Sobrevivente desistiu de se atirar do 3º andar

Wanderley Ferreira da Silva está vivo porque teve sorte. Escolheu o caminho certo quando tentava sair do prédio da TAM em chamas. E está vivo porque teve fé. Encurralado na janela, conteve o impulso de se jogar do 3º andar. Foi salvo pelos bombeiros. O consultor em Tecnologia da Informação, de 33 anos, nem deveria estar trabalhando às 18h50, quando o A320 da TAM não conseguiu pousar na pista principal de Congonhas, bateu e explodiu, matando pelo menos 188 pessoas. Normalmente, ele trabalhava das 8 às 17h30, mas ficou até mais tarde por causa de uma reunião. A maioria dos colegas tinha ido embora. Ele trabalhava em seu lap top e conversava com um amigo, Paulo Zani, quando ouviu um estrondo. Havia outras pessoas na sala. Imediatamente, as luzes oscilaram, até se apagarem completamente. Em pouco tempo, a fumaça se espalhou. ''''Ninguém conseguia enxergar nada'''', conta. ''''Eu só conseguia ouvir muitos gritos e pedidos de socorro.'''' Silva pegou a mão do amigo e, juntos, tentaram sair pelo elevador. Não dava. Tentou a escada. Estava obstruída pelos destroços. ''''Todo mundo estava em pânico.'''' A fumaça estava cada vez mais densa e as pessoas estavam em pânico. Em meio à confusão, ele se lembrou de uma sala que poderia ter uma janela. Tateando na escuridão e em meio à fumaça, Silva e Zani conseguiram abrir a porta dessa sala e ver a janela. Se a janela poderia ser aberta com as mãos, ele não se lembra. ''''Peguei uma cadeira e quebrei o vidro.'''' Vanderlei se recorda da sensação sentida com a lufada de ar puro. ''''Me debrucei para respirar melhor.'''' Imediatamente, lembrou-se dos colegas de trabalho, que, desesperados, não conseguiam encontrar uma saída. ''''Tentei chamar por eles, mas ninguém prestava atenção no que eu dizia.'''' A sensação de voltar a respirar foi logo abandonada. A fumaça aumentava. E, embora ainda não tivesse visto fogo, ele temia morrer queimado. Fraquejou. ''''Eu quis pular, mas o Paulo não deixou.'''' O medo aumentava porque as equipes do Corpo de Bombeiros não conseguiam tirá-lo de lá. ''''Os bombeiros tentavam nos acalmar e nos passavam instruções, falaram para respirar com a camisa cobrindo o nariz. Mas não conseguiam no alcançar.'''' Por um problema com a escada do caminhão, a operação teve de ser suspensa. Silva chegou a pensar que os bombeiros tinham-no abandonado. ''''Eu sentia muita angústia. Em vários momentos, senti que não fosse dar. Mas embaixo as pessoas nos pediam calma e pediam para não pular.'''' Em todo o momento, o consultor tinha consciência de que um avião havia explodido. ''''Por conta da explosão, não tinha como não saber.'''' Lá embaixo, os bombeiros continuavam trabalho de resgate. De cima, ele observava tudo. ''''Eu rezava e pensava que só queria estar ali, respirando um pouco de ar.'''' Até que finalmente os bombeiros conseguiram uma escada que pudesse alcançá-los. Silva foi o primeiro a ser retirado. O amigo foi em seguida. ''''Estava sem ar, bastante fraco. Fui logo posto na maca, mas queria agradecer aos bombeiros.'''' Ontem, ao relatar à imprensa sua fuga, ele lembrava com tristeza dos amigos que ele nem sabe se estão vivos: ''''O que fica na cabeça é o gritos das pessoas, agoniadas''''. Fora isso, ele sofreu apenas escoriações, provocadas durante a fuga no escuro, algumas queimaduras nos braços e comprometimento das vias respiratórias. Passou 24 horas na UTI do Hospital São Luiz, no Morumbi, e fica em observação até o final da semana. ''''Apenas solto secreção com sujeira, mas está tudo bem.'''' Depois de sobreviver à tragédia, ele diz acreditar que ainda tem uma missão não cumprida. ''''Eu tenho uma mulher e três filhas para cuidar.'''' Diz também ter adquirido nova perspectiva de vida e que não pensa nos culpados pelo acidente. ''''Não tenho revolta porque não sei o que causou o acidente. Estou vivo porque corri para o lado certo e porque Deus me iluminou.'''' A TAM informou ontem que dez funcionários, de 19 socorridos no prédio atingido pelo avião, tiveram alta entre anteontem e ontem. Outros sete continuam internados e oito estão desaparecidos.

Humberto Maia Junior, O Estadao de S.Paulo

21 Julho 2007 | 00h00

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