Sociedade civil revitaliza praças esquecidas pelo governo

Projeto vai consumir R$ 2,5 milhões para a revitaliza~ção de áreas na periferia

Ana Carolina Moreno, do Jornal da Tarde

12 Julho 2007 | 18h10

A praça ainda não existe oficialmente no guia de ruas, mas foi batizada de Santa Clara pelos moradores da Vila Iolanda I, em Lajeado, na zona leste de São Paulo. O terreno é irregular, mas espaçoso. Na parte mais nobre, um campo de futebol, de terra batida, permanecia vazio na tarde fria desta quinta-feira, 12. O terreno serve para a realização de campeonatos de várzea, explicam os moradores que organizam os torneios e também foram responsáveis pela criação do campo em 2004. Antes, o que havia lá era uma montanha de entulhos - e ratazanas - abandonada pela Prefeitura. Asfalto e iluminação, só conseguiram na última eleição. Mas o burburinho no bairro vem mudando. As reclamações de promessas de políticos não cumpridas foram substituídas pelas notícias sobre a inclusão da Santa Clara entre as três praças do Projeto Praças da Paz SulAmérica, uma parceria entre a ONG Instituto Sou da Paz e a seguradora SulAmérica para revitalizar espaços públicos. Com duração de quatro anos, a iniciativa tem por objetivo, além de oferecer a moradores da periferia um espaço de esporte, lazer e cultura, incluir a participação da comunidade durante todo o processo. Segundo o diretor executivo da ONG, Denis Mizne, a estratégia é mais eficaz do que uma simples reforma porque "muda o conceito de espaço público, de uma terra de ninguém para um espaço de todos". Uma praça no Jardim Elisa Maria, na Brasilândia (zona norte), e outra na Chácara Sonho Azul, no Jardim Ângela (zona sul), também passarão pelo mesmo processo. Em comum, as três regiões compartilham de um alto índice de vulnerabilidade e grandes desafios para oferecer qualidade de vida, lazer e oportunidades, principalmente para os jovens, explica Mizne. Também são áreas onde o Instituto Sou da Paz já tem outros projetos. A combinação de iniciativas cria uma teia social e "garante resultados mais rápidos e com amplitude". No total, serão gastos R$ 2,5 milhões até 2010, quando terminam as fases de revitalização física e de formação e ocupação pacífica dos espaços . Aí, de acordo com Mizne, tem início a fase de sustentabilidade. Mobilizados em favor do bem comum - o espaço público - e cientes de seus direitos, os moradores têm, após o fim do projeto, novas ferramentas para lidar com o poder público e promover a manutenção da praça. Caso de sucesso Foi o que aconteceu depois do Projeto Pólos da Paz, a primeira iniciativa da ONG para revitalizar praças na periferia de São Paulo. Márcio Bhering, de 28 anos, mora há 14 em frente à Praça João Pais Malio, no Campo Limpo, Zona Sul. Cresceu jogando bola na pequena quadra em meio ao mato descuidado da área, urbanizada na gestão municipal de Luiza Erundida e, depois, esquecida pela Prefeitura. Entre 2003 e 2006, a quadra aumentou, ganhou alambrado, cestas de basquete e uma arquibancada. Um espaço coberto para eventos, um palco, um parquinho de brinquedos e mesas também foram instalados. Postes de luz bem cuidados proporcionam mais horas de lazer para uma juventude acostumada a passar o tempo livre em frente à televisão. "Mudou completamente a dinâmica", conta Bhering, que hoje dá treino de futebol para 60 meninos, de 8 a 16 anos, três vezes por semana na praça. "Agora todo mundo fala com todo mundo a toda hora, as crianças brincam, os moleques jogam bola, os velhos conversam, jogam dominó."

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