Sobel abre e fecha livro com caso dos furtos

Em autobiografia, rabino fala da prisão em Miami, no ano passado

José Maria Mayrink, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2008 | 00h00

Dos 30 capítulos de Um Homem Um Rabino (Ediouro Publicações, 320 páginas, R$ 39,90), 4 relembram o episódio em que o autor, Henry Sobel, se envolveu há um ano, em Miami, onde passou uma noite na cadeia por ter furtado quatro gravatas em duas lojas de Palm Beach. Cerca de 150 pessoas, entre empresários e senhoras da comunidade judaica, foram à noite de autógrafos, ontem, no segundo andar da Livraria Cultura, na Avenida Paulista. Para a surpresa geral, Sobel não apareceu por problemas de saúde. Em sua casa, informaram que ele precisou ser levado a um hospital (não foi informado qual). Um Homem Um Rabino é a versão de que Sobel estava sob efeito de comprimidos e não sabia o que fazia. Ele narra o flagrante: "Lembro-me de que entrei numa loja, saí... Entrei na segunda loja e não me recordo de mais nada. Apenas de uma policial, de bicicleta, que me abordou". Não era a primeira vez. "Em 1985, na mesma cidade da Flórida, no mesmo centro comercial, apanhei uma gravata e saí sem pagar. Fui barrado por um segurança na porta, paguei a gravata e não houve conseqüências - nem fotografias." Em março de 2007 foi diferente. A imagem de um rabino assustado, cabelos desalinhados, sem óculos e sem quipá, estarreceu os amigos e revoltou a diretoria da Congregação Israelita Paulista (CIP), onde Sobel trabalhava. "Quem sou eu? O rabino, conhecido em todo o Brasil pelo forte sotaque norte-americano, a quipá vinho e a dedicação à defesa dos direitos humanos? Um religioso que se dedicou a aproximar a comunidade judaica dos brasileiros de todos os credos? Ou um malandro que rouba gravatas?" A autobiografia, com tiragem de 30 mil exemplares, responde a essas indagações. "Este livro não é apenas um mea-culpa onde cabível, mas é uma expiação pública", afirma Fernando Henrique Cardoso no prefácio. Se "Sobel sabe que errou algumas vezes", como diz o ex-presidente, caberá aos leitores fazer o julgamento, espera o rabino. A CIP já fez. "Não adianta dourar a pílula. Minha saída da Congregação em que trabalhei por 37 anos é fruto direto do caso de Palm Beach", reconhece Sobel. O caso das gravatas, que abre e encerra o livro, é marcante, mas isolado. Sobel descreve sua trajetória religiosa e política, que se mistura com os principais acontecimentos do Brasil desde que desembarcou em São Paulo, em 1970. Filho de judeus de tradicional ortodoxia, optou pela linha liberal. O perfil de homem aberto ao diálogo e chegado à mídia lhe rendeu simpatias, mas também resistência na comunidade. O rabino recorda sua participação nos protestos contra o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, registra sua resistência às arbitrariedades da ditadura e reafirma a defesa dos direitos humanos. Destaca boas relações com a Igreja Católica. Ao falar do episódio Herzog, uma falha: a omissão do nome de José Mindlin, então secretário estadual de Cultura, que denunciou ao presidente Ernesto Geisel que ele havia sido torturado e morto na prisão. Ao falar dos casamentos que presidiu, revela uma indiscrição de Marta Suplicy na cerimônia em que abençoou, em 2003, a união da ministra com Luís Favre: "A noiva se aproximou e me disse baixinho, em tom de cumplicidade: Rabino, encontrei o judeu de minha vida...". Sobel é compreensivo diante de situações concretas: não gostou quando a filha única, Alisha, lhe contou que o namorado não é judeu, mas nunca pressionou para que ela rompesse o namoro. D

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