Solo é responsável por 40% das rupturas em túneis de SP

Em 1982, a Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp) estava construindo a maior obra de saneamento de São Paulo, o projeto Sanegran, considerada a "Itaipu dos Esgotos". A escavação era feita pelo New Australian Tunneling Method (NATM). A técnica, que exige mão-de-obra intensiva, é a mesma usada na futura Estação Pinheiros do Metrô, que ruiu no dia 12, causando seis mortes.No caso da Sabesp, em 1982, operários usavam explosivos para avançar nas escavações na altura de Barueri, na Grande São Paulo, onde a boca do túnel tinha seis metros de diâmetro. Tiveram, então, uma trágica surpresa. O fundo de um lago localizado perto da margem esquerda do Rio Tietê estava acima do trajeto percorrido pelo túnel. O mapa da região, feito durante o projeto da obra, não havia apontado a presença de água no local. A explosão fez com que o túnel inundasse repentinamente, matando nove trabalhadores.O desastre no Sanegran é um dos 19 registros de acidentes em túneis na capital ocorridos nos últimos 25 anos. Nesses casos, levantados pelo professor Roberto Kochen, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), pelo menos 19 pessoas morreram. Entre as rupturas, 14 delas ocorreram em obras realizadas pelo método NATM. O balanço aponta que em 40% dos casos de rupturas e colapsos os desastres aconteceram por causa de imprevistos geológicos. Em outros 40%, foram detectados erros na construção. As demais ocorrências aconteceram por conta de outros fatores, como falhas humanas. "O maciço de rocha e solo é muito complexo e sujeito a grandes incertezas. Por isso é sempre preciso considerar a possibilidade de imprevistos."Sobre acidentes em São Paulo, o professor constata que a maior lacuna no conhecimento atual da engenharia de túneis é determinar qual a probabilidade ou risco de uma determinada anomalia geológica ocorrer. "Este tipo de falha acontece quando os responsáveis pelo projeto, construção e supervisão não previram deficiências no método construtivo em uso para as condições de solo efetivamente encontradas." Foi o caso do colapso no Túnel Tribunal de Justiça, na Avenida Juscelino Kubitschek, em novembro de 1993, durante a gestão de Paulo Maluf na Prefeitura. Ele provocou a abertura de uma cratera de 30 metros. Kochen lembra que eram cerca de 10 horas quando telefonaram para avisar que estava entrando água no túnel vinda do Córrego do Sapateiro. "O colapso demorou horas. Rompeu na parte da tarde e não houve vítimas. Foi em ritmo mais lento que em Pinheiros." Média de um acidente por anoEntre 1981 e 1998, houve em média um acidente por ano nas obras de túneis na cidade. Em três casos, o método usado era o shield, que emprega o tatuzão, máquina gigante, de 1.800 toneladas, capaz de escavar 14 metros por dia. Nos outros casos, estava sendo usado o método NATM. Como depende do uso intensivo de mão-de-obra, o NATM está bastante sujeito a falhas humanas. Tanto que, num estudo sobre acidentes em túneis, o especialista Roberto Kochen assinala que eles ocorrem perto de fins de semana, quando as equipes estão, teoricamente, mais cansadas.

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