''''Sociedade economiza ao tratar agressores''''

Experts defendem assistência e até castração química para preso que, por distúrbio mental, comete crimes como estupro

O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 00h00

Reunidos de sexta-feira até ontem em São Paulo no 1º Congresso Brasileiro sobre Ofensas Sexuais, realizado na Universidade de São Paulo (USP), o psiquiatra José Raimundo Lippi, presidente do evento, e o convidado Douglas Boer, especialista no tratamento de ofensores sexuais da Universidade de Waikato, na Nova Zelândia, defenderam a adoção de tratamento para presos que praticaram crimes sexuais - cerca de 4% do total da massa carcerária em São Paulo.Os tratamentos não estão disponíveis aos prisioneiros na maioria dos países?Douglas Boer - Não, não estão. Isso é relativamente novo em todo o mundo, tem de começar em algum lugar. E isso começa quando as pessoas vêem que temos prisões cheias de agressores sexuais e que os devolvemos à sociedade sem tratá-los. Construir novas prisões não faz sentido.José Raimundo Lippi - Fica muito mais caro ao País um prisioneiro do que um cidadão fazendo tratamento. Se tomasse remédio e fosse obrigado a voltar toda semana ao tratamento psicológico, seria mais barato e humano. O governo tem de pensar nos direitos do cidadão aprisionado e na saúde dele. E também na saúde financeira do País: é mais barato tratar as pessoas, tanto do ponto de vista financeiro como humanístico.Um psiquiatra brasileiro disse fazer a castração química (injeção de hormônios femininos) no tratamento de pedófilos e foi condenado principalmente por setores do Direito. O que vocês acham?Boer - Esse tratamento é aprovado nos Estados Unidos e no Canadá e serve apenas a um pequeno percentual de doentes - aqueles que acham que têm dificuldades para controlar o desejo de agredir. Francamente, o que ele estava fazendo era muito similar ao que é feito em outros países civilizados para reduzir os riscos para alguns homens. Não acho antiético.Lippi - Como o Brasil não tem história de tratamento nessa área, foi grande essa discussão, que envolve os direitos humanos. Não é só o tratamento hormonal, mas também o psicológico, cognitivo-comportamental.Qual é o impacto do tratamento a ofensores sexuais nos locais onde é feito?Boer: O que sabemos é que os grupos de psicoterapia cognitiva-comportamental reduzem as ofensas praticadas nos homens tratados em cerca de 50% em comparação com os não tratados. A sociedade economiza dinheiro e novas vítimas ao tratar agressores. Mas a percepção do público é: "Por que deveríamos tratar agressores?" É como o alcoolismo: ele tem de aprender como manejar o risco. Por exemplo, se tiver uma namorada com filhos, tem de avisá-la sobre o histórico. Mas, se você não os trata, eles agridem com maior freqüência, vão para a cadeia mais vezes e isso custa dinheiro a você e coloca seus filhos em risco.

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