Sobre a cegueira urbana

São quatro os modos de ver que nos dizem que São Paulo não é uma única cidade. São quatro cidades que vão se desenhando na cegueira crescente gerada pelos modos de nela estar e transitar. Sou tentado a cutucar os sociólogos e dizer que são as novas classes sociais da metrópole, porque são quatro modos de ver que expressam modos de nela viver. A cidade mais densa é a dos pedestres, dos que podem vê-la no nível do chão. É a cidade que pode ser vista em suas delicadas minúcias, seus jardins, suas obras de arte, sua arquitetura, seus seres humanos, suas riquezas e, também, suas misérias. Nessas contradições nasce a opinião política sobre a cidade e a consciência traduzida em voto. Só os pedestres podem ver em detalhes a contradição dos moradores de rua na cidade opulenta porque podem ver o que na cidade é propriamente monumental. Só posso ver a miséria naquilo que a nega. O verdadeiro cidadão é o da consciência social de quem transita em meio aos contrastes da metrópole e não quem deles foge. É nessa perspectiva que o pedestre pode ver belezas como o enigmático painel de Clóvis Graciano, na fachada de um prédio da Avenida Paulista, 648, uma obra de arte disputando espaço com avisos e anúncios, o belo nos ensinando a repulsa pela feiúra interesseira. As outras categorias sociais são as dos que não vão por si mesmos a lugar algum, os que são levados. Os que trafegam de ônibus vêem o mero resíduo da cidade dos pedestres. Com os ônibus, os trens e o metrô (e no passado com os bondes), surgiu a visão superficial da cidade, a do borrão apressado. Passageiros são os que já estão no começo da cegueira urbana, os que enxergam sem tempo para ver e pensar sobre o que vêem. Nos trens, só podem ver as ruínas da São Paulo industrial. Mesmo aí há exceções que fazem pensar. É o caso da estação Domingos de Morais, na antiga Sorocabana, altura da Lapa, uma estação bonita, ajardinada, no estilo das velhas estações do interior. O passageiro tem a impressão de que chegou a antigamente, quando a cidade era harmônica e sinfônica.Aumenta o grau de cegueira dos que transitam por São Paulo quando se trata dos que o fazem de automóvel. Que se tornam pedestres quando o carro quebra. São os que conhecem as ruas de sua passagem, mas não conhecem a cidade. São os que vêem apenas avisos e sinais de trânsito. São os cronistas dos congestionamentos, assunto do jantar e temor do café da manhã. São os prisioneiros do purgatório de quatro rodas. Enfim, há os que trafegam de helicóptero, cada vez mais numerosos, fazendo barulho sobre a paciência alheia. São os que estão sobre a cidade, mas de fato não estão nela. Para eles a cidade existe apenas como obstáculo. São os transeuntes do vazio, os que apenas saltam por cima dela. Quanta coisa deixam de ver e viver!

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