Sobe para 38 o número de mortos em Angra dos Reis

A Defesa Civil encontrou na manhã desta quarta-feira o corpo do menino Taílson Leonídio Fonseca, de 4 anos, e suspendeu as buscas por mais vítimas dos desabamentos provocados pelas chuvas do último domingo, em Angra dos Reis, no litoral sul fluminense. De acordo com a prefeitura local, não há mais desaparecidos.Taílson foi o 38° morto da tragédia que deixou a cidade em estado de calamidade pública desde a segunda-feira. Todo o município é considerado em situação de risco. O menino foi encontrado por bombeiros enterrado na lama, em uma rua a mais de 500 metros de sua casa, em Areal - região mais afetada, com 22 mortos.Seu irmão Igor, de 6 anos, também morreu arrastado pelas árvores, pedras e lama, que arrasaram o bairro pobre de Japuíba, onde fica Areal, na periferia de Angra. A mãe dos meninos, Maria Fonseca, foi hospitalizada e operada na barriga. Ela e o marido, Tito Fonseca, conseguiram salvar a caçula da família, Ana Clara, de 3 anos. Moradores resgataram da enxurrada os outros dois filhos do casal, Iago, 9, e Tiago, 8."Estamos muito abalados com essa desgraça. Já não esperávamos encontrar os meninos com vida. Peço a Deus que conforte o coração de meu irmão (Tito) e da minha cunhada", disse Ana Maria Fonseca, desolada. "Nunca pensamos que houvesse risco de desabamento no Areal", disse. A região, segundo a prefeitura, nunca esteve entre as áreas de risco.O temporal de dez horas destruiu 95 casas, inundou centenas, deixou 1.508 desabrigados e causou ao município um prejuízo estimado em R$ 22,1 milhões. Segundo a prefeitura, 80% das pessoas mantidas nos oito abrigos em escolas estão apenas provisoriamente desalojados, não tiveram a moradia destruída. A maioria teve a casa alagada e perdeu todos os pertences - de roupas a eletrodomésticos.Nesta quarta-feira, o prefeito, Fernando Jordão (PSB), foi a Brasília com a governadora do Rio, Benedita da Silva, para confirmar com o ministro da Integração Nacional, José Luciano Barbosa da Silva, o auxílio federal. A verba, que será cedida por Medida Provisória até o fim desta semana, vai destinar-se a construir casas populares, estabilizar encostas e recuperar rodovias.Duas pessoas continuam em estado grave, internadas na Santa Casa de Angra dos Reis. A cidade enfrenta agora o problema da falta de abastecimento de luz e água e o medo de surtos de doenças como a leptospirose, hepatite A, tétano, por causa do contato de milhares de pessoas com lama e água da enchente, misturada a esgoto.A leptospirose, causada pela urina de rato, é a mais temida. A Secretaria Municipal de Saúde está lançando uma campanha de alerta à população para que fique atenta aos primeiros sintomas da doença - febre e dor no corpo, que normalmente surgem depois de quatro dias - e procure imediatamente um posto de saúde.Na madrugada desta quarta, quatro casas foram destruídas quando estourou uma barragem de água da chuva formada entre pedras no alto de um morro no Areal. Consideradas em perigo iminente, por estarem na rota do curso da água, dez residências em redor haviam sido abandonadas na véspera por determinação da Defesa Civil, o que evitou novo acidente. Um horto e uma pequena fábrica também ficaram muito danificados com o impacto das águas.As 38 mortes registradas em Angra disseminaram na cidade uma indústria de boatos. Como quase todos no município conheciam as muitas vítimas dos desabamentos, as histórias de falsas mortes se espalhavam velozmente. De acordo com conhecidos, o policial civil Jacinto Bastos, que perdeu a mulher, Josimeire, e a enteada Kelly, além de 12 parentes da mulher, teria tentado se suicidar na segunda-feira e, depois de não o conseguir, teria morrido de enfarte no dia seguinte.Na realidade, ele foi para o Rio de Janeiro na terça-feira, levado por um irmão. Carolina, de 13 anos, filha do engenheiro da Eletronuclear morto Luiz Antonio Holandino Antunes, também teria morrido. Até o fim da tarde desta quarta, Carolina, embora em estado grave, continuava viva e à espera de uma transferência para o Rio.A mãe, Débora, e o irmão, Rodrigo, morreram quando a piscina de um vizinho desabou sobre a casa da família, em Ribeira. "Este daqui já morreu e ressuscitou mais de dez vezes", apontou a costureira Celina Celina Cananéia para o genro, Valquir Ferreira. "Recebi pêsames e mais pêsames por causa dele. Fiquei até nervosa de tanto que todo mundo falava. Também disseram que a minha filha tinha sido arrastada pela água", disse ela, que perdeu suas máquinas industriais de costura na enxurrada.

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