DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Sol Nascente: a grilagem de terra em uma das maiores favelas da América Latina

Em comunidade do Distrito Federal, facção vai além do tráfico e comercializa terras ilegalmente; negócio já atrai policiais a pastores de igrejas

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

BRASÍLIA - Na esteira do crime organizado que promove massacres em presídios e duela para assumir o comando do tráfico em todo o País, uma nova facção criminosa tenta controlar uma das maiores favelas da América Latina, a comunidade Sol Nascente, a apenas 32 quilômetros da Praça dos Três Poderes, onde se tomam todas as decisões da República. As drogas, no entanto, deixaram de ser a única especialidade dos traficantes que atuam nos arredores de Brasília. 

Neste trecho da Ceilândia onde os dados oficiais mostram que mais de 93% dos moradores vivem em terrenos irregulares, sem asfalto e sem coleta de lixo adequada, membros da facção Comando Sol Nascente (CSN) passaram a diversificar sua atuação para além dos papelotes de cocaína. Entrou no radar do crime o comércio ilegal de terras, um negócio lucrativo e que já chegou a atrair a atuação de policiais a pastores de igrejas. 

Hoje, a população de mais de 95 mil habitantes do Sol Nascente, já vulnerável pela falta de renda e infraestrutura mínima em saúde, educação, transporte e saneamento, se vê amedrontada pelas ameaças de criminosos e pela derrubada de casas sem aviso prévio pelo poder público. 

O lucro fácil e rápido obtido com a oferta de lotes irregulares a preços de R$ 20 mil a R$ 30 mil instigou a grilagem. As penas brandas são outro atrativo das invasões. Se a prisão por tráfico leva a pelo menos cinco anos de cadeia em regime fechado, o chamado "esbulho possessório" não costuma render mais do que um processo criminal e alguma cobrança de indenização.

A incursão de traficantes na grilagem foi identificada pela Polícia Civil, depois de dezenas de investigações e prisões feitas na região. Uma liderança do CSN já está detida no Complexo Penitenciário da Papuda, mas os crimes prosseguem. As principais vítimas dos grileiros são mulheres que vivem sozinhas e idosos, considerados mais frágeis. São vários os casos de expulsão de moradores de suas casas, para que essas sejam novamente vendidas. "Além do retorno financeiro alto, a verdade é que praticamente ninguém vai preso por grilagem de terra. Por isso, os traficantes passaram a atuar também nessa área", diz Fernando Fernandes, delegado da Polícia Civil que atua na favela.

Nas terras planas do Sol Nascente, cuja população contabilizada teria superado, em 2013, a da Favela da Rocinha, no Rio de Janeiro (onde viviam 69 mil pessoas, segundo dados mais recentes do IBGE, de 2010), ainda é grande o espaço para crescer. 

Nos últimos dois anos, a busca por um pedaço de terra também passou a ser assunto recorrente em alguns templos improvisados nas ruas enlameadas da comunidade. Um esquema que envolve igrejas evangélicas de fachada é investigado pelos policiais e já chegou a alguns charlatões. 

Pelo menos dez locais de cultos usados para negociar uma área de mais de 100 mil metros quadrados foram erguidos lado a lado por falsos pastores, que persuadiam fiéis a comprar os terrenos "em nome do Senhor". O local era conhecido como "Nova Jerusalém". Fernando Fernandes diz que Maria das Dores Ferreira dos Santos era pastora e que chegou a ser presa pela Polícia Civil, flagrada aterrando lotes e oferecendo a "terra prometida" a devotos. Foi solta tempos depois. A reportagem tentou contato no celular de Maria e deixou recados na caixa postal, mas não obteve retorno.

Com ou sem promessas de lotes, nas ruas planas da favela o mercado da fé continua a ser disputado palmo a palmo. Em um trecho esburacado de apenas 800 metros da favela, a reportagem contou 20 fachadas dos templos religiosos.

"Os fiéis suam para ter seu dinheirinho numa caderneta de poupança ao longo dos anos e, depois, acabam sendo vítimas de estelionato pelos próprios ditos pastores", diz o delegado Fernando Fernandes. "É claro que há pastores e igrejas sérias nessa região, mas o que temos visto aqui, nessas situações, não é obra de Deus."

O telefone do delegado, que costuma receber denúncias de moradores que foram vítimas de golpe, passou a receber também ligações de políticos ligados à bancada evangélica, preocupados com os desdobramentos das investigações. Na Polícia Civil, diz Fernandes, há pelo menos mais dez investigações em curso sobre a atuação de pretensos pastores em vendas de terrenos.

"Aqui, não tratamos de ações de movimentos sociais ou projetos do Incra. O que existe realmente é uma organização criminosa que tenta se beneficiar da grilagem, chegando até a expulsar pessoas de casas para depois revendê-las", afirma o delegado. 

A ocupação de terras no Sol Nascente ganhou força no início dos anos 1990, quando a região era ocupada basicamente por chácaras e nascentes de água. O próprio nome da favela, segundo a versão mais corrente sobre seu batismo, teria se inspirado em uma dessas chácaras, uma propriedade que pertencia a uma família japonesa. O Sol Nascente seria uma referência ao Japão, a "terra onde nasce o sol". 

Os japoneses se foram, mas a favela do Sol Nascente, desconhecida da maior parte do País, continua a experimentar um processo acelerado de crescimento que avança sobre seus 940 hectares, uma área equivalente a 940 campos de futebol. 

Em 2008, a comunidade ganhou ares oficiais e até uma sigla própria. Ao estilo brasiliense, passou a ser o SHSN, ou Setor Habitacional Sol Nascente. Apesar da constante chegada de imigrantes para a comunidade, a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) diz que 53% da população do Sol Nascente é do próprio DF. Entre os imigrantes, a maior parte saiu do Maranhão e do Piauí. 

No Sol Nascente, onde 48% da população mora há pelo menos 15 anos, apenas 2,95% da população têm ensino superior completo e 45% não acessam a internet. Mais de 6 mil crianças menores de 6 anos estão fora da escola.

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Milícias disputam áreas na comunidade Sol Nascente

Na favela, entra para o crime das terras até mesmo quem deveria proteger a população

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

No dia 30 de abril de 2015, Maria de Jesus Santos, de 38 anos, estava sentada na porta de sua casa com a filha de três anos, quando um homem aproximou-se, sacou a arma e baleou mãe e criança. Maria morreu na hora. Três tiros na cabeça. A criança, atingida no peito, chegou a ser socorrida, mas não resistiu. 

A barbárie que chocou a vizinhança era parte de um plano já traçado meses antes: acabar com a família para tomar seus lotes em uma das regiões mais valorizadas do Sol Nascente. O marido de Maria, dono de muitos terrenos, havia sido assassinado no começo de 2015, a mando de Sérgio Rolim, um grileiro conhecido como "Sérgio da Hilux", considerado pela polícia um "bandido-ostentação", por circular pelas vielas da favela em uma picape de luxo. Nos planos de Rolim, faltava matar mãe e filha. 

Sérgio da Hilux conhecia bem a família que mandou executar. Havia, inclusive, sido convidado por Maria para o aniversário de 4 anos da menina. 

Os assassinos foram presos logo depois do crime. Sérgio da Hilux ainda conseguiu fugir, mas acabou detido dois meses depois, na praia de Morro Branco, a 90 quilômetros de Fortaleza (CE). Atualmente, cumpre prisão preventiva na Papuda, enquanto aguarda julgamento pelos crimes de grilagem de terra e homicídio qualificado. 

As gangues que aterrorizam os moradores da favela não se inibem em pichar nos muros o artigo 121 do código penal, que trata de homicídios. A citação costuma acompanhar a sigla do Comando do Sol Nascente (CSN), uma facção que, para a polícia, é o embrião de um Comando Vermelho na região. O "Comando Favela" é outro que também deixa seus recados nas paredes das casas.

O líder do CSN, conhecido como "Fernandão", faz hoje companhia a Sérgio da Hilux nas celas da Papuda, depois de ser capturado pela operação "O Comando é Nosso", da Polícia Civil. Seus filhos, Moisés e Tiago, também foram presos e indiciados por associação criminosa, homicídio, tráfico de drogas e extorsão. São prisões preventivas, sem data para julgamento.

No Sol Nascente, entra para o crime das terras até mesmo quem deveria proteger a população. No dia 4 de março, a auxiliar de serviços gerais Gláucia Sotero da Silva, 42 anos, fez um boletim de ocorrência contra o policial militar Amarildo da Cruz Alves, por tentar tomar sua casa sob ameaças de morte. No documento, "também falou que Amarildo iria colocar drogas em sua casa para que fosse presa".

Mãe de três filhos e moradora do Sol Nascente há seis anos, Gláucia contou que o policial chegou a aparecer em sua casa fardado e que já havia expulsado outros moradores do mesmo lugar. Na Justiça, ela conseguiu uma medida protetiva, que obriga Amarildo a não se aproximar de sua família. 

Em novembro, ao chegar em casa depois do trabalho, Gláucia encontrou portas e janelas arrombadas. "Roubaram tudo, quebraram as coisas. Eu vou embora daqui. Aqui não dá pra ficar mais não", diz.

As acusações contra Amarildo se espalham por outros cantos da favela. A moradora Rosângela Felícia de Oliveira, 33 anos, também relata episódios de ameaças feitas pelo policial. Ela, que já foi intimada a abandonar sua casa, hoje está desempregada e depende de bicos para viver e sustentar a filha de 15 anos. 

Amarildo chegou a ser preso por conta das acusações. Em abril, apresentou um pedido de revogação de prisão preventiva decretada pela prática dos delitos como esbulho possessório, parcelamento irregular de solo, receptação e ameaça. A juíza Edioni da Costa Lima, da 1ª Vara Criminal do Ceilândia rejeitou o pleito, sob argumento de que "a manutenção da prisão do requerente se faz necessária para garantir a ordem pública, já que a sua soltura implica pôr em risco a integridade física das pessoas por ele ameaça à mão armada". Amarildo não foi encontrado pela reportagem para comentar o assunto. A Polícia Militar não se manifestou sobre as acusações contra o agente. 

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública e Paz Social do DF informou que, na Delegacia do Meio Ambiente (Dema) da Polícia Civil existem, atualmente, 68 inquéritos em tramitação para apurar crimes de parcelamento irregular do solo e dano ambiental na região do Sol Nascente. "No primeiro semestre foi realizada uma grande operação em conjunto com a Subchefia da Ordem Pública e Social (SOPS), oportunidade em que foram presos 43 indivíduos pelo crime de parcelamento irregular do solo para fins urbanos", declarou.

Apesar de todas as dificuldades, a moradora Rosângela Felícia de Oliveira diz que não vai deixar a favela. "Tenho um sonho de ter um lugar melhor para minha filha, mas por enquanto meu canto é aqui. Não vou sair", diz ela. Na luta por um trabalho, ela já conseguiu "bicos" para cuidar da recepção do Ministério do Turismo, na Esplanada, onde pouco se sabe sobre o Sol Nascente. 

 

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Na 'Chácara do Padre', sonhos no chão

Famílias têm as casas onde vivem derrubadas e tentam saída na Justiça

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

No meio do entulho, o pedreiro Silvan Silva da Cruz separa alguns tijolos inteiros, um bocado de ferro retorcido, algo que seja aproveitável para reerguer sua casa em uma área do Sol Nascente conhecida como "Chácara do Padre". No dia 5 outubro, Silvan estava em casa com a mulher e os três filhos, de 4, 5 e 6 anos de idade, quando agentes da Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) entraram nas ruas e partiram para cima das casas. 

Filho de pais maranhenses que chegaram a Brasília na década de 1980 para trabalhar na área de saúde, Silvan conta que mal teve tempo de juntar as roupas das crianças e retirar algumas coisas de casa. Desempregado, viu o lar que lhe custou R$ 12 mil ir abaixo. As crianças e a mulher Jade Ferreira de Mello foram levadas para a casa de um conhecido. Assim como outros vizinhos, que já começam a reconstruir paredes de tijolos entre os escombros, Silvan diz que voltará para o lugar. "Não temos pra onde ir. Então vamos tentar reerguer nosso lar", diz. 

Um dia depois da derrubada das casas onde viviam mais de 100 famílias, um grupo de pessoas se revoltou, tomou um ônibus de passageiros e incendiou o veículo em uma área próxima. A Polícia Militar informou que dois homens armados entraram no ônibus, obrigaram os passageiros a descer e levaram o veículo para incendiá-lo.

A fuga do aluguel é o que motiva milhares de moradores a comprar um pedaço de terra, mesmo sem saber se é legalizado. Foi o que aconteceu com Carlos (nome fictício), de 26 anos. Morador do Sol Nascente, tinha emprego fixo havia quatro anos em uma empresa de marcenaria, mas seu salário ainda não o livrara do pagamento mensal de um cômodo. Sentiu-se atraído, então, pela proposta de um grileiro: prestaria para ele alguns serviços em troca de um lote de terra como pagamento. "Como eu não tinha casa para morar, achei que era um bom negócio", relatou à reportagem sob a condição de anonimato.

O grileiro teria dito que era o dono do lote e que Carlos precisaria começar a construção o mais rápido possível, sob risco de perder aquele pedaço de terra. Sem dinheiro guardado para começar a obra, sua única saída foi fazer um acordo com a empresa em que trabalhava: seria demitido para poder sacar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FTGS) e começar a erguer o sonho de ter uma vida digna junto da mulher e dos filhos bebês, de 1 e 2 anos de idade.

Gastou quase R$ 30 mil na obra, concluída em maio. Dois meses depois, porém, começou a se espalhar pela comunidade um boato de que as casas construídas em terrenos irregulares seriam derrubadas pelo governo do DF. "Não acreditei. Só deu tempo de tirar nossos eletrodomésticos e ver nosso dinheiro ir pelo ralo. Tivemos de ir morar de favor."

Os moradores da Chácara do Padre se organizaram para tentar buscar uma saída na Justiça. O caminho até os tribunais foi aberto com uma série de cartas, depoimentos emocionados e escritos à mão, que relatam o drama de quem perdeu, de uma hora para outra, o teto onde vivia há pelo menos um ano. "Não tive nem tempo de reclamar, porque essa é a vida do pobre: não poder reclamar", escreve a moradora Irlene Rodrigues Coelho, que alega ter construído sua casa em 2013, sem ter sido informada, à época, de que se tratava de uma ocupação irregular.  

A ação truculenta de agentes durante a desocupação é narrada por Marilia Costa Silva. "Se existe Justiça, eu não creio. Estava de resguardo da minha segunda filha, quando aconteceu o inesperado: policiais entrando, jogando gás de pimenta dentro do lote em que eu estava com meus filhos. Comecei a ficar sem ar e desmaiei com o bebê nos braços, pois não aguentei o cheiro."

As cartas do Sol Nascente estão nas mãos da advogada Alinne Marques, que entrou com uma representação no Ministério Público e uma ação civil pública no Supremo Tribunal Federal. O principal argumento dos processos é a falta de notificação prévia aos moradores sobre a desocupação. "O governo tem a obrigação mínima de promover assistência e dignidade para as pessoas, mas não fez isso em nenhum momento", diz Alinne. "Todas as convenções internacionais dizem que é preciso firmar compromisso com os direitos humanos, mas o governo abriu mão disso e retirou da comunidade todos os seus direitos."

A presidente da Agência de Fiscalização de Brasília (Agefis), Bruna Maria Peres Pinheiro, negou irregularidades na condução das desocupações e disse que agentes públicos estiveram na região para tentar avisar sobre as ações, mas que são ameaçados. Por conta disso, acabam realizando esse trabalho no próprio dia em que as operações acontecem. "A Secretaria de Ação Social esteve lá antes, mas não conseguiu concluir seu trabalho. Houve tentativa de avisar, é o protocolo."

A ação na Chácara do Padre, disse Bruna, se baseou em dados históricos da ocupação. "Basta dar uma olhada em imagens de satélite do Google, por exemplo. Até julho de 2014, que é nossa data de referência, não havia nada ali. Depois disso, houve uma ocupação generalizada."

Segundo a presidente da Agefis, os trabalhos de remoção no Sol Nascente estariam próximos de 90% do que está previsto e, atualmente, a maior preocupação da agência é garantir que não haja novas ocupações. 

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Cartas do Sol Nascente

Depoimentos de moradores da Chácara do Padre fazem parte de processo que pede reparação do governo

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

Veja a seguir trechos de cartas escritas por moradores da "Chácara do Padre", região do Sol Nascente que foi alvo de desocupação em outubro. As cartas fazem parte do processo judicial que pede reparação do governo e respeito aos direitos de moradia da população.

Sheyla Oliveira de Miranda

"Declaro que passamos por uma derrubada em que muitas famílias e eu ficamos sem ter onde morar. Hoje vivo morando de favor, juntamente com meus três filhos e esposo. Passamos por um momento de felicidade, quando os órgãos do GDF (Governo do Distrito Federal) passaram medindo as ruas e a Caesb (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal) passou para colocar esgoto e água. Mas logo em seguida fomos surpreendidos pela Agefis e policiais, começando ali um pesadelo onde nossas casas foram derrubadas. Vi meu sonho sendo enterrado debaixo dos destroços. Agora não temos quem olhe por nós. Aí fica a questão: onde está o direito dos que não têm onde morar? Foi terrível ver meu lar, o canto dos meus filhos, no chão. A Agefis, sem dó nem piedade, nos dias 5 a 14 de outubro, passou por cima de muitas casas, destruindo meu lar e das demais famílias que ali vivem. Hoje estou tentando erguer meu lar sem água e sem luz. Passar por uma derrubada mexe com sonhos e projetos. Lutamos, choramos, gritamos e ninguém nos ouviu. Quantas famílias sem lar que viram seus sonhos destruídos..." 

Donisete Moreira Meneses

"A Agefis derrubou minha casa, mal deu para tirar as coisas, não sabia se tirava os móveis ou socorria minha esposa, que passou muito mal. Investi no sonho de uma vida inteira e isso se transformou em um pesadelo. Aguardamos por Justiça."

Maria Francinete Costa Aguiar

"Recentemente aconteceu uma derrubada, ocasião em que veio abaixo minha casa. O lote onde a minha casa se encontrava foi comprado através de economias feitas por mim. Logo depois, construí minha casa com muito esforço, mas um dia a Agefis chegou para derrubar tudo, com tratores e muitos policiais que, sem dó, lançavam bombas, spray de pimenta nos moradores, entre eles crianças, algumas recém-nascidas. No fim, acabou vindo abaixo a casa de todos, inclusive a minha, me deixando sem ter para onde ir com meus filhos, isso porque o governo não preocupou-se em providenciar uma moradia alternativa para ninguém, e hoje eu me encontro tendo que suar para pagar aluguel, sem ter condições."

Everton Paulo Oliveira de Almeida

"É com lamento e aperto no coração que escrevo essa carta, mas também com esperança de que dias melhores virão. No momento difícil em que o Brasil se encontra fomos retirados das nossas casas e deixados na rua por um governo corrupto, incompetente, mentiroso. Como podem deixar famílias passarem fome?"

Mérlia Cristina Costa e Silva

"Hoje me encontro dividindo uma casa com 11 pessoas, tive que dar o pouco que tinha e ficar só com o necessário. Meu maior pesadelo começou dia 5 de outubro, onde o maior sonho da minha vida virou escombros. Estava no trabalho quando recebi um vídeo que mostrava cenas de uma verdadeira guerra civil. Tratores, funcionários truculentos da Agefis, policiais tratando famílias como bandidos, spray de pimenta, gás de efeito moral, tropa de choque, casas no chão e pessoas nas ruas. Como uma cidadã brasileira, hoje eu não acredito  mais na Constituição Federal do Brasil. Estou morando em Brasília há 11 anos e todos esses anos foram de luta, batalhando para ter uma vida digna. Fiz um empréstimo bancário, todo mês fico com apenas R$ 200 para as contas do mês, mas esse dinheiro me ajuda, multiplica, porque Deus sabe da minha luta e mesmo assim minha maior felicidade era ter a minha casa! Hoje eu vivo a pior realidade junto com 370 famílias, sem perspectiva nenhuma e sem nenhum reparo legal. Rogo a Deus que toque no coração das autoridades, que elas se sensibilizem com essa tragédia e façam valer a dignidade humana."

Irlene Rodrigues Coelho

"Construí minha casa no ano de 2013 na Chácara do Padre. Minha casa foi conquistada com muito suor, pois trabalhei muito para ter um lar. Durante a construção, ninguém da Agefis ou qualquer outra pessoa veio até nós para dizer que não poderíamos construir nada naqueles lotes. Vendi meu único bem que era meu carro para ter um barraco digno para morar junto com minha família. Não tenho emprego fixo, pois trabalho como freelancer. Todo dia ia para o trabalho com um sonho de que logo teria minha casa sem ter a preocupação de morar de aluguel. Gastei o que não tinha. Um dia, a Agefis simplesmente chegou já tirando nossas coisas de dentro de casa. Sem nenhuma ajuda do governo para nada, fomos tirados das nossas casas pior que cachorros. Sem ao menos nos dar uma resposta. Detalhe: quando derrubaram minha casa eu estava viajando a trabalho, não tive nem tempo de reclamar, porque essa é a vida do pobre: não poder reclamar."

José William Lima da Silva

"Sou solteiro, morava na Chácara do Padre desde 2013, construí minha casa, gastei tudo que tinha pela esperança de moradia. Chegaram destruindo tudo, não deram nem um aviso antes pra gente poder procurar outra moradia, se organizar e tudo. Jogaram nossas coisas na rua, ficamos com uma mão na frente e outra atrás. Queremos a certeza de nossas moradias ou reembolso de quanto gastamos na casa. Moro com 4 pessoas."

Marilia Costa Silva

"Se existe Justiça, eu não creio, pois estava de resguardo da minha segunda filha e, no dia da derrubada, aconteceu o inesperado: policiais entrando jogando gás de pimenta dentro do lote que eu estava com meus filhos. Comecei a ficar sem ar, desmaiei com o bebê nos braços, pois não aguentei o cheiro. Meu esposo, com o pano, colocou-o no rosto dos meus filhos. Quando acordei, estava na casa dos vizinhos e meus filhos com os rostos inchados. Quero saber onde estão nossos direitos. Como seres humanos, no lixo. O governador acabou com meus sonhos e dos meus filhos: nossa casinha!"

Gleisson de Souza

"Me deparei com a tropa de choque da Polícia Militar em conjunto com a Agefis e tomei o maior susto da minha vida. Eles não nos notificaram e pegaram todos de surpresa. A ação começou e o pesadelo junto, muito desespero das famílias, idosos passando mal, crianças chorando na rua e meu sonho morreu naquele dia."

Luciana Cristina Lôpo Araújo

"Há cerca de 3 anos investi o pouco que tinha para comprar um lote na Chácara do Padre. Aos poucos, eu e meu marido fomos construindo nossa tão sonhada casa. Eu desempregada com um filho de 3 anos enfrentando muitas dificuldades, mas nunca deixamos de sonhar. Foi então que, no dia 4 de outubro, nosso sonho e único lar se acabou. Perdemos o pouco que tínhamos e hoje vivemos de favor, de casa em casa. O governo nos tratou como lixo, não fomos avisados, não tivemos qualquer ajuda nem mesmo na mudança. Hoje, 16/11, 1 mês após, faço tratamento com psicóloga por ter pânico de ouvir helicóptero ou polícia, de tão feia que foi a derrubada. Eu, meu marido e nosso filho não temos um lar, vivemos nos humilhando para ter onde dormir e ainda devemos R$ 40 mil para o banco, que foi de onde tiramos o dinheiro para realizar nosso sonho. Hoje preciso de remédios para dormir e não sou mais a mesma, tenho depressão e medo das pessoas devido à guerra que vivemos." 

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Documentário de moradores mostra o 'outro lado' do Sol Nascente

Filme traz histórias de superação e de quem, mesmo em uma realidade social precária, consegue fazer a diferença na melhoria das condições de vida

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

Um passe de Lionel Messi e a finalização de Di María, aos 12 minutos do segundo tempo da prorrogação, deram a vitória por 1 a 0 para a Argentina e tiraram a Suíça da Copa do Mundo de 2014, em um duelo na Arena Corinthians pelas oitavas de final. Mesmo derrotada, porém, a delegação suíça decidiu fazer um pequeno gesto cultural em Brasília, onde a equipe ficou hospedada durante a primeira fase do mundial.

Da delegação suíça sairia o financiamento para os meninos da Rede Urbana de Ações Socioculturais (Ruas) bancarem um documentário sobre o Sol Nascente. O contato foi costurado pela Embaixada da Suíça e do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (Unodc), parceiro da iniciativa social brasiliense. 

O filme não trataria apenas das mazelas e histórias de violência que reforçam o estereótipo negativo da região. "Queríamos mostrar o lado bom da comunidade. Um desafio foi fazer com que os moradores enxergassem as coisas positivas da região. Eles próprios estavam encharcados pela visão ruim que as pessoas em geral têm do Sol Nascente", diz Davidson Pereira, 31 anos, jornalista e morador da comunidade.

A contribuição suíça foi de R$ 40 mil. Depois de três meses de pesquisa, oito meses de filmagem e quatro meses de edição, Davidson e mais nove garotos conseguiram rodar um filme de 50 minutos sobre a favela. Estava pronto "O sol nasceu para todos".

O documentário dirigido pelo amigo Alan Mano K traz depoimentos de moradores. São histórias de superação e de quem, mesmo em uma realidade social precária, consegue fazer a diferença na melhoria das condições de vida da população. Para chegar ao resultado, foram ouvidas mais de 100 pessoas, entre os primeiros habitantes da região, catadores de material reciclado, vendedores de acarajé e líderes comunitários. 

"Não foi fácil. Quando chegávamos até as pessoas e contávamos que se tratava de um filme sobre o Sol Nascente, ouvíamos que isso era besteira. Então passamos a ir de casa em casa e perguntar qual era o sonho pessoal de cada um e o que desejavam para a comunidade. Só aí conseguimos avançar", conta Davidson.

Em julho, "O sol nasceu para todos" foi exibido no teatro Newton Rossi, no Sesc de Ceilândia. Davidson e seus amigos do programa social Ruas estão em busca de divulgação do material em outras regiões. Uma versão ampliada do documentário também está em andamento.

 

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Governo pede 'paciência' e promete regularização

Rodrigo Rollemberg se comprometeu a entregar, até o fim de 2018, escrituras para cada uma das casas do Sol Nascente

André Borges e Luísa Martins, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 03h00

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, colocou todos os problemas que castigam a população do Sol Nascente na conta de governos anteriores. Em entrevista ao Estado, o governador disse que "há uma cultura da grilagem de terras que se arrasta há muito anos na região" e que, somente agora, essa postura passou a ser combatida.

"As comunidades foram se instalando nessa região por conta da omissão de outros governos. Então é preciso que haja um pouco de paciência. Hoje há um compromisso do governo com o Sol Nascente. Estamos combatendo com muito rigor e custo político esse problema da grilagem" disse o governador.  "Quando assumi o governo, havia um orçamento da Caixa de R$ 167 milhões já aprovado para a rede de esgoto, calçamento e asfalto da região, mas esse recurso não foi usado. E agora nós estamos usando esse dinheiro."

Rollemberg se comprometeu a entregar, até o fim de 2018, quando acaba seu mandato, escrituras para cada uma das casas do Sol Nascente. Para isso, o governo adotou uma linha de corte: todas as ocupações feitas após julho de 2014 terão que ser demolidas. Aquelas que foram feitas antes dessa data serão analisadas e, caso não estejam em locais de risco ou onde estejam previstas obras como abertura de ruas, por exemplo, entrarão em processo de regularização.

Antes de entregar as escrituras, o governo do DF promete concluir a construção da unidade básica de saúde do trecho 1 da favela, que deveria ser entregue no dia 4 de novembro deste ano, mas que até agora só está com 10% de suas obras concluídas, segundo a Secretaria de Saúde do DF. O valor total do projeto é de R$ 2,3 milhões. Por meio de nota, a Secretaria de Saúde informou que "houve um atraso na entrega da obra, porque foram encontradas falhas no projeto estrutural" da unidade. "Estamos com dificuldades financeiras imensas. Essa obra não está no orçamento, o que torna a situação mais difícil. Mas vamos entregá-la até o fim de 2017", comentou Rollemberg.

Segundo Gilson Paranhos, presidente da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab), órgão que tem a função de apoiar a regularização de áreas, o Distrito Federal tem encarado um aumento de 70 mil habitantes por ano. "Teríamos que erguer 20 mil casas por ano para poder atender. Então há um déficit de casas, por conta desse crescimento violentíssimo. A ocupação é uma loucura, não acontece nada igual no País. Brasília é hoje a terceira cidade mais populosa do Brasil", comentou. "Por isso, o trabalho de retomada do território é essencial, senão o governo não consegue fazer nada."

Sobre a ausência de redes de esgoto e pavimentação, o secretário de infraestrutura e serviços públicos do DF, Antônio Coimbra, disse que dois dos três trechos que formam o Sol Nascente deverão estar pavimentados até o fim de 2018. A previsão é de que R$ 187 milhões sejam aplicados em drenagem, saneamento e pavimentação.

O governo também foi questionado sobre o lixo que se espalha ao longo das ruas do Sol Nascente, onde moradores chegam a fazer "vaquinha" para pagar alguém disposto a recolher a sujeira. Rollemberg reconheceu a gravidade do problema. "Como as ruas são muito ruins, os caminhões têm dificuldade de entrar nas ruas. E as pessoas jogam os lixos nas travessas."

Por meio de nota, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) informou que a favela será a primeira a estrear um novo serviço de coleta, um sistema que utiliza contêineres semienterrados, e que o lixo será recolhido diariamente por caminhão. "A coleta convencional no Sol Nascente é realizada diariamente, de domingo a sábado. Em alguns pontos da região, o recolhimento é realizado três vezes ao dia", informou o órgão, acrescentando que em alguns pontos a coleta é feita porta a porta.

A respeito da informalidade e precariedade dos serviços de transporte, que dentro da favela é feito praticamente por carros particulares, a DFTrans informou que a região é atendida por 12 linhas de ônibus e que houve aumento de números de viagens neste ano. 

A reportagem encontrou casos de pais que se juntam para pagar gasolina e enviar seus filhos para escolas mais distantes. Sobre este tema, a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEEDF) informou que a região do Sol Nascente conta com sete escolas, nas quais estão matriculados 3.628 estudantes, e que "os alunos que estudam em outras escolas da região administrativa de Ceilândia são atendidos por transporte escolar." No total, afirmou, "são cerca de 1.773 estudantes, no turno matutino e vespertino, que contam com 25 ônibus."

O governo do DF declarou que, no plano de obras até 2018, há previsão de construção de duas creches, uma escola de ensino fundamental e uma de ensino médio no Sol Nascente. "Os projetos estão em fase de elaboração", informou a SEEDF.

 

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