cemitério particular da capital Boa Vista. No cemitério público não há mais vagas e o enterro simples custa em média R$ 3 mil reais.

Os presos assassinados não foram enterrados em covas coletivas, mas estão em quadras próximas dentro do cemitério. Trinta e duas vítimas já foram enterradas e o único corpo que ainda está no IML é de Alex Souza da Silva, o Fly, que estava cumprindo pena por homicídio e tráfico de drogas. Até agora, segundo o governo, a família não reclamou o corpo de Fly.

Auxilio funeral. Outra parente de um dos mortos, que preferiu não se identificar, recebeu depois de dois dias na frente do IML, a confirmação do que o marido foi morto, depois de ficar preso na penitenciária há poucos meses. Sem conter o choro, ela disse que agora estava aguardando a liberação do corpo e que já tinha solicitado do governo a assistência para o funeral. "Nunca imaginei que isso aconteceria com ele. Foi preso com duas trouxas de droga e agora está morto, aos pedaços", disse desesperada.

O governo do Estado, por meio da Secretaria do Trabalho e Bem-Estar Social informou que possui um programa que atende a famílias em situação de vulnerabilidade social, que não têm condições financeiras de arcar com o custo do funeral.

"É importante ressaltar que desde sexta-feira, 6, o atendimento às famílias dos reeducandos está sendo feito em consonância entre a equipe da Sejuc (Secretaria da Justiça e Cidadania) e IML (Instituto Médico Legal) com a Setrabes, por meio de assistentes sociais e psicólogos. Até o momento foram solicitadas sete urnas funerárias".

 

Massacre. As 33 mortes na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo (Pamc) colocam Roraima na 3ª posição entre os maiores massacres já registrados no sistema prisional do País. A chacina na Pamc está atrás somente do massacre do Carandiru, em São Paulo, onde 111 detentos foram mortos durante rebelião, e da carnificina no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), no último dia 1º, quando integrantes da facção Família do Norte (FDN) mataram 56 presos do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Para o vice-presidente das Prerrogativas Penitenciárias de Roraima, Marco Antônio Pinheiro, as mortes na Pamc ocorreram por omissão. "Ninguém aqui tinha dúvidas de que isso iria acontecer. São bandidos, sim, mas aqui tem gente que está por causa de uma porção de maconha ou furto de celular, que convivem com estupradores, homicidas e traficantes", disse.

 

Força Nacional. No ofício encaminhado ao ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, a governadora de Roraima, Suely Campos pediu o apoio de 100 homens da Força Nacional e o envio da Força Penitenciária Integrada que atuou recentemente na retomada do controle do Sistema Prisional do Ceará.

A governadora disse que não tem como manter a integridade física dos detentos com o efetivo disponível, pois 13% dos policiais militares já estão lotados na guarda dos presídios.

Ainda segundo o pedido de Suely, o envio da Força Nacional à Roraima deve ser feito em caráter de urgência, visto que garantir a integridade física dos que estão sob a guarda do Estado é uma prioridade imediata.

O governo pediu, além da ajuda humana, recurso na ordem de R$ 9 milhões e de equipamentos para reaparelhamento dos agentes, como armas letais e não letais e munição. "Nossa gestão jamais fechou os olhos para a grave crise carcerária do nosso Estado, contudo, a solução passa pela atuação conjunta com a União", finalizou a governadora no documento.

O governo de Roraima também solicitou a transferência de mais oito detentos, identificados como líderes de facções criminosas, para presídio federal de segurança máxima. Atualmente, 18 presos de Roraima, líderes de facções criminosas, encontram-se em presídios federais de segurança máxima, submetidos ao Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

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